
 Refgio do amor
  The wrangler's bride
  Justine Davis
  Famlia Fortune 10

Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!



   Grant McClure  do tipo que traa seu prprio destino sem contar com a riqueza da famlia, os Fortune! Mas este rude celibatrio passa a ter algum que precisa
dele: Doris Brady. E  no rancho de Grant que ela encontra seu nico refgio. S que Meredith no imagina que corre um risco muito maior se apaixonando por Grant.


   O Dirio de Kate Fortune

   Graas a Deus a famlia Fortune descobriu as mentiras de Tracey Ducet. Eu sabia o tempo todo que ela era uma impostora, uma mercenria, pois o gmeo desaparecido
era um garoto. Eu estou emocionada por ela ter sido descoberta antes de causar mais um dano a famlia. A minha maior preocupao agora  Jake. Eu sei que ele  inocente,
e di profundamente v-lo sofrer e no poder ajud-lo. Est chegando a hora de eu parar de me esconder. Minha famlia precisa de mim, e eu no posso decepcion-los.


   GRANT McCLURE: Um fazendeiro realista. Ele no est nem a para o sexo oposto, especialmente para as mulheres da cidade grande, que vo atrs dele apenas por
causa da beleza e do dinheiro. Mas quando ele enfim encontrar a mulher dos seus sonhos, ser que vai se dar conta que ela gosta dele, como ele e?
   DORIS BRADY: Uma agente policial ameaada. Ela  a nica testemunha de um crime e  forada a procurar um refugio seguro na fazenda de Grant, em Wyoming. Ser
que l ela vai poder superar a culpa pela morte do seu parceiro e achar a felicidade nos braos de Grant?
   JAKE FORTUNE: Presses dos negcios e da sua natureza exigente arruinaram o seu casamento com a dedicada Erica. Mas Jake se deu conta dos erros que cometeu. Uma
reconciliao com a mulher desprezada vai ser possvel?
   BRANDON MALONE: O filho adotivo de Monica Malone. Depois da morte da me, a verdade surpreendente sobre o parentesco dele  revelada. E essa descoberta ter repercusses
para toda a famlia Fortune...
   KRISTINA FORTUNE: A princesa paparicada. Ela est acostumada a conseguir o que quer, principalmente dos homens, que no resistem ao seu charme sexy. Haver um
homem imune a sua beleza e bravo o suficiente para domar-lhe o esprito teimoso?


   Liz Jones

   A Colunista N 1 das Celebridades

   Leiam essa, fofoqueiros de planto! O escndalo no poderia ser melhor! Jake est preso. Tracey Ducet, a mulher que dizia ser a herdeira desaparecida dos Fortune,
 uma impostora. Brandon Malone  o gmeo desaparecido. E o mais espantoso de tudo: Ben Fortune, o pai biolgico de Brandon, foi responsvel pelo rapto do prprio
filho!
    verdade o que eles dizem: a realidade  mesmo mais surpreendente do que a fico!  desse tipo de histria que so feitos os filmes de Hollywood. Pelo menos,
os bons filmes. Quem sabe eu no deva criar um roteiro para Brandon? Talvez faa sucesso na indstria de cinema? Eu s fico pensando quem poderia ser escalado para
os papis principais. Vocs acham que Harrison Ford aceitaria ser Jake? Afinal de contas, ele tem experincia em interpretar fugitivos!
   Acompanhar os Fortune  mais divertido do que novela. Eu, pelo menos, estou morrendo de vontade de saber como vai ser o ltimo captulo.


   Captulo 1

   Ela era esperta assim mesmo, ou ele que era um palerma?
   Grant McClure balanava a cabea desolado a caminho do galpo principal. Provavelmente, era um pouco das duas coisas. Ele sempre cedia s chantagens de Kristina
Fortune, mesmo quando capaz de reconhec-las. A sua meia-irm, porm, era muito charmosa, mais espirituosa do que maliciosa; difcil dizer-lhe no.
   E foi o que ocorreu. E, sendo assim, teria de agentar o peso de uma hspede indesejada, no pior momento para ele e para a fazenda.
   Reprimiu um suspiro e encostou-se na porta da baia, escutando o barulho do motor da caminhonete da fazenda, deixando a propriedade.O jovem Jenkins, apelidado
de Risada pela alegria rotineira, estava bastante eufrico por dirigir o novo veculo, apesar de no esconder o incmodo de ter sido enviado numa misso bem pouco
emocionante: pegar uma turista que chegava ao povoado.
   - Ei!
   Assustado, Grant agarrou o chapu marrom-escuro, que subitamente escorregou sobre seus olhos. Virou-se, enquanto o cavalo enorme atrs dele relinchava, como se
divertisse com a cena.
   - Droga, Curinga, pare com isso.
   Sentiu-se ainda mais estpido ao ouvir as prprias palavras de repreenso ao garanho appaloosa. Com o focinho, o animal empurrou o chapu at a aba larga tocar
a ponta do nariz de Grant.
   Ele encarou o cavalo. O garanho balanou a cabea com vigor, a crina juntou-se ao plo branco em volta de um dos olhos. A marca dava ao animal o aspecto de um
palhao, caracterstica que combinava com o seu surpreendente temperamento brincalho. Da o apelido Curinga. O cavalo bufava e mexia a cabea, demonstrando entusiasmo
pelo sucesso da travessura.
   Grant relaxou e abriu um sorriso.
   - O que que , seu pangar imprestvel? - resmungou. Longe disso. O lindo garanho era um dos cavalos mais notveis que ele j havia visto. Porte perfeito, fora,
velocidade, resistncia, o animal tinha tudo. Juntem-se a isso um corao to grande quanto as montanhas da regio, uma personalidade cativante e o aparente dom
de passar tais qualidades para as suas crias. O garanho era o sonho de qualquer criador.
   E um sonho que Grant McClure nunca pensou que pudesse se tornar realidade, nem em um milho de anos.
   - Obrigado, Kate - sussurrou Grant consigo mesmo - No sei por que voc fez isso, mas obrigado.
   - Venha, seu palhao - disse, esticando o brao para coar a parte debaixo da mandbula do cavalo, carinho que ele logo aprendera que o animal gostava- Vamos
fazer um pouco de exerccio, antes que voc fique mal acostumado.
   Curinga bufou e balanou a cabea de contentamento. Foi o que pensou Grant, ciente de que cada vez mais tratava o bicho como se fosse gente, algo que ele nunca
fizera com outro animal, com exceo, talvez, de Aposta, o pastor australiano.
   Rpido e inteligente, o co ajudava na fazenda McClure tanto quanto qualquer outro funcionrio. O grande appaloosa, porm, convidava sugeria tais comparaes.
Depois de um ano e meio lidando com o cavalo, Grant finalmente desistira de lutar contra o impulso.
   Quase duas horas depois, mais satisfeito do que nunca com a disposio e a performance refinada de Curinga, ele levou o cavalo para uma mais do que merecida recreao
no grande curral, atrs do galpo principal. Depois, o trabalho para limpar o cavalo seria ainda maior, j que ele fatalmente se sujaria ainda mais de lama, mas
o animal fez por merecer o prazer do esfrego nas costas, concluiu Grant. Alm disso, chegava-se ao fim de novembro, e o frio j se instalava nos planaltos de Wyoming,
nos Estados Unidos. Em breve, no haveria nada alm de neve em volta. Algumas nevascas j chegaram, para surpresa de muitos, mas o gelo teve tempo de derreter entre
uma tempestade e outra.
   No demoraria muito, todavia, para que o tapete branco de neve se acumulasse sobre tudo. A partir desse momento, todos trabalhariam at a exausto para manter
os animais vivos durante o inverno, e a ltima coisa de que ele precisava era uma garota da cidade grande para bajular...
   O rudo da caminhonete retornando interrompeu os pensamentos de Grant.
   - Vamos l - resmungou Grant, trazendo Curinga pelas rdeas, pronto para saudar a hspede.
   Ele viu primeiro Risada. Em p ao lado do jipe azul todo sujo de lama, o garoto tinha um sorriso largo, o rosto corado e um olhar de deslumbramento. Curioso,
logo Grant avistou o motivo bvio da expresso do empregado: a mulher que desceu com esforo, mas sem pedir ajuda, do veculo. O cabelo louro e longo, preso num
rabo de cavalo, balanava a cada passo dela em volta da caminhonete. Ela vestia jeans e um casaco pesado, forrado, e parecia no se importar com a brisa cortante.
   A mulher parou no momento que percebeu a aproximao do anfitrio. Era bvio que ele estava perplexo, mas no podia disfarar. No esperava aquilo.
   Ela era pequena - pelo menos em relao ao seu 1,80 metro - e no somente em altura. Do rostinho de fada at os pequenos ps guardados nas botas marrons, cada
centmetro dela parecia delicado, para no dizer frgil. E as olheiras aumentavam a aparncia de fragilidade. Ela parecia cansada. Mais do que cansada, esgotada,
uma exausto que ia alm do explicvel. Grant sentiu uma pontada estranha. O pai dele tinha o mesmo semblante semelhante nos dias dolorosos que antecederam  sua
morte, cinco anos atrs.
   Ela o mirava; a fadiga lhe ofuscava os olhos, que deveriam ser de um verde mais vivido.
   - Oi, Grant.
   A voz era delicada, um pouco rouca e dava a impresso de estar abaixo do tom normal, o que ratificava o que ele vira nos olhos dela.
   - Oi, D.
   Ao ouvir o velho apelido, ela riu, sem alterar o olhar aflito.
   - Ningum me chama assim desde que voc deixou de ir para casa no vero.
   - Minneapolis nunca foi a minha casa, era somente o lugar em que a minha me estava.
   Ela reparou em volta, na tentativa de assimilar a imensido daquela paisagem selvagem com uma viso acostumada s torres de ferro e concreto da cidade, e no
aos picos de granito e neve das montanhas.
   - , aqui sempre foi a sua casa - disse ela, quase num sussurro.
   - Sempre.
   A voz de Grant vibrou com um fervor que ele no tentou esconder. Desde os tempos de criana, tinha conscincia de que este lugar era parte inseparvel dele, que
era irresistvel o apelo desta beleza em estado bruto, e inegocivel, a presena dele aqui.
   - Ento, este  o lugar para onde voc sempre queria voltar. Eu acho que eu entendo agora.
   Ela suspirou, um rudo baixinho, mais visvel do que audvel. Ele deduzira, quando Kristina havia lhe dito que Doris Brady tornara-se uma policial, que a mulher
deveria ter crescido bastante depois daquele ltimo vero. Na poca, a menina insistente e fatigante de 14 de anos era da mesma altura que Kristina, dois anos mais
nova do que ele. Enganara-se. Achava que ela no ganhou mais do que um centmetro nos 12 anos desde ento. No media mais do que 1,55 metro, ele calculou com olhos
mais acostumados a medir cavalos do que pessoas e, especialmente, mulheres.
   - Voc... mudou - afirmou Grant. E era verdade. Lembrava-se dela como uma menina ativa, muito semelhante  irm Kristina, exceto pelos olhos verdes em vez dos
azul-claros. Uma garota cheia de energia, e de baixa estatura. A altura no mudara muito, mas a energia, sim. No havia sequer resqucios daquele vigor  mostra.
   - Mudei, mas no cresci. Pode dizer - acrescentou ela, em tom de lamento.
   - Bem, voc no cresceu. Quero dizer...muito.
   - Para voc  fcil falar. Foi voc quem cresceu dez centmetros num nico vero.
   Esse havia sido um vero esquisito, quando o seu corpo de 15 anos decidiu que chegara o momento de espichar-se de uma vez s at atingir 1,80 metro, numa esticada
que pareceu mesmo ter se dado em curtos trs meses. Ficara constrangido pela sbita falta de jeito e coordenao motora, pelo fato de as suas roupas no mais caberem
e, principalmente, pela fascinao que passou a despertar na irritante e onipresente melhor amiga da irm.
   - Incrvel que eu tenha conseguido crescer um pouco, apesar de trazer voc sempre agarrada no meu p, Doris Ceclia.
   Ela fez uma careta.
   - Ai, por favor, me chame s de Doris.
   - Ou D? - sugeriu Grant. - Ou melhor: "Tenha D".
   Ele se orgulhara da prpria perspiccia ao apelid-la no vero em que os dois se conheceram. Usava a primeira slaba do nome dela para expressar a sua chateao
por t-la seguindo-o onde quer que ele fosse.
   - Voc sempre se achou o mximo por ter inventado esta histria - comentou ela.
   - Combinava - explicou ele. - Voc nunca me deixava em paz. Todas as vezes que eu visitava mame, voc estava sempre no meu p. Nunca me esquecerei daquela vez
que voc me seguiu at a pista de patinao no gelo e ficou presa na roleta.
   - Eu tinha somente doze anos - defendeu-se ela com dignidade. - Eu me apaixonei por voc depois que voc me salvou daqueles garotos debochados.
   Grant piscou, um pouco nervoso. Desconfiara que ela apaixonara-se. No era a mais difcil das dedues, j que a menina imprevisvel ficava no seu encalo, como
um cachorro que seguia o dono. No imaginava que a paixo havia se iniciado naquele momento. Ele recordou-se de encontr-la cercada pelos dois garotos maiores. Ela
sustentava o queixo empinado, mas as lgrimas minavam dos olhos.
   Ele expulsou os meninos dali e depois a levou at em casa. D s abriu a boca quando os dois finalmente chegaram ao destino e no disse mais do que um simples
obrigado.
   - Eles eram apenas uma dupla de valentes - afirmou Grant.
   - E voc era o prncipe encantado que viera me salvar - respondeu Doris.
   Grant franziu a testa. Nem mesmo a mais impressionvel das crianas o consideraria um heri.
   - Mas no se preocupe - completou ela. Desta vez, com um sorriso verdadeiro, quase devolvendo o velho brilho aos olhos verdes. - Superei essa fase h muito tempo.
Graas a Deus.
   - Ah.
   A explicao veio de forma direta, sem hesitaes, e mexeu com Grant. Estava ele feliz por v-la admitir o amor juvenil? Ou ofendido por ela ter superado a paixo
to facilmente? E parecia satisfeita com isso. Ele quase riu. J no havia sido o bastante o nmero de mulheres que se encantaram com ele por sua beleza? E mais
do que o bastante aquelas que se encantaram com o dinheiro por trs do seu sobrenome?
   Pelo menos Doris nunca fora esse tipo de mulher. Mesmo nos piores momentos de sua paixo de menina, ela nunca o bajulara. A menina de rabo-de-cavalo que o seguia
o tempo inteiro nem sabia o que era isso.
   Ela mantinha o rabo-de-cavalo. Mas a menina moleque cresceu. No havia como negar que os traos que um dia ele relacionara aos de um capetinha tornaram-se lindos.
Olhos grandes, nariz arrebitado, queixo saliente... Doris Brady transformara-se em uma bela mulher. Deslumbrante. No era  toa que Risada parecia nas nuvens.
   L estava o funcionrio Risada a postos com as orelhas bem atentas, Grant notou com desagrado. Um pouco envergonhado, mas visivelmente entusiasmado, o garoto
no tirava os olhos de Doris, que aparentava ignorar completamente o fascnio daquele jovem.
   Ali estava, junto com o funcionrio, o patro, parado, a admirar a moa. Grant censurou-se, pois o fato de estar solitrio h tanto tempo no justificava seu
pulso acelerado repentinamente. Afinal de contas, diante dele exibia-se o carma da sua adolescncia- "Tenha D", a peste. O fato de ter se tornado uma mulher atraente
no significava nada. Nada mesmo.
   Isso no o impediu de imaginar como D ficaria sem o rabo-de-cavalo, com os cabelos sedosos espalhados pelos ombros.
   - Arrume aqueles blocos de sal. - Grant deu instrues firmes ao jovem ajudante. - Vou mostrar a casa para ela.
   Risada no escondeu a decepo.
   - Eu ia carregar as malas para ela...
   - Eu posso fazer isso - interrompeu Doris. - No esto muito pesadas, eu no gosto de viajar com muita coisa.
   - Mas eu...
   - Eu preciso daquele sal, pronto - ordenou Grant. - E agora.
   - Sim, senhor - aceitou Risada, resignado. Com rosto simptico, marcado por sardas, o garoto virou-se para D. - Se voc quiser eu te mostro o lugar...
   - Pode deixar. Obrigada - respondeu ela, sorrindo para o jovem.
   Um sorriso elegante, Grant pensou, e frio. Um sorriso ensaiado, vago. No lhe pareceu porm um sorriso falso, como aqueles das mulheres com quem esbarrava nas
suas raras incurses aos eventos sociais da me.
   No, no era um sorriso superficial, Era mais uma mscara, para esconder... O qu? Vazio? Dor?
   Veio-lhe a cabea neste instante o que Kristina havia dito durante a conversa por telefone na semana passada. O pedido da meia-irm fora direto: D necessitava
de um lugar para ir, um abrigo, longe da cidade, por um tempo, depois do assassinato do parceiro, Nick Corelli, em misso.
   "Ela e Nick eram muito prximos", Kristina dissera, na parte mais sincera da ttica aduladora da irm."Ela est arrasada, precisa descansar, no est suportando
mais. Por favor, Grant. No  por muito tempo.Ela precisa de algum lugar tranqilo onde as pessoas no vo estar o tempo todo falando sobre o que ocorreu. Algum
lugar onde ela possa sofrer o que tiver que sofrer e superar o que passou."
   Claro, ento era isso. Sofrimento se alojava naquele sorriso calculado. Ela deve ter gostado muito do parceiro. E ele, enquanto isso, irritava-se por receber
em casa a maldio da sua infncia, sem dar a mnima para a dor da mulher que perdera algum querido. Arrependido, suspendeu as duas malas que Risada deixara ao
lado do veculo.
   - No se preocupe, eu posso com elas - disse Doris.
   - No duvido, mas no se incomode. Voc fez uma longa viagem.
   - Passei a maior parte do tempo sentada - rebateu. -Eu posso carregar a minha prpria bagagem.
   Grant soltou as malas, temendo que aquilo fosse um sinal do que estivesse por vir. Antes que ele abrisse a boca, D se antecipou:
   - No tem nada a ver com feminismo - afirmou rapidamente. - Eu sou uma intrusa aqui, sei disso. Voc tem a sua fazenda para administrar, e j est fazendo um
grande favor em me deixar ficar um tempo aqui. Se h alguma coisa em que eu possa ajudar,  s avisar. Eu no quero ser tratada como uma hspede, e no quero desde
j.
   Grant fez cara de desconfiado.
   - Ento me diga exatamente como voc quer ser tratada?
   D riu de repente, a reao mais genuna que ele obtivera dela desde sua chegada. O sorriso teve nele o efeito de um choque eltrico, que percorreu o seu corpo
com tal rapidez e fora, que o deixou confuso.
   - Apenas me ignore.
   Mesmo perturbado, Grant replicou com humor:
   - Eu duvido que algum possa ignor-la, D. Eu tentei isso por anos. Todos os veres.
   Ela apenas levantou levemente uma das delicadas sobrancelhas ao ouvi-lo cham-la pelo apelido, mais uma vez.
   - Eu sei... e quanto mais voc tentava mais determinada eu ficava.
   - Eu lembro.
   Teve que tirar os olhos dela; aquele sorriso mexeu mesmo com ele.
   - Voc vai ficar a maior parte do tempo presa dentro de casa quando a neve realmente chegar.
   - Eu trouxe um monte de livros - disse ela.
   - Eu no espero que voc trabalhe, mas que voc no d trabalho extra para os meus homens. O inverno  a pior estao para ns, e todo mundo vai estar muito ocupado.
   Doris no tomou o comentrio como ofensa.
   - Eu provavelmente no serei de muita valia - respondeu. - Nunca cavalguei e no sei nada sobre vacas, mas posso tomar conta de mim mesma.
   - Gado - corrigiu ele.
   - Gado. Tudo bem. - Ela deu de ombros, mantendo o bom humor. D no tinha problemas em admitir desconhecer algo.
   Que bom. Grant havia visto muita gente mudar para esta parte do pas, em busca de aventura, sem um pingo de conhecimento sobre a realidade local. O seu irmo
de criao Kyle fora um deles. Entretanto, a fazendeira Samantha Rawlings rapidamente e permanentemente  o ensinara. O irmo, at ento volvel, acabou at se dando
bem.
   Com uma me manipuladora e vingativa como Sheila Fortune, a inconstncia de Kyle no poderia ser considerada uma surpresa, Grant pensou, mais uma vez agradecendo
pela me bondosa e calorosa que tem. Incrvel que os filhos de Sheila tenham conseguido furar o cerco e construir uma vida prpria. Com Kyle, Michael e Jane casados,
Sheila deveria estar babando roendo-se de raiva por no mais poder controlar as crianas. Ele no invejava em nada os filhos do padrasto. Certas vezes, tinha at
pena do marido da me; mas no por muito tempo.
   Forou-se para trazer os pensamentos de volta  Terra, baratinado pela presena daquela mulher.
   - Eu no vou ter tempo para tomar conta de voc, pois quando comear a nevar... - alertou Grant. - Voc vai ter que se virar.
   Os olhos dela expressaram peso e dor, e ele arrependeu-se das palavras que pronunciara.
   - Vai dar tudo certo - disse Doris, secamente.
   O tom de voz contradizia o olhar dela, e Grant deduziu que D sabia esconder as emoes, que tinha prtica nisso. Doris agarrou uma das malas.
   - Vamos dividir? - sugeriu ela.
   - Tudo bem - concordou Grant, apanhando a outra. D levantou a mala sem problemas, e ele deu-se conta de que elas no estavam leves. No deveria se surpreender,
disse a si mesmo. Como policial, ainda mais uma policial feminina, ela provavelmente tinha que ser mais do que e preparada para o trabalho. E, segundo Kristina,
o trabalho no era problema para D. Graduou-se na academia de polcia no dia em que completou 21 anos, a idade mnima para receber o diploma. Uma vez que Doris
Ceclia Brady estipulava um objetivo, nada bloqueava o seu caminho, contou a irm.
   A admirao da mimada Kristina ao falar de Doris era verdadeira. Algumas vezes, Kristina conseguia ser mais do que irritante, porm o charme e a inteligncia
a salvavam. Chegar o dia em que ela ir se deparar com algum homem que ela no possa controlar, algum homem que no tenha pacincia com as suas performances de
menininha mimada, e, da, fascas vo surgir.
   D sempre foi a amiga mais prxima da irm, e, quando precisava de ajuda, Kristina estava sempre presente. Desta vez, ela envolveu at o irmo. E por ter sido
esta uma das poucas vezes em que Kristina pedia algo que no para seu prprio benefcio, tornara-se difcil para ele recusar.
   D.
   Ela dissera como cham-la, mas ele continuava a pensar nela como D, resgatando o apelido da infncia. No sabia direito por qu. Um lembrete talvez de quem era
ela? Uma amiga de Kristina e uma mulher de luto. Melhor usar o velho apelido a fim de ajudar a memria. No se esquecera do frio na barriga provocado pelo sorriso
dela. A reao fora inesperada, mas ele no podia neg-la. Se o apelido de criana significava um pouco mais de distncia entre os dois, mais uma razo para adot-lo.
Ele no tinha tempo para lidar com sentimentos durante um inverno.
   Tudo devia ser fruto da novidade de ter uma mulher por perto. Diabos, ele praticamente no via uma mulher h um ms e no saa com uma pelo triplo do tempo. No
era de se espantar que D lhe despertasse a libido para a vida.
   Ele tinha certeza de que tudo no passava de um impulso inicial.
   No estava to seguro, todavia, sobre como abrigar um corao ferido como o dela. Ele conhecia a dor da perda, conviveu com a sensao durante um longo tempo.
Tinha trs anos de idade quando a me deixou o pai e a fazenda. A mesma dor voltou quando o pai morreu, um processo longo e lento; um sofrimento assistir ao homem
vigoroso definhar. No ltimo suspiro, o pai culpou-se por ter perdido a nica mulher que amou para a vida urbana, que tanto odiava.
   Como filho no encontrara nada que amenizasse sua dor na ocasio. Como poderia ento prover para algum algo que no conseguira para si? No saberia nem mesmo
por onde comear. D queria apenas um lugar para se esconder, segundo Kristina, para obter um pouco de paz, cicatrizar as feridas.Ele no nutria muitas esperanas
de que D encontrasse algum alvio. Principalmente para uma morte to brutal e inesperada. A morte de algum que, julgando pelo seu olhar, ela gostava muito.
   Provavelmente, no exista alvio para esse tipo de dor.


   Captulo 2

   Grani McClure podia no mais ser o seu prncipe encantado, pensou Doris, mas ele certamente no estava menos bonito, imponente e forte agora do que na adolescncia.
O trabalho no campo fazia maravilhas ao fsico masculino, coisas que os musculosos das academias de Minneapolis nem sonhariam a respeito.
   Ela tambm apreciou as rugas que de leve comeavam a aparecer em volta dos olhos dele - olhos acostumados a vasculhar longas distncias, olhos que em contraste
com a pele bronzeada eram de um azul ainda mais cristalino daquele que se lembrava. Grant substituiu os cachos longos por um corte curto, que lhe caiu muito bem.
O cabelo castanho claro mal tocava a gola da camisa.
   Ele estava muito bem, e ponto final. E ela, orgulhosa consigo mesma por ter concludo isso com tranqilidade, sem o frisson de anos atrs. Bem, quase isso.
   Doris guardou uma suter numa gaveta, fechou-a e ergueu-se para examinar o quarto. Grant lhe dissera que ali era que Kristina, nas raras vezes que visitava a
fazenda, se instalava, "antes que o isolamento e a falta de festas lhe dessem nos nervos, e ela voltasse correndo para a cidade".
   No havia no aposento nada que registrasse a estada da amiga. Talvez Grant, aps a partida da irm, tenha devolvido a decorao normal ao lugar, pois aquela moblia
simples e utilitria no combinava com o estilo de Kristina Fortune. Doris porm sentiu-se confortvel na grande cama de casal e gostou da penteadeira de madeira.
   Ela apanhou da mala uma pilha de camisetas de mangas compridas. Kristina descreveu o inverno na fazenda do meio-irmo com requintes de terror. Doris sorriu ao
imaginar que algum de Minneapolis pudesse achar algum lugar mais frio do que a cidade, mas seguiu  risca os conselhos.
   E no havia sido incrvel, ela pensou enquanto arrumava as camisetas na gaveta, o quo rpido aceitara o velho apelido? Quando criana, inicialmente, odiou a
brincadeira, mas aprendeu a gostar por ser Grant a nica pessoa a cham-la de D.
   O uso do apelido tanto tempo depois deixava evidente que Grant ainda a via como a criana da qual zombava na adolescncia. Por ela, tudo bem.
   Voltou-se para as ltimas peas de roupa sobre a cama, duas camisolas de seda. Ela teria que vestir jeans, camisas por baixo dos casacos e meias de l durante
o dia, mas  noite no abriria mo de uma seda macia, um de seus poucos luxos.
   Arrumava as camisolas com capricho na ltima gaveta da penteadeira, quando um estranho rudo a distraiu.
   - Oi - cumprimentou Doris, sorrindo para o cachorro, que educadamente sentara do lado de fora da porta do quarto. O animal, malhado de cinza e preto, batia nos
seus joelhos. O co tinha um olhar um pouco perturbador, j que um de seus olhos era marrom, e o outro, azul-claro. Ela deu dois passos e agachou-se diante do animal.
Algo no comportamento do bicho a preveniu de arriscar uma intimidade excessiva, como tapinhas na cabea.
   - Veio conhecer a intrusa? - indagou Doris.
   - Eu recomendo que voc no lhe d muita confiana, ele no  do tipo que faz festa.
   Ela olhou para cima, impressionada por Grant ter se aproximado sem que ela notasse. Raramente era surpreendida dessa forma.
   - Eu j percebi - afirmou Doris. - Eu j lidei com um ou dois cachorros e posso reconhecer o sinal de olhe mas no me toque.
   - Ele  um co para o trabalho, no  um bichinho de estimao. No est buscando amigos.
   Por um instante, ela teve a impresso de que aquelas palavras no eram um alerta somente sobre o cachorro, mas decidiu que estava procurando problemas onde no
havia.
   - Longe de mim contrari-lo - disse Doris, levantando-se. O co continuava a examin-la, curioso. - Mas caso ele mude de idia, voc no se chatearia se eu no
o rejeitasse.
   - Provavelmente, no. - Grant a deixou na dvida se ele se referia ao animal ou a si mesmo. Ela reprimiu um suspiro; no se lembrava dele to refratrio.
   - Ele tem um nome? - perguntou Doris. - Ou  simplesmente Co?
   Para a sua surpresa, Grant corou-se.
   - ... Ele foi somente Co por um perodo, at nos mostrar a sua personalidade.
   Doris sorriu. Um jeito bacana de batizar um cachorro.
   - Que nome ele mereceu ento?
   Grant pareceu aliviado, como se esperasse que ela achasse a sua resposta idiota.
   - Aposta.
   Doris deu uma olhada para o animal, que permanecia sem se mexer.
   - Aposta? Por qu? Foi a vez de Grant sorrir.
   - Ele  um verme preguioso quando no est trabalhando, mas quando ele est... Ele faz o trabalho de cinco. No deixa que nada atrapalhe o seu caminho. Voc
diz para ele pastorear o gado, e pronto. Para l, para c, em volta, ele est em todo lugar, sem parar, como se fosse um marechal a comandar as suas tropas. Eu o
vi deslocar uma manada por trezentos metros sem tocar o cho.
   Doris piscou duas vezes.
   - O qu?
   - Ele anda sobre o gado. Pula. Bezerro por bezerro, vaca por vaca, apostando a prpria vida. Ele nunca pra de se mover, e o gado, tambm no.
   Ela voltou a examinar o co de cauda cortada, que no pesaria mais do que 20 quilos, se isso.
   - Vejo ento por que ele tem esse ar aristocrtico. Ele pode.
   - Pode mesmo.
   Grant soou satisfeito, e, por alguma razo, isso fez com que ela no precisasse olha-lo nos olhos. Virou-se para o cachorro, at que ele comentasse:
   - Eu pensei que voc talvez quisesse dar uma passeada, conhecer a propriedade, se orientar.
   Agora, ela o mirava e perguntou-se por que antes no pode, j que no havia nada de intimidador. Pelo menos, nada alm dos msculos e do tamanho, coisa costumeira
Para uma policial.
   - Boa idia. Assim eu no precisarei importunar ningum depois. - Doris no tinha certeza do quanto Kristina havia contado ao irmo sobre o motivo da sua visita
e tampouco queria conversar sobre o ocorrido. - Eu prometo que no vou ficar aqui a vida toda. Assim que... eles me chamarem, eu pego o prximo avio e tiro o peso
das suas costas.
   Grant a olhou por um instante.
   - Eu... no quis dar a impresso de que voc seria uma inconvenincia.
   - Claro que eu vou ser. Eu no moro aqui, no sei nada sobre a vida no campo, eu no tenho como evitar ser um estorvo, mas eu vou tentar perturbar o menos possvel.
   Grant levantou uma das sobrancelhas.
   - Voc mudou.
   Ela gargalhou, percebendo no mesmo momento que desde a morte de Nick no ria de maneira to espontnea. Bastou pensar em Nick para ter que reprimir a dor de se
lembrar do homem que fora muito mais do que um companheiro de trabalho.
   - Voc quer dizer que eu antes no me importava com o fato de ser ou no um incmodo? - comentou Doris.
   Grant sorriu, como se a risada dela tivesse lhe causado alegria.
   - Mais ou menos isso.
   - Mas s com voc, viu? E provavelmente s porque isso te deixava bem bravo.
   Ele fechou o sorriso.
   - Eu j tinha uma ligeira suspeita que era s por isso que voc fazia.
   - Se voc tivesse simplesmente ignorado, eu provavelmente no te seguiria nem por um minuto.
   - Agora que voc me diz isto - disse Grant, sarcstico. Desta vez, os dois gargalharam juntos. Ela sentiu um pequeno alvio da angstia que parecia acompanha-la
desde sempre, mas que na verdade comeara desde a fatdica noite em que Nick morrera em seus braos, h cinco semanas.
   Ela vestiu a jaqueta enquanto os dois desciam as escadas para o trreo, andar principal da casa, cheio de recantos, que parecia maior do que realmente era. Isto
por causa da altura e da inclinao ngreme do telhado, desenhado para impedir grandes acmulos de neve. Os trs ambientes estavam posicionados para desfrutar ao
mximo do calor gerado pelos aquecedores a lenha. Grant tinha dito que preferia os velhos aparelhos aos de gs.
   - Ns temos aquecedores movidos a propano - ele afirmara quando os dois passaram pelo grande recipiente de gs - mas eu prefiro no us-los, se no for preciso.
J gastamos o suficiente na cozinha e com gua quente.
   - gua quente? - Doris lhe perguntara em tom gozador.
   - E Kristina me dissera que isso aqui era vida dura.
   Grant a olhava como se questionasse se ela realmente pensava que a fazenda no tinha gua quente. Ele a via mesmo como uma garotinha da cidade grande, cheia de
mimos. Ela no se preocupara em desfazer tal impresso. Isso no era o tipo de coisa que se provava com discursos.
   - Eu gosto de banhos demorados - encerrara ele o assunto. De imediato, Doris se desconcertara com as imagens despertadas pelo comentrio na sua cabea. Ela sabia
que j fora o tempo em que enxergava Grant McClure dessa maneira, mas no poderia negar que imagin-lo nu, tomando uma chuveirada de gua quente, causara alteraes
em seu batimento cardaco.
   - Todo mundo controla o fogo aqui durante o inverno - disse ele, apontando para o grande aquecedor lenha,sobre uma base de tijolos, no canto da sala. -  muito
mais fcil manter o lugar quente do que esquent-lo depois.
   Ela se esforava para se livrar dos efeitos causados pela inesperada fantasia ertica.
   - No duvido - disse Doris, reparando na razovel pilha de madeira junto  parede. - Onde voc estoca a lenha?
   Grant acenou com a cabea para a porta fechada prxima ao aquecedor.
   - Esta porta d para um anexo. Ns tentamos manter lenha o suficiente l dentro para uma semana. Se tivermos sorte, no enfrentaremos nevascas que durem mais
do que isso.
   Doris fez que sim com a cabea. Se Grant esperava choc-la com tal comentrio, estava perdendo tempo. verdade, morava na cidade, e essa cidade era Minneapolis,
tambm de um clima cruel. Mesmo assim, quando avistara os picos nevados durante a viagem, suspeitara que aquelas montanhas lhe ensinariam algo mais a respeito do
frio.
   - Risada parece um garoto legal - afirmou ela, saindo da casa com o anfitrio.
   - Ele  exatamente isso - disse Grant. - Legal, mas um garoto. Ele comeou recentemente a trabalhar durante todo o expediente, depois de terminar o segundo grau.
   Havia algum alerta naquela declarao?, Doris perguntou-se. Ou mais uma vez ela procurava coisas que no existiam nas afirmaes de Grant? Impossvel no notar
o jeito como o garoto reagiu  presena dela, o jeito como ele corou e perdeu o controle sobre a fala no caminho at a fazenda. Mas o que Grant estava pensando que
ela faria? Brincar com os sentimentos de um menino inocente? Com um sorriso cnico, ela debochou da suposta insinuao.
   - Meu Deus! Com voc tambm funcionava assim: eu no conseguia esconder a minha paixo? Ficava logo com os olhos perdidos e o rosto vermelho?
   interrompeu as longas passadas e olhou para ela com semblante srio. Lentamente; abriu um sorriso.
   - s vezes - disse Grant.
   - Lamento muito.
   - No lamente. Fazia bem para o meu ego, mesmo sendo um pouco constrangedor.
   - Eu nunca quis te constranger. Juro - acrescentou Doris, solenemente. - No acontecer de novo.
   O sorriso dele se desfez.
   - Que pena.Quem sabe agora eu no iria gostar? Grant lhe deu as costas e seguiu adiante, antes que ela pudesse esboar qualquer reao.Quer dizer que Grant McClure
permanece com o mesmo senso de humor?, pensou Doris.Porque ele estava brincando. Ele s podia estar brincando.
   Ela acelerou o passo para emparelhar com o anfitrio. Grant no se preocupou em diminuir a velocidade para lhe facilitar a tarefa, mas ela estava acostumada a
caminhar depressa.
   - Risada comeou a trabalhar aqui h pouco tempo?
   - H pouco menos de um ano. Antes ele trabalhava somente durante o vero e vinha tambm com a me nos fins de semana.
   Com a me?, Doris intrigou-se.
   - Ah, ? - foi tudo o que disse ela.
   - Rita cozinha para ns.
   Rita. Doris imediatamente visualizou uma morena de olhar marcante.Tendo Risada 18 anos, a mulher poderia muito bem estar na casa dos 30. Alguns anos mais velha
que Grant, que acabara de completar 30 anos.Uma diferena nada proibitiva.
   Doris torceu para que o pai de Risada fosse grande, forte e mal-encarado, mas depois censurou-se. O que isso tinha a ver com ela?
   - Ela cozinha somente nos fins de semana? - indagou Doris.
   - Isso. Ela  uma cozinheira de mo cheia. Cozinha para toda a semana, e ns congelamos. E ela ensinou para alguns de ns o suficiente para suportarmos o inverno
quando o estoque de refeies acaba.
   - Parece um bom plano.
   - Qual? Cozinhar para a semana inteira, ou nos ensinar a cozinhar?
   - Ambos - disse Doris com uma risada. - Eu no sou uma grande cozinheira, Kristina pode atestar.
   - Ela j atestou. Logo depois de me alertar que seria politicamente incorreto presumir que voc, por se mulher, poderia cozinhar para ns.
   - Que bom ento que isso est fora de questo - disse Doris, sem esconder o seu alvio.
   - Tenho certeza de que a minha irm me salvou de um destino terrvel.
   - No tenha a menor dvida. - Doris aceitou o deboche. - Mas eu lavo pratos muito bem. Talvez esse talento vocs possam aproveitar.
   - Combine com os rapazes. Normalmente, eles fazem sorteio.
   - Eles? E voc? Grant sorriu.
   - H alguns benefcios em ser o patro.
   Ela ria da tirada, desfrutava da inesperada leveza que h tempos no experimentava, quando um relincho sonoro dominou o ambiente. Virou-se de pronto para ver
o animal em p num grande curral, ao lado de dois galpes maiores.
   O cavalo transmitia fora, vigor, tinha brilho prprio. O plo era espetacular. Cabea, pescoo e quadris, todos perfeitos, eram pretos, como se houvessem sido
lustrados.
   Cobria as costas do animal uma faixa de plo branco, malhada de manchas escuras de variados tamanhos.
   Uma imagem veio ento de sua memria. Quando estava apaixonada pelo adolescente Grant McClure, traara como meta aprender tudo sobre o que interessava a ele.
Doris dedicara-se a leituras infinitas - como lhe pareceram na poca - sobre cavalos. Decorara um monte de coisas, e a foto de um cavalo com um plo semelhante a
este ficara em sua mente. A diferena era que o animal da foto tinha o marrom no lugar do preto.
   - Um... appaloosa? - Ela arriscou,  medida que se aproximava da cerca.
   - E. - Grant soou surpreso. - Ele  um appaloosa.
   - Eu j vi a foto de um - disse Doris, sem entrar em detalhes. Nunca admitiria at onde chegara sua paixo juvenil. - Mas era marrom e branco.
   - Eles so de variadas cores. Alguns so s brancos com pintas, e so chamados leopardos. Eu tenho uma gua leopardo, que est esperando um filhote deste a -
disse Grant.
   Ela parou diante da cerca, examinando o animal imponente. No teve medo do cavalo, que virou a cabea para olh-la com evidente interesse.
   - Ele  lindo. - O cavalo bufou como se houvesse compreendido. Doris riu.
   - Ele  um descendente direto de Rei das Quatro Milhas, um garanho appaloosa de primeira de 30, 40 anos atrs. Mas no se engane com toda essa pompa, ele  um
palhao - comentou Grant.
   - Eu estou vendo - concordou ela. - E essa mancha sobre o olho faz com que ele realmente parea um.
   Era verdade, pensou Doris, a estranha marca sobre um os olhos dava ao cavalo uma aparncia excntrica, um pouco cmica, apesar de todo o seu tamanho e visvel
fora.
   - Cuidado - alertou Grant,  medida que ela atravs da cerca se aproximava mais do animal. - Ele pode parecer e agir como um palhao, mas ele  um garanho, e
os garanhes so imprevisveis.
   Ela recuou um passo.
   - Voc est falando sobre coices e mordidas? Ele faz isso?
   - Bem... no. Pelo menos no at agora.
   - Desde quando voc o possui?
   - Pouco mais de um ano e meio.
   - Ele no atingiu nem mordeu ningum em um ano e meio, e voc ainda est receoso?
   Grant envergonhou-se.
   - Eu no estou preocupado, estou... intrigado. Nunca vi um garanho que no tivesse ao menos um defeito.
   - E este no tem?
   - No, a menos que voc considere como um defeito dar uma focinhada no meu chapu toda vez que eu chego perto.
   Ela achou graa, e o cavalo relinchou de forma suave, como se exigisse voltar a ser o centro das atenes. Ela olhou para Grant, que acabou cedendo com um movimento
de ombros.
   - Tudo bem, ele no vai fazer nada com voc. Ele realmente  muito educado. Apenas no faa movimentos bruscos que o assustem, nem o toque se ele no te convidar.
   Grant no explicou como o animal a convidaria, e ela concluiu que ficaria claro quando isso ocorresse. O cavalo espichou a cabea por sobre a cerca, narinas dilatadas,
como se cheirasse a visitante. Doris no se ops, e percebeu a respirao do animal nos seus cabelos. Em seguida, sentiu o toque suave, aveludado, do focinho no
seu rabo-de-cavalo.
   O garanho voltou a relinchar de leve, tocou o lado da cabea dela com o nariz e recolheu a cabea. Repetiu o movimento depois de um instante. Era esse o convite
ao qual Grant se referia?
   Ela olhou para o anfitrio, que fazia questo de no dar mais pistas sobre o cavalo. Ser que Grant de alguma maneira e por alguma razo a testava? E se ela fracassasse,
o castigo seria ficar presa em casa?
   Voc, Doris disse para si mesma,  paranica.
   Com um sorriso, esticou o brao lentamente, com muito cuidado, e acariciou o pescoo preto do cavalo. Mais uma vez, o animal relinchou, e ela poderia jurar que
fora uma reao de prazer.
   - Ele tem um nome? - indagou Doris, maravilhada pelo appaloosa.
   - Eu o chamo de Curinga.
   Ela virou a cabea para Grant e riu.
   - Estou vendo porqu - afirmou Doris. - Mas ele tem um nome oficial?
   - Ele  registrado como Fogo dos Fortune. Os olhos de Doris se arregalaram.
   - Dos Fortune?
   Grant mexeu a cabea em sinal positivo.
   - Kate deixou o cavalo para mim.
   - A v de Kristina? Que morreu naquele acidente de avio?
   Ele de novo acenou que sim com a cabea com ar de confuso.
   - Este cavalo vale... mais do que todo este lugar, provavelmente - opinou Grant. - E eu no tenho a menor idia de Por que ela fez isso.
   - Bem, a sua me se casou com o filho dela - afirmou Doris. - Como enteado de Nate, voc era, de certa maneira, neto dela.
   - Pode ser. Mas eu no era realmente nada para ela. Eu no sou um Fortune, nunca fui. No que eles no sejam... legais comigo. Mame casou com Nate h 25 anos,
mas... eu simplesmente no combino com aquela famlia.
   - Parece que Kate no pensava assim. Grant balanou a cabea.
   - Para mim ainda no faz sentido.Ela deixou aquela fazenda para Kyle, filho do primeiro casamento de Nate, e Curinga deveria ter ficado l. Se Kyle soubesse mais
sobre cavalos, tenho certeza de que ele lutaria pelo animal.
   - Exatamente por no saber que talvez ele no d importncia.
   - Eu tentei explicar para ele o quo valioso o cavalo era e que no havia motivo para Kate deix-lo para mim...
   - Voc tentou devolver o que Kate queria que fosse seu porque voc no se achava merecedor do cavalo?
   Ela sentiu um aperto no peito ao repentinamente se lembrar de Grant, aos 17 anos, lamentar ao invs de celebrar uma vitria numa prova de natao, porque o principal
adversrio ficara doente e no competira. Aparentemente, ele no perdera a honestidade inflexvel.
   - Eu passei um ano e meio tentando entender o porqu. Os filhos deste garanho podem fazer desta fazenda um lugar rico. Eu tive muito contato com Nate, mas eu
vi Kate pouqussimas vezes.
   - E causou tima impresso.
   Grant parecia desconfortvel. Mexeu as pernas e enfiou as mos nos bolsos do jeans que lhe caa to bem, que um homem da cidade pagaria um bom preo pela cala.
   - Pode ser - disse ele, pouco convencido.
   - Voc no parece feliz com isso.
   - Eu no sou um Fortune - repetiu Grant, mais do que enftico. - Minha me pode ter casado com um, mas eu no sei lidar com aquele tipo de vida. Eu no sei como
a minha me suportou aquilo.
   - Eu tambm no - disse Doris francamente. - Algumas vezes eu vejo Kristina e a invejo. Toda aquela riqueza, posio social. Mas na maioria das vezes eu agradeo
por no estar no lugar dela.
   Grant fez uma expresso de surpresa e, ento, sorriu. Um sorriso companheiro, que a fez lembrar dos dias em que ele relaxava e conversava com a pequena de 12
anos que se tornara a sua sombra. Mesmo nos momentos de maior irritao, Grant nunca fora cruel com ela, at porque Barbara Fortune no admitiria que seu filho se
comportasse assim. A me de Kristina e Grant era a criatura mais educada que Doris conhecia. Perto de Barbara, ficava ainda mais claro como Sheila, a primeira esposa
de Nate, era uma mulher manipuladora e ressentida por perder o status de uma Fortune.
   - Os Fortune devem ser o mais prximo a uma famlia real que este pas pode alcanar, e eu no quero os problemas deles - concordou Grant.
   - Aquele dinheiro todo faz coisas estranhas com as pessoas - disse Doris.
   - E com quem est em volta tambm.
   Ela lembrou-se da noite em que Kristina, arrasada pela morte da av, desabafou a longa, conturbada e dramtica histria da famlia.
   - E - afirmou Doris. - Deve ter sido terrvel para Kate Fortune ter o seu beb raptado.
   Grant adotou um tom solene.
   - Minha me me disse que Kate nunca acreditou na morte do beb. Nunca desistiu, porque eles nunca encontraram o corpo.
   Doris sentiu um arrepio.
   - Que horrvel. Kristina me disse que a tia Rebecca tambm  bastante teimosa quanto. Ela est convencida de que a morte de Kate no foi acidente, mesmo depois
de todo esse tempo.
   -  isso o que eu quero dizer. Esse tipo de pensamento vem naturalmente quando voc faz parte de uma famlia assim. - disse Grant, com uma careta.
   - Voc est certo. Parece que tudo acontece com os Fortune. Olha o caso da Monica Malone...
   Doris se conteve, se dando conta de que mencionava um tema que poderia ser delicado. Grant poderia dizer e repetir que no era um Fortune, mas mesmo assim...
   - Voc est falando de Jake? - perguntou ele, olhando-a nos olhos.
   - Perdo. No devia ter puxado esse assunto.
   - Por qu? Est em todos os jornais.
   - Porque, mais ou menos, ele tem relao com voc. Grant deu de ombros.
   - Jake pode ser o irmo do meu padrasto, mas isso no quer dizer que morro de amores por ele. Acho que ele tem um lado que no mostra muito. Ele comanda o cl,
mas s vezes eu sinto que a famlia no... o conhece direito.
   - Ele me intimida com todo aquele jeito aristocrtico - opinou Doris, honestamente. - Talvez voc por estar de fora o veja com mais clareza.
   - Voc  uma policial. O que voc acha?
   - Eu no tenho muitas informaes sobre o caso para formar uma opinio. E deste, especialmente, muito pouca coisa vazou. No h muitos rumores por a. O dinheiro
pode comprar o silncio.
   - Isso no me surpreende.
   - E o indiciamento de Jake te surpreendeu?
   - Julgando pelas evidncias que eles encontraram, no. Mas ainda assim  difcil acreditar que ele seja o culpado.
   - Isso  natural. Ningum consegue acreditar quando se trata de um parente ou pessoa conhecida, por mais distante que seja.
   - Eu no sei - disse Grant, um pouco cnico. - H coisas que s acontecem nos mares bravios dos Fortune.
   Doris no contestaria o anfitrio. Tinha que concordar que era difcil crer que o bonito, gr-fino, frio e calmo Jake Fortune assassinara um cone de Hollywood.
   No entanto, ela sabia mais do que muitos que os mares bravios dos Fortune podem ocultar inmeros pecados.

   Captulo 3

   - Ei! - D gritou, e Grant caiu na gargalhada. Curinga acabava de desfazer o bem arrumado rabo-de-cavalo da visitante. Ela se afastou e repreendeu o cavalo com
o olhar.
   - Melhor eu parar de usar xampu de ma - resmungou, ajeitando o cabelo louro, bem claro.
   - No creio que seja esse o problema - comentou Grant, ainda rindo. - Eu dou ma de verdade para ele e nunca vi esse tipo de reao.
   Ele estivera mais do que certo na ocasio. Depois de uma semana, Doris se tornaria a razo de ser do cavalo. O animal relinchava alto cada vez que a via, protestava
quando ela no lhe dava suficiente ateno e reclamava ruidosamente se D ficasse muito tempo prxima a outro cavalo.
   - Eu sou apenas uma companhia nova - afirmou ela. - E por acaso o meu cabelo tambm tem o cheiro do seu petisco preferido.
   - No apenas uma companhia nova, um tipo de companhia novo. No so muitas as mulheres que vm aqui, e as que vm preferem ficar longe dele.
   - Ah - disse Doris, sorrindo. - O nosso amigo ento gosta das senhoritas?
   - Esse  o trabalho dele. O amigo  um garanho - lembrou Grant.
   - , parece que sim. Talvez voc deva conseguir uma namorada para ele.
   - Ele tem vrias, a cada poca de procriao - rebateu Grant.
   - T a um trabalho que muitos homens invejariam -ironizou ela.
   Ele franziu a testa para ela. Haveria um tom de amargura na voz de D? Quase acusatrio? Ele, contudo, nunca fora um dos que aceitavam a culpa universal pelas
canalhices de toda a populao masculina, por maiores que elas fossem, e no comearia agora.
   - Talvez - respondeu Grant. - Mas o restante de seu ser sentiria pena dele, caidinho por uma garota da cidade grande.
   Desta vez, D franziu a testa, como se agora fosse ela a acusada de algo. No era o que ele pretendia; h muito superara a raiva pelas mulheres da cidade e seus
joguinhos nas relaes.
   - E isso  ruim?
   - Vamos dizer que garotas da cidade pertencem  cidade. Doris franziu o cenho de novo.
   - Ah, est bem. E a sua me? Ela pertence  cidade tambm?
   Grant sorriu ao receber o golpe preciso e doloroso. D nunca havia recuado de um confronto. Ele deveria ter deduzido que isso no mudara, especialmente por ela
ter se tornado uma policial.
   - Ela sente que pertence a Nate, onde quer que ele esteja. Ela est feliz, e  isso o que conta.
   - Mas voc preferiria que ela estivesse feliz aqui. Grant bufou de leve, lamentou ter comeado o embate.
   - O que eu prefiro no conta. Mesmo tendo nascido em Wyoming, ela se sente... isolada demais aqui. No h outra mulher na fazenda, o vizinho mais prximo est
a quilmetros, e o povoado, ainda mais longe.
   - Compreensvel - disse Doris, abandonando o tom de voz desafiador. - A sua me  extrovertida, socivel, ela gosta de pessoas, e deve ser difcil para ela viver
to s.
   - Deve.
   - Mesmo assim deve ter sido um sacrifcio para ela deix-lo aqui e mudar-se para Minneapolis. Eu sei o quanto ela te ama. Famlia  tudo para ela.
   - Ela no me deixou. Eu escolhi ficar aqui.
   D o olhou de forma estranha, um modo que ele no pde interpretar.
   - Eu sei. Ela me disse que desde os quatro anos voc  um caubi teimoso.
   Grant ficou desconfiado.
   - Minha me te disse isso?
   - Ela disse que quando casou com Nate perguntou se voc no queria morar com eles. A sua resposta foi chutar a canela de Nate e fugir correndo.
   Grant corou-se.
   - Minha me fala demais.
   - Voc est chateado porque ela contou, ou por que ela contou para mim?
   - As duas coisas - resmungou Grant. - Quando ela te disse isso?
   - Pouco antes do Natal, eu acho. Eu me lembro de estar ajudando Kristina com a rvore.
   Natal? Quase um ano atrs? O que fazia D conversando sobre ele com a sua me? E mais: passara o Natal com a famlia no ano passado, e D nem ao menos fora mencionada,
caso contrrio, ele no teria ficado to surpreso com o recente telefonema de Kristina.
   - Eu passei toda a semana do Natal com mame no ano passado e no te vi por l - sondou Grant.
   Ela deveria ter viajado com o falecido parceiro e, sem dvida, namorado, ele concluiu, desejando no ter dito nada. Entretanto, D no reagiu com choque ou tristeza.
Apenas sorriu.
   - Eu quis dizer no Natal de doze anos atrs, Grant. Ele caiu em si.
   - Ah.
   D lhe deu as costas, virando-se para Curinga. Deu tapinhas no pescoo do cavalo, acariciou o focinho, e o animal soltou um relincho suave de inconfundvel prazer.
Ele riu do comportamento do seu mais valioso bem.
   Perguntava-se como ela, pequena, delicada e frgil, teria se tornado uma policial. Ao mesmo tempo, comeava a notar que o senso de humor, a inteligncia e a perspiccia
de D provavelmente compensavam tudo o que ela no tinha em tamanho e msculo.
   - , seu metido - disse ela, correspondente ao encanto do cavalo. - Voc  uma beleza. E voc sabe disso, no sabe? Todo cheio de si.
   Curinga bufou e espichou ainda mais o pescoo para aproveitar melhor as carcias de D. Grant sentiu uma comicho estranho na altura do ventre ao observar aquelas
mos pequenas e finas percorrerem a camada de plo preto e brilhante.
   - Voc pode at fazer com que uma garota da cidade grande queira aprender a cavalgar.
   O comentrio o pegou de surpresa. Ser que fizera isto para atingi-lo? D, porm, nem olhou para ele, simplesmente continuou a esfregar o pescoo musculoso do
aninhai radiante.
   Pela primeira vez na vida, Grant McClure sentiu inveja de um cavalo. E no gostou nem um pouco da experincia.

   - Obrigado por consertar aquela rdea para mim, Risada. O jovem ajudante olhou confuso para o patro.
   - Eu no consertei, Seu Grant. No tive tempo depois de achar o potro perdido e reparar a cerca.
   O potro, um dos primeiros de Curinga que nasceram na fazenda McClure, escapara de um curral pequeno, ao lado do galpo das guas. A madeira de cima da cerca cedera,
e o animal pulara as outras duas. Um feito considervel para um filhote, Grant pensou, satisfeito. Talvez estivesse com um saltador em potencial em mos. Ele gostaria
de assistir ao frisson que um colorido e chamativo appaloosa causaria em um circuito oficial.
   Voltou  realidade e intrigou-se com o que Risada acabara de lhe dizer.
   - Quando foi ento que voc arrumou a baguna no depsito das rdeas e selas?
   - ... Tambm no fui eu quem arrumou, patro. Eu e Charlie voltamos muito tarde, e eu tambm estava cuidando da gua leopardo. Ela est agindo de um modo
estranho...
   Grant levantou a mo.
   -Tudo bem, no estou reclamando. No esperava que voc cuidasse do potro e voltasse muito antes de escurecer. Mas se voc no arrumou as coisas l, quem arrumou?
   - Provavelmente, o mesmo duende que pegou toda aquela lenha ontem, quando supostamente era a minha vez de fazer isso.
   Grant olhou sobre os ombros para Walt Masters, o seu mais velho ajudante, grisalho e duro, que trabalhava na fazenda h dcadas. Ele vira o pai de Grant, Hank
McClure, progredir nos negcios, transformar o que era um pequeno lugar na relativamente grande propriedade de agora. Fora Walt que sugerira a criao de cavalos
de raa na fazenda, em resposta  queda do preo da carne no atual mercado inconstante. Grant tivera dvidas, inicialmente. Depois, a idia lhe cativara, e os cavalos,
j o seu negcio favorito, se tornariam tambm o mais lucrativo com a chegada de Curinga.
   - Isso para no dizer - continuou Walt - do depsito de lenha no alojamento que foi enchido para ns, pobres e maltratados vaqueiros.
   Grant protestou e bateu em Walt com o seu chapu.
   - Maltratados? - disse ele. - Me diga em que outra fazenda neste estado tem um alojamento com mesa de sinuca e chuveiro quente para as costas cansadas de um velho
rabugento.
   O homem riu.
   - Seu pai certamente ainda est se revirando no tmulo por causa daquele chuveiro.
   Grant riu tambm.
   - Certamente, Walt. Certamente.
   Ele se orgulhava de chegar ao ponto em que podia falar do pai sem sentir o baque. Muito tempo passara at que aceitasse conversar sobre a morte prematura do pai.
No era nem capaz de mencionar o assunto. Agora, todavia, ele levou na esportiva a brincadeira afetuosa de Walt, ciente de que o ajudante amara Hank McClure como
a um irmo.
   O funcionrio, no entanto, no fazia questo de sempre lembrar isso. Pediu desculpas pela suposta inconvenincia e deixou o galpo.
   Possivelmente, o mesmo duende que apanhou toda aquela lenha...
   O mesmo duende, sem dvida, reparara as cortinas da sala com um capricho que ia muito alm das habilidades dele com a agulha.
   Ele entrou em casa e fechou a porta. O ar j tinha o cheiro de neve, e deduziu que no demoraria muito mais de uma semana ou duas - para que Wyoming fosse tomada
coberta pelo inverno uma vez mais.
   Avanou dois passos e parou. Sabia que deveria reconhecer aquele aroma, mas no conseguia defini-lo. De repente, a memria funcionou. No era um s, e sim dois
cheiros diferentes: o odor adocicado do lquido limpa-armas e, impossvel..., po. Po assando. Seu estmago roncou.
   O aroma despeitou alm da fome a curiosidade. Primeiro, ele seguiu o trajeto por onde vinha o odor do lquido de limpeza. Tomou a direo do canto com paredes
forradas de madeira, onde ficava a coleo de armas do pai a sua prpria espingarda e dois rifles de caa.
   Ali encontrou D com a espingarda Remington sobre a mesa. Ele planejava limp-la nesta noite, depois de us-la ontem para abater o veado ferido que perseguira
pelo alto da serra. O animal de alguma maneira quebrara a perna, e ele resolvera pr fim ao sofrimento do bicho. Raramente interferia no curso da natureza, mas a
maneira como o veado amedrontado e agonizante o olhava despertou-lhe a vontade de ajudar.
   Parou no vo da porta e assistiu  perita limpar a arma. Ela seguramente conhecia muito mais as pistolas usadas para controlar o pior dos predadores a espcie
com duas pernas. Tentava visualizar aquela mulher lidando com algum arruaceiro bbado, forte e mal-encarado. Ou algum assaltante que oferecesse resistncia. S pde
conceber tais hipteses pensando no jeito como ela havia conquistado Curinga. Usaria o charme e a inteligncia, e no a fora bruta.
   D terminou o servio e afastou o kit de limpeza. Grant entrou no aposento.
   - Quer checar?
   Ela no o olhou ao perguntar, e ele concluiu que a mulher j sabia que era observada.
   - No - respondeu Grant. - Obviamente voc sabe o que est fazendo.
   - Obrigada. - Doris apontou para o suporte pregado na parede, ao lado do armrio. - Ela fica ali, eu presumo.
   - Isso.
   D no fez meno de guardar a arma.
   - Essa misso eu deixo para voc. No alcanaria o suporte sem escalar o sof.
   O detalhe deixou-o novamente admirado por aquela mulher ter a profisso que tinha.
   Ele recolocava a Remington no lugar, quando o estmago o relembrou do outro cheiro que impregnava o ar. Um tanto constrangido, olhou para a hspede, aps guardar
a arma. Ela sorria.
   - Cheiro bom, no?
   - Eu pensei que voc no cozinhasse.
   - Cozinhar, no, mas sei assar qualquer coisa. Espero que voc no se importe de eu ter invadido sua cozinha.
   - No - afirmou ele, prontamente - quando o resultado cheira desse jeito.
   - Eu preparei trs formas. Acho que vai dar para todo mundo.
   - Quando voc teve tempo para isso com tantas outras atividades?
   Doris no o desmentiu, apenas deu de ombros.
   - Eu tive o dia inteiro.
   - Eu pensei que voc tivesse vindo para c para se... recuperar.
   A sombra que ele j avistara uma vez voltou a pairar sobre o rosto dela. D afirmou somente:
   - Eu no consigo sentar e ver o tempo passar. Me sinto melhor quando me ocupo com alguma coisa.
   Ele no iria contra argumentar. Manter-se ocupado fora a melhor coisa para ele nos dias seguintes  morte do pai. E havia sido eficaz, pois trabalhava tanto que,
 noite, caa exausto na cama. Aquilo no impedira os sonhos, mas esqueceria de todos pela manh. Com o tempo, os tormentos deram lugar a uma tristeza assimilada,
e gradualmente as boas recordaes se instalaram.
   Ele perguntou-se quando D seria capaz de encarar a morte de Corelli sem aquela sombra a encobrir-lhe os olhos.

   Algumas noites depois, Grant, com tempo de sobra -uma coisa rara - avaliava a possibilidade de sentar-se com um livro. Tinha que admitir que isso se dava graas
a D. Todas as pequenas tarefas que ela executava, aquelas coisinhas que ele sempre adiava at o fim de um dia de trabalho pesado, consumiam as suas noites at que
ele no tivesse mais tempo disponvel para um dos seus grandes prazeres na vida.
   Suspirou de satisfao ao sentar-se na antiga poltrona reclinvel de couro do pai. Por alguns minutos, ele ficou l olhando para o teto, livro nas mos, desfrutando
da chance de algumas horas de leitura aprazvel. Fechou os olhos e imaginou onde D estaria. Ela flertava com Curinga, quando a vira pela ltima vez. A visitante
tampouco entrara na casa depois que ele encerrara o banho, uma chuveirada mais longa do que o normal, aps resgatar um bezerro de um buraco. Ficara mais enlameado
que o animal, e a terra havia formado uma crosta sobre a sua pele.
   Abriu os olhos de sbito, consciente de que algo ocorrera. O aposento agora estava escuro, e mal-humorado ele deduziu que a lmpada do abajur queimara. Percebeu
ento que estava enrolado em alguma coisa. Demorou um instante para descobrir que era a colcha que normalmente cobria o sof. Esticou o brao para testar o abajur,
que acendeu sem problemas. Na mesinha ao lado da poltrona, o seu livro repousava fechado.
   O relgio na estante do outro lado do quarto indicava trs horas da manh.
   Walt?, perguntou-se ele. No, o velho poderia ter desligado a luz, num ataque de presteza at fechado o livro, mas cobri-lo com uma colcha, nunca. E dificilmente
o ajudante voltaria para a casa depois de estar num alojamento confortvel e quente.
   Ele sabia quem tinha feito aquilo, somente no queria dar o brao a torcer de que D o encontrara adormecido e cuidara dele como quem cuida de um garoto. No
queria admitir que gostou muito da atitude dela.
   No queria admitir, alm de tudo, o quanto que ele aprendera a apreciar a presena dela em to pouco tempo.

   - Ela no  fcil, no - afirmou Walt. -  mais forte do que parece.
   Grant no precisou perguntar quem; havia apenas uma "ela" na fazenda. Doris era tudo o que Walt dissera e mais um pouco.
   - Ela no gostou nem um pouco quando eu tentei ajud-la com aquele fardo de alfafa - comentou Risada, com a fala ainda mais arrastada.
   - Ela precisava de ajuda? - indagou Walt.
   - Bem... No - admitiu o ajudante. - Ela colocou tudo na carroa como se fizesse aquilo desde criana. Ela  forte pra caramba.
   - E aprende rpido tambm - acrescentou Walt. - Eu ia dar uma olhada na gua leopardo nesta manh. Ela est me deixando nervoso, est muito agitada, apesar de
que ainda vai demorar no mnimo seis semanas para parir.
   - Isso tambm me preocupa - intrometeu-se Grant. A gua Lady  um dos mais valiosos cavalos da fazenda e ter cria de Curinga. O primeiro filho dos dois cavalos
foi o potro que escapou dias atrs, e Grant tinha esperana de que o segundo fosse to bom quanto o irmo. - Mas o que que isso tem a ver com a nossa... hspede?
   - Quando eu cheguei l, a garota j tinha passado a p em todas as baias daquele lado do galpo.
   Grant arregalou os olhos.
   - Ela estava limpando as baias dos cavalos?
   - Limpando direitinho.
   Consertar rdeas, estocar lenha, limpar depsitos e armas, fazer po e agora carregar fardos e passar a p nas baias.
   Ela precisa descansar, ela est exausta.
   As palavras de Kristina ecoaram na cabea de Grant. Se isso era o que D considerava descanso, ele no pretendia saber o que para ela significava trabalho. E
o que a visitante estava fazendo no era brincadeira, era trabalho pesado, que exigia fora e resistncia que ele no imaginava que ela, pela aparncia que exibia,
tinha.
   Isso deveria ser uma lio para ele, ponderou. Ao mesmo tempo, no conseguia deixar de sentir-se culpado por talvez t-la feito pensar que ela deveria fazer por
merecer a sua presena ali.
   - O que foi, filho? Grant piscou.
   - O que voc disse, Walt? Eu... estava pensando. Walt debochou do patro.
   - Voc tem pensado muito ultimamente, garoto. Pensar muito no  bom para a cabea.
   - Eu sei - resmungou Grant, deixando o galpo, sem mais uma palavra.
   Encontrou D na casa, colocando um pequeno pedao de lenha no aquecedor. Ela adotou o hbito de reabastecer a pilha de madeira  medida que a lenha era consumida,
um procedimento que ele sempre quis implantar, mas no tivera tempo antes. O amontoado de lenha ao lado do aquecedor no diminua de tamanho desde a chegada da visitante.
   - Voc no precisa fazer tudo o que est fazendo.
   Quando D ergueu de novo o corpo e o olhou de modo confuso, ele percebeu que havia sido rude, coisa que no pretendia.
   - Manter o fogo aceso?  para o meu prprio benefcio. Odeio bater os dentes dentro de casa.
   - No  sobre isso que eu estou falando.
   Ela fechou a porta de vidro temperado do aquecedor, bateu a fuligem das mos no jeans que envolviam deliciosamente seu ventre e coxas; no parecia lgico que
aquela coisinha pequena tivesse curvas como aquelas - ela o encarou. Uma atitude que ele esperava e com a qual suspeitava que ela enfrentava a maior parte das coisas
na vida.
   Exceto, talvez, a morte de Nick Corelli.
   - Sobre o que voc est falando, ento?
   - Eu te disse que no esperava que voc trabalhasse.
   - E eu te disse que eu preciso manter-me ocupada.
   - Tudo bem. Mantenha-se ocupada. Voc tem dado uma grande ajuda. Mas voc sabe que no tem que levantar fardos e limpar baias.
   - Eu sei que eu no tenho.
   - Isso  trabalho pesado. Deixe isso para os rapazes, Pois essa  a funo deles.
   D o olhou de maneira calculada.
   - Ah, ? Mas e assar po e costurar? Tudo bem?
   Grant sabia, desde que cedera ao pedido da irm, que isso no terminaria bem.
   - No foi exatamente isso o que eu quis dizer.
   - Ento o que voc quis dizer? Voc acha que eu no sou capaz de fazer esse tipo de trabalho?
   - Seria estpido da minha parte se eu achasse que no, quando voc j provou que  - respondeu ele, tentando parecer razovel.
   - Ento por que voc est me pedindo para parar? Grant liberou um suspiro reprimido.
   - Eu no estou pedindo, mas voc no est aqui para descansar? Para que se matar de trabalhar?
   - Voc j parou para pensar - disse ela, com a voz contida - que talvez s assim eu possa descansar?
   - J - replicou Grant, honestamente. - Porque eu j estive na situao em que voc est. Mas eu estou acostumado a fazer esse tipo de trabalho. Voc, no. E mesmo
que seja muito mais forte do que aparenta, voc pode ainda assim se machucar.
   D pareceu surpresa  revelao dele, mas logo restabeleceu o olhar rebelde.
   - Toda essa coisa de macho protetor pode ter tido o seu apelo quando eu tinha 12 anos e pensava que o sol nascia e se punha em voc - disparou. - Mas eu no sou
mais uma criana, Grant, e no preciso de proteo.
   Ele recuou, pasmo com a veemncia. No, no havia nenhuma criana confrontando-o cara a cara, e sim uma mulher, feroz e passional.
   Ser que a intensidade e o ardor estariam tambm presentes em outros aspectos da personalidade dela? D exibiria o mesmo fogo, a mesma paixo em outros lugares,
fazendo outras coisas?
   Se esse era o caso, Grant pensou cinicamente enquanto tentava conter o calor que subitamente o tomara, Nick Corelli fora um homem de muita sorte.
   Como assim? Ver um homem que fora morto a tiros em uma rua suja da cidade como sortudo consistiu no choque de absurdo que ele precisava para dominar aquela reao
inesperada e indesejada em relao a essa mulher.
   - OK - disse Grant, esforando-se para manter a voz calma. - Eu apenas tenho medo que Kristina corte a minha cabea se descobrir que voc est trabalhando desse
jeito.
   D engoliu a desculpa.
   - Ento,  isso. Voc est com medo da irmzinha.
   - Qualquer homem so teria medo de Kristina.
   - Voc est certo. - D sorriu e suspirou. - Eu sempre quis ser como ela.
   Grant franziu a testa, surpreso.
   - O qu?
   -  isso mesmo.Glamourosa, charmosa, espirituosa. Todas as coisas que eu no sou.
   - Voc est muito bem do modo que voc  - opinou Grant, abruptamente. - A ltima coisa de que o mundo precisa  de outra paparicada como Kristina. Voc tem um
carter slido,  firme e nem um pouco mimada.
   - Muito obrigada - disse Doris, com uma cara cnica. -Esses so os elogios que uma mulher espera de um homem - debochou.
   Ela se virou, subiu as escadas e o deixou ali, falando sozinho.
   Mulheres, Grant pensou, tentando imaginar que diabos ele teria feito de errado agora.
   Deveria, concluiu com certa amargura, deixar que Curinga cuidasse das fmeas.

Capitulo 4

   Doris espreguiou-se, mas imediatamente tomou a se encolher, a buscar o calor das cobertas, depois que os ps se depararam com o lenol frio. Ela abriu os olhos
na penumbra do quarto e, sonolenta, tentou imaginar que horas eram. Passaram-se alguns minutos at ela decidir que valia a pena checar o relgio na mesa-de-cabeceira.
No dormia to bem h muito tempo e hesitava em dar fim ao sono tranqilo.
   Quando viu que eram mais de 8 horas, despertou com um susto. H meses no dormia at to tarde. Sentou-se na cama, esfregou os braos em resposta ao frio, o que
a fez lembrar que a essa altura s deveriam restar as cinzas do fogo do aquecedor, j que, como de costume, Grant sara antes do sol raiar. Ela precisava correr
para repor a lenha, caso contrrio no encontraria mais nenhuma brasa acesa.
   Do jeito que trabalhava, no era de se admirar que o anfitrio tenha adormecido na poltrona ontem. No se surpreendera nem um pouco ao encontr-lo l.
   Ficou surpresa com o livro apoiado no peito dele. No esperava flagrar o caubi duro, que controlava com mo de ferro a grande fazenda, lendo Shakespeare. No
entanto, era uma coletnea de tragdias do escritor que ele lia. Na estante atrs dele, ela encontrara mais Shakespeare, Molire e alguns outros clssicos, entre
romances de aventura mais recentes. Recordara-se ento que Grant, mais jovem, tinha dvidas se estudaria Literatura ou Engenharia, apesar da sua determinao constante
de um dia voltar para a fazenda.
   No havia assim motivo para surpresa. Grant graduara-se com louvor, Kristina lhe contara na poca, orgulhosa pelo sucesso do irmo. Ele partira para a universidade
naquele ltimo vero. la, com 14 anos, chorara, certa de que no veria nunca mais o prncipe encantado. No vero seguinte, no segundo grau, j se sentiria muito
madura para se lamentar pela paixo infantil.
   Isso, contudo, no a impediu de, na noite passada, em p ao lado da poltrona de couro desbotada, observar o sono de Grant McClure. A boca gil, to rpida para
sorrir quanto para se franzir em ironia, parecia quente e relaxada. Os seus clios eram grossos e contrastavam com as faces bronzeadas. Livre por um momento das
responsabilidades, ele aparentava o Grant com 18 anos, aquele que ela vira partir para conquistar o mundo.
   E nem por isso o mundo dela acabara, como temia na poca. Logo esqueceria que o seu corao disparou dias atrs quando Grant disse que agora poderia vir a apreciar
a ateno dela. A reao a lembrou da boboca apaixonada que ela fora.
   Doris bocejou mais uma vez e espreguiou-se ao descer a escada. Com os olhos ainda inchados de sono, espalhou o carvo que restava na fornalha at que as pedras
brilhassem de novo.Lanou ali gravetos secos, que rapidamente pegaram fogo, e em seguida colocou duas toras de madeira. Quando a lenha enfim queimou, ela fechou
a porta do aquecedor.
   Permaneceu diante do aparelho at que ele voltasse a irradiar calor para esquentar as suas mos.
   Distrada, ainda maravilhada com o quase milagre de ter dormido a noite inteira, passou pela janela principal e abriu as cortinas que havia costurado na semana
passada. Espantou-se.
   Neve. Tudo estava coberto de neve. Como se todas as cores tivessem sido extradas da paisagem, revelando uma tela em branco.
   Na cidade, Doris sempre comemorava a primeira nevasca. O manto branco imaculado camuflava, mesmo que por um curto perodo, a rotineira falta de beleza do seu
trabalho. Tinha conscincia de que a neve era somente uma fachada, que tudo de horrvel ainda estava ali, mas diminua o peso do fardo fingir por um tempo que o
mundo era to limpo e brilhante quanto aps a primeira nevasca. No campo, contudo, a paisagem j  limpa. O efeito da neve  dar um encanto mais gentil  natureza
em estado bruto.
   Doris vestiu um casaco forrado e saiu da casa. Sob o prtico, ela respirou a pureza do ar seco. Sorriu sozinha quando enfim pisou na neve e escutou a camada branca
ceder sob os ps.
   No parava de sorrir.
   Ficou imvel de admirao. Ela tivera dvidas quando Kristina sugerira este refgio. Ir para um lugar quieto, sem nada para fazer alm de pensar, no lhe soava
a coisa mais sbia naquele momento. Apesar da curiosidade em rever Grant, ela no pensava que o retiro bastaria para tirar Nick da cabea. E mais do que tudo, para
tirar da cabea a determinao de voltar e ajudar a condenar o homem que o matou.
   Porm, subestimara a viagem. Grant McClure seria capaz de fazer qualquer uma esquecer os seus problemas. Obviamente, isso tambm significava o surgimento de um
novo conjunto de problemas; mas ela, pensou, era crescidinha o bastante para evitar reaes romnticas tolas. O calor e o corao disparado foram resqucios da paixonite
de adolescente, nada mais. E tambm, admitiu para si mesma, uma prova do seu bom gosto. Grant era to bonito agora quanto fora aos 16. Na verdade, at mais. Ele
amadureceu, envelheceu com graciosidade, ele...
   Doris censurou-se, severamente. Adulta, deveria estar imune ao charme dele. O homem deixou mais do que claro que ela ainda no fazia o seu tipo. Voc  firme,
de carter slido e nem um pouco mimada. Ele poderia estar falando de um cachorro. Ou de um cavalo.
   Para falar a verdade, nem de um cavalo. Ela aparentemente tinha menos apelo do que o caloroso e chamativo Curinga. Sendo assim, por que no se corrigia e controlava
esses sentimentos juvenis e estpidos?
   Quem sabe ela mesma no estaria fazendo isso de propsito? Era possvel que a mente, na defensiva, ocupava-se em tornar Grant uma distrao poderosa para evitar
as lembranas que a atormentavam. A mente age de maneiras estranhas para se auto proteger, ponderou Doris. Ela testemunhara isso mais de uma vez.
   Ento, era somente parte da sua imaginao o corao acelerado cada vez que o via, a ternura que a tomara ao observar o homem que, por trabalhar muito, adormecera
na poltrona com um Shakespeare nas mos fortes e marcadas pelas tarefas na fazenda?
   - Voc quer saber quanto tempo se leva para ficar congelada aqui fora?
   Doris virou-se ao som da voz de Grant, admirada por mais uma vez ele t-la surpreendido dessa maneira. Ela costuma perceber tudo que se passa ao seu redor, uma
habilidade necessria para uma policial.
   - Eu... amo quando a neve chega - disse Doris, na esperana de que a sua face corada parea apenas uma reao ao frio.
   - Aqui no  como a cidade. No h tratores que limpam a neve do caminho para voc. A admirao vai terminar quando ns tivermos um metro de neve e no pudermos
sair de casa por dias.
   Ela o examinou por um momento.
   - Voc parece determinado a sempre me lembrar que eu venho da cidade. Voc acha que eu me esqueo disso facilmente?
   Grant deu de ombros, um gesto que poderia significar qualquer coisa.
   - Apenas um lembrete.
   Um lembrete para quem?, Doris perguntou-se. Ao voltar para junto da porta da casa, ela disse somente:
   - Um lembrete de que eu sou da cidade grande? Dificilmente eu vou me esquecer.
   - Mulheres da cidade nunca se esquecem das suas origens. - Grant a seguiu pelos dois degraus de madeira e lanou o olhar para a paisagem branca. - Elas podem
gostar de visitar lugares remotos como este, quando quente e ensolarado, quando os bezerros e potros esto em todos os lugares, mas elas no suportam a idia de
viver aqui.
   Kristina, recordou ela. Fora exatamente isso que ela lhe havia dito: Grant vive e respira aquela fazenda. Eu admito que l  bonito, que os filhotinhos so lindos,
mas eu gosto  das luzes da cidade.
   - Kristina... - Ela interrompeu a fala, temerosa de se aventurar por esse territrio.
   Grant deu de ombros novamente.
   - Ela no seria to mimada se tivesse vivido aqui por um tempo, longe do brilho falso da cidade. Mas ela nasceu e se criou l, nunca vai mudar.
   - Talvez seja voc que precise de um lembrete - afirmou Doris, serena. - Eu no sou Kristina. - Ou a sua me, ela acrescentaria, mas duvidou que algum tivesse
que record-lo sobre isso.
   - No, no  - concordou Grant. - Mas voc  da cidade tambm.
   - Uma vez urbana, sempre urbana. assim que funciona?
   As concluses precipitadas dele comeavam a impacient-la, embora ela tambm pudesse agora ver por que ele tinha essa viso distorcida.
   - Seria duro mudar - afirmou Grant, com um esforo de diplomacia que ela antes no notara nele. - Eu tampouco poderia ter aprendido a viver na cidade. Sempre
soube disso.
   Doris sentou-se no balano preso ao telhado do prtico. O balano, talhado em cedro, era lindo e dava um toque aconchegante quela casa utilitria.
   - Meu pai comprou isso como um presente de aniversrio para mame - contou Grant. - Ele o trouxe de uma lojinha nos arredores de San Antnio. Tinha a esperana
de que se minha me sentasse a, ela poderia aprender a contemplar a beleza disso tudo aqui. No que ela no tenha aprendido, mas no foi suficiente. Era tarde demais,
talvez. Ela tinha decidido deix-lo.
   - E ento voc chutou o seu padrasto e respondeu no Para a sua me quando ela te pediu para morar com eles. Com veemncia, posso calcular.
   - Eu tinha s quatro anos - disse Grant, impaciente. -Eu queria ver o meu pai e a minha me morando juntos. Minha idia era que, se eu escolhesse ficar aqui,
minha me voltaria cedo ou tarde.
   - Mas ela e Nate j estavam casados.
   - Isso no fazia muita diferena para um garoto de quatro anos. - Grant riu. - Mas eu errei ao chutar Nate.
   - Ele sobreviveu - afirmou Doris, rindo. - E ele ama muito a sua me.
   - Eu sei. s vezes, eu acho que ela  a nica pessoa que ele realmente ama. Ele gosta dos garotos, mas...
   - , eu encontrei com Jane e Michael uma vez s, mas eles me pareceram um pouco inseguros em relao ao amor do pai. - Ela olhou Grant de relance. - Pelo menos,
voc no pode duvidar que a sua me te ama.
   - No mais. Eu no estava to convencido disso quando a minha birra no deu certo, mas, aos dez anos, superei o trauma.
   - Ela tambm respeitou a sua deciso.
   - , ela sempre respeita. Se voc considerar que a maioria das pessoas acredita que eu estou perdendo o meu tempo aqui, pode concluir que essa  uma concesso
e tanto.
   - Perdendo tempo? - Ela no entendeu por que ele cruzava os braos, na defensiva.
   - Voc  um cara inteligente, Grant, voc pode construir alguma coisa na vida - citou ela, com amargura. -Voc se formou, Grant, o que voc est fazendo aqui
no meio do nada, cuidando de vacas? Quatro anos de universidade jogados no lixo.
   Doris o encarou.
   -  a isso aqui que voc quer se dedicar?
   - Isso aqui  a nica coisa que eu j quis fazer. - Grant a declarou com uma determinao que revelava o quanto j teve que defender a sua opo.
   - Ento diga para eles se meterem com as prprias vidas. - Grant olhou para ela surpreso. - Eu j vi muita gente presa em trabalhos que odiava. Eu j vi o que
isso faz com as pessoas, e com as que vivem em volta tambm. Se voc est feliz com o seu trabalho, ento tudo bem.
   Acolhido, Grant sorriu, e ele sentiu como se o sol tivesse raiado sobre ele de uma hora para outra.
   - Isso foi o que a minha me me disse - lembrou Grant - na ltima vez em que Nate comeou a me chatear com essa histria.
   - Que bom para ela. Eu acho que a coisa mais difcil para um pai ou uma me  aceitar e respeitar a deciso de um filho, mesmo sem concordar.
   Grant se escorou em um dos pilares do prtico e, curioso, encarou a hspede.
   -  a voz da experincia que est falando? Ela fez que sim com a cabea.
   - Meus pais queriam que eu fosse mdica.
   - Mdica...? De mdico para policial  uma mudana drstica.
   - E eles no ficaram nem um pouco felizes com essa mudana. Eu me inscrevi e fui aceita por algumas universidades com boas faculdades de medicina. Eu sabia que
eu queria... ajudar as pessoas, mas que no era exatamente daquela maneira que eu gostaria de fazer. - Doris estampou um sorriso de lamento, quase de sarcasmo, no
rosto. -Mal sabia eu.
   - Sabia... o qu?
   - Que metade das pessoas com as quais eu lido no dia a dia no quer ser ajudada. Elas querem a polcia apenas para juntar os cacos que restam. - Doris tremia,
avermelhada. uerem o policial para resolver os seus problemas de forma permanente. Eles no podem puxar o gatilho, ento eles tm um policial para fazer isso por
eles. Como se ns fossemos mquinas, sem nenhum sentimento...
   Ela se calou subitamente, ao dar-se conta de que falava alto e de que as suas contidas emoes estavam a ponto de transbordar.
   - Me... Me desculpe. Eu no quis...
   Ela mordeu o lbio, interrompendo o fluxo de palavras. Sentiu a pontada nos olhos, o choro que vinha. Falar sobre as dificuldades do trabalho abriu uma porta
para os piores pensamentos e memrias. A calma que exibia desde que chegara ali revelava-se no ser uma paz de fato. Estremeceu novamente, e a tremedeira no tinha
nada a ver com o frio.
   De sbito, achou Grant atrs dela e do balano. No havia nem sentido a sua aproximao. Ficou surpresa demais para reagir quando ele a envolveu nos braos. E
uma vez abraada, a fora e o calor dele se mostraram to reconfortantes que foi impossvel se esquivar.
   -  um trabalho horrvel e perigoso, D - afirmou Grant, suavemente. - Eu sempre soube disso, mas acho que nunca havia pensado muito sobre as pessoas que o faziam.
At agora, pelo menos.
   Doris evidentemente recebeu bem o cuidado dele, mas os seus alarmes internos buzinavam enlouquecidos. No seu atual estado, a fora e o calor de Grant eram reconfortantes
demais, tentadores demais... perigosos demais.
   Ela livrou-se dos braos dele, tentando no agir da forma brusca que a sua cabea ordenara, mas ansiosa para espantar o desejo por ele.
   - Desculpa por ter desabafado tudo isso desse jeito -disse Doris, formal.
   Grant no protestou pelo movimento ou pelas palavras dela, mas a olhou como se quisesse. Ela se ps de p, a mais ou menos um metro dele por segurana.
   - Eu tenho... visto o meu trabalho com outros olhos ultimamente. - Ela quebrou o silncio, que se tornava tenso. - Mas isso no significa que voc tem que ficar
aqui ouvindo a minha choradeira.
   - Eu acho - afirmou Grant, aps uns instantes - que voc precisa de algum para conversar.
   No voc, Doris pensou instantaneamente. A ltima coisa que ela precisava era partilhar os seus pensamentos mais sombrios com este homem, que se provava um fator
de desequilbrio para o seu estado emocional frgil.
   - Eu preciso resolver isso por minha conta - insistiu Doris.
   - Posso ver que voc continua to teimosa quanto h doze anos.
   - Voc no pode me chamar de teimosa s porque eu quero cuidar das minhas coisas sozinha.
   - Eu no falei que voc no deve cuidar das suas coisas sozinha.  disse que voc pode conversar sobre elas com algum. u isso afetaria o seu senso de independncia?
   Ela o olhou meio desconfiada e meio irritada.
   - E eu pensei que os homens achassem que ns mulheres falamos demais.
   - Talvez seja esse o problema. Voc trabalha tanto com homens que no fala mais. Ou policiais desabafam uns com os outros?
   Doris notou a ironia nos olhos azuis brilhantes de Grant.
   - Policiais - rebateu ela, cinicamente - tendem a guardar as coisas at explodir. A maioria deles, pelo menos.
   - E voc?
   - Eu no. No sou desse tipo, de acordo com o psiclogo do departamento.
   - Voc foi a um psiclogo?
   -  obrigatrio aps... um tiroteio.
   - E... isso ajudou?
   - Um pouco. - Doris desviou o olhar para o cenrio branco de neve. O frio comeava a incomod-la, depois de tanto tempo do lado de fora, sem se mover. - Ele disse
que seria uma boa idia vir para c.
   - E o que voc acha? Depois de passar uns dias aqui?
   - Pode ser. Aqui  lindo, natureza selvagem... me atrai. H uma pureza aqui.  duro, mas...  limpo. No h maldade.  apenas... vida.
   Grant ficou confuso com as palavras dela.
   - Eu...  assim... que eu sempre me senti.  por isso que eu sei que eu no poderia ser feliz em nenhum outro lugar.
   Por um longo e silencioso tempo, eles simplesmente olharam um para o outro, olhos azuis com olhos verdes, ambos absolutamente conscientes do elo inesperado que
aparecera do nada.
   Ligao to poderosa que a amedrontou. Ela no queria sentir aquilo, no queria sentir nada neste momento de vulnerabilidade. Infelizmente, no era a conscincia
que reagia, mas o corao. No podia negar o que acabara de acontecer. No entanto, tpico dela, confrontou os sentimentos.
   - Mas h... distraes que eu no previa - afirmou Doris.
   A forma como Grant a mirou a fez sentir-se desconfortvel, como se ele pudesse ler a sua mente.
   "Distraes?" Erro grave, agente Brady, ela resmungou consigo mesmo.
   - Entre outras coisas, o fato de eu estar congelando -esquivou-se Doris. Congelando os pensamentos, ela acrescentou para si mesma e escapou para o calor da casa,
antes que complicasse ainda mais a situao.

   Doris Ceclia Brady era a mulher mais... mais... mais insana que ele ja havia conhecido, da mesma maneira que fora tambm a criana mais insana.
   Grant virou de lado na cama e puxou o edredom at a altura do nariz, apesar de no estar com esse frio todo. Durante todo o dia, a neve veio e parou, veio e parou,
o mesmo ocorrendo  noite. A camada que se acumulou sobre o telhado constitua um isolamento adicional contra o frio. Embora o vento fosse constante, a casa se encontrava
um pouco mais quente do que o normal numa noite fria de inverno.
   As pessoas que elaboraram os calendrios, que decretaram que o inverno no se iniciava antes de dezembro, nunca passaram por Wyoming, Grant pensou. O inverno
comea quando bem entende.
   O clima no o distraiu por muito tempo. Logo os pensamentos caram de novo no buraco em que agonizavam desde o dia da chegada de D. Ela, que o tirara do srio
doze anos atrs, no perdeu tal talento. A diferena era que agora o tormento era infinitamente mais desconfortvel e perturbador.
   Ela inclusive no o deixava dormir. Ele geralmente caa morto na cama depois de um dia inteiro de trabalho. L estava agora, agitado, virando-se de um lado para
o outro, atento aos rudos do vento, ordenando a si mesmo para que esquecesse o relgio ao lado e, assim, no tomasse conscincia do pouco tempo que faltava para
levantar-se e retomar o trabalho.
   Mais um rudo, um estalo, que lhe pareceu irritantemente alto. Mal-humorado, voltou a se mexer na cama, incomodado. Voc deveria levantar o traseiro desta cama
gora, McClure, seu choro resmungo, ele pensou. Voc poderia ter terminado metade do seu trabalho durante o tempo desperdiado pensando naquela mulher.
   Pensando exatamente sobre quais seriam as outras distraes das quais ela estava falando.
   O rangido de uma porta se abrindo interrompeu os devaneios indesejados.
   Walt, deduziu Grant. Talvez alguma coisa estivesse errada.
   Ele pulou da cama, vestiu-se com pressa, sem sentir muito o frio. Colocou as meias grossas de l e deixou o quarto com as botas nas mos. Quem sabe no precisaria
coloc-las? E tambm no queria despertar D com os estalos do calado.
   No entanto, percebeu que ela j deveria ter se levantado. A porta do quarto de hspedes encontrava-se totalmente aberta. Foi checar. A maneira como os lenis
e o edredom estavam espalhados na cama revelavam que ela tambm tivera uma noite com pouco - ou nenhum - sono. D deve ter ouvido o mesmo barulho e descera para
investigar.
   - Walt? - chamou Grant, enquanto avanava pela escada. No obteve resposta. Ele acelerou nos ltimos seis degraus. Chegou  sala de estar, escorregando de leve,
j que vestia meias de l sobre o piso de madeira. A imagem da porta principal escancarada o paralisou.
   No havia sido Walt, Grant concluiu. O funcionrio nunca faria tal coisa, permitindo que todo o calor do aquecedor escapasse, principalmente quando nevava daquele
modo do lado de fora. Era uma nevasca muito mais forte do que ele pensara.
   - D? - chamou Grant. Mais uma vez no obteve resposta. To irritado quanto confuso, correu em direo  cozinha. O aposento estava escuro e silencioso. Voltou
 porta da frente, depois de adicionar mais lenha no aquecedor. Fechou a droga da porta e tentou refletir sobre os acontecimentos. No havia sido o vento. Da cidade
ou no, D tampouco cometeria o erro de deixar a porta escancarada. Ela deveria estar...
   L fora, concluiu. Abriu a maaneta e imediatamente avistou as pegadas na camada fina de neve sob o prtico. Pegadas pequenas de ps delicados, que no calavam
43 como ele ou como Walt.
   Que diabos?
   Grant enfiou os ps nas botas, agarrou o casaco do cabide junto  porta e uma lanterna de uma prateleira acima. Fechou a porta da casa e seguiu com os olhos as
pegadas que desciam pelos degraus do prtico e viravam  direita mais adiante, em direo ao galpo principal.
   Desceu os degraus, franzindo o rosto quando o vento frio queimou a pele descoberta. Soprava mais forte do que ele pensava. Preferiu no tentar especular sobre
a temperatura.
   Estava furioso. Que diabos ela estava fazendo, perambulando no meio da noite, durante uma nevasca dessas? Ser que no passa pela cabea dela o quo perigoso
pode ser um tempo desses? Ser que ela no sabe que uma pessoa pode perder completamente a orientao, cercada de neve por todos os lados, e morrer congelada mesmo
a poucos metros de um lugar seguro? Como podia ser to cabea oca? To descuidada? E ele que pensou que ela no fosse mais uma estpida da cidade...
   Um senso de urgncia, nunca antes experimentado, fez com que ele aumentasse o ritmo. Ficava cada vez mais difcil seguir as pegadas, pois a neve contnua apagava
o rastro. A poderosa lanterna no era de muita valia neste cenrio, pois o facho de luz refletido no branco lhe ofuscava a viso.
   A vinte metros da casa, ele perdera a trilha de pegadas para a neve que se acumulava. Ela s poderia ter ido para o galpo. Durante os quinze metros at l, rezou
para que estivesse certo. A porta de correr estava fechada, mas no trancada.
   Ele forou, fez mais fora, e a porta deslizou.
   Entrou e deparou-se com Doris, jogada no cho, do lado de fora da baia de Curinga.


   Captulo 5

   Curinga relinchou, um rudo de apreenso que Grant nunca havia antes ouvido do grande garanho. A reao do animal o tirou do estado de choque, e ele correu em
direo  mulher cada. Escorregou em um punhado de rao espalhado pelo cho, quase tombou, se recomps e continuou. Curinga relinchou novamente. O cavalo enfiou
a cabea pela parte superior aberta da porta da baia e a curvou na direo de Doris, como se temesse que o dono ainda no tivesse avistado D. Ele por pouco no
gritou para o animal que sim, que a tinha visto.
   D tremia muito, abraada a si mesma dava a impresso de que se esforava para se manter inteira, para conservar o calor que lhe restara no corpo, aps a jornada
sem sentido pela neve. O galpo estava relativamente quente, mas no to quente como em casa. A peregrinao sob vento e neve deveria ter drenado o calor do corpo
dela.
   Pelo menos, algum instinto de auto proteo funcionara, Grant pensou ao ajoelhar-se do lado dela. D vestira a Jaqueta e as botas. Mas que diabos era aquilo que
ela usava por baixo? Uma coisa fina verde-clara, como se algum fosse sair na neve com uma camisola ou algo...
   Era exatamente o que ela fizera, Grant constatou.
   - Voc est louca? - disparou.
   Ele a puxou para escor-la e sent-la, a ponto de repreend-la seriamente. Ela o olhou, e, neste instante, toda a raiva, todo o sermo que ele estava prestes
a proferir, evaporaram.
   Nunca tinha visto ningum assim. Os olhos dela estavam arregalados de terror, e ele percebeu que ela no tremia de frio, e sim como uma reao nervosa. Parecia
algum assombrada por algo que no tinha foras para enfrentar.
   - D? - disse Grant, delicadamente, o mais gentil que conseguiria. - O que houve?
   Ela se abraou ainda com mais fora, gemia de leve, sua cabea pendia para frente e para trs. Para ele, de forma sbita, no interessava mais o que acontecera,
que horror fora aquele que a levou a arriscar a sade e at mesmo a vida na noite de neve. Tinha quase certeza do que se tratava.
   Ele abriu a parte de baixo da porta da baia. Podia ser estpido confiar no garanho daquela maneira, mas o animal estava to extasiado pela figura de D, que
ele duvidava que o cavalo de algum jeito a machucaria. E o calor do bicho seria bem-vindo agora. Ele a arrastou para dentro da baia limpa. Fechou a porta, sentou-se
ao lado dela, abriu a prpria jaqueta, abraou a mulher e encaixou as suas pernas nas delas, adicionando o seu calor ao pouco que restava a D. O fato de ela no
ter resistido, no t-lo empurrado, dizia mais do que tudo sobre a situao.
   Curinga relinchou baixinho, envergando o pescoo para cheirar o topo da cabea de D, num gesto de extremo carinho.
   - Ela vai ficar bem - assegurou Grant, sem dar a mnima ao absurdo de conversar com um cavalo. A mensagem era dirigida tanto a D quanto ao animal. E, provavelmente,
para ele tambm.
   - Ela apenas precisa se esquentar e saber que est a salvo - continuou Grant.
   H muito tempo ele no confortava uma mulher, e no estava certo se fora minimamente bem-sucedido nas poucas experincias passadas. Depois dessas poucas tentativas,
ele evitou qualquer aproximao com uma mulher que o levasse a situaes desse tipo.
   E nunca havia tentado confortar uma mulher to arrasada quanto esta. Provavelmente, porque nunca conhecera uma que tivesse de lidar com os pesadelos que o trabalho
de D sem dvida provocava.
   Por um longo perodo, ficou sentado ali, segurando-a, checando o quanto ela tremia. D permitiu-se ter a cabea abrigada no ombro dele. Periodicamente, ele tinha
que se esquivar do focinho de Curinga, que insistia em cutucar a cabea dela com o nariz, como se tentasse provocar a reao de indignao bem-humorada de sempre.
D, porm, assim no reagia.
   Visto de cima agora sabia como o cabelo dela era fios grossos e dourados, que tinham realmente a textura sedosa que aparentavam. Detectava a fragrncia do xampu
de ma, o cheiro que D jurava ser o segredo da paixo do cavalo por ela.
   Ele estava ciente de que ela usava nada ou quase nada por baixo da camisola visvel sob a jaqueta. O tecido delicado no combinava em nada com as botas pesadas
e forradas. Podia visualizar tranqilamente a figura dela somente com a camisola, como o verde claro da vestimenta lhe destacaria os olhos de esmeralda. Ele tambm
estava consciente de que o seu corpo reagia quela proximidade com mais do que compaixo, mas buscava reprimir sem piedade tal resposta.
   Para se controlar, ele seguiu falando, sem saber ao certo o que falava. Sussurrava palavras gentis, convencido de que assim acalmava o cavalo amedrontado. Tinha-a
bem junto a si, mas no a apertava. No queria que ela se sentisse presa, a diferena de tamanho entre os dois.
   Colada nele, D tremia sequer gemia ou falava. Finalmente, quando a tremedeira pareceu vencida, foi a vez de ele se calar. J havia perdido a noo do tempo,
sentado na baia, quando ela finalmente pronunciou, com uma voz baixa, palavras que pareciam foiadas:
   - Me... desculpe.
   Ele no falou nada, apenas a abraou com mais fora por uns segundos.
   - Eu...
   Faltou voz a Doris. Ele sentiu o esforo dela para se aproximar e se fazer ouvir. O quase imperceptvel movimento e a confiana guardada nele o aguaram mais
do que ele jamais esperaria.
   - Eu pensei que ele no viria mais. O sonho. No tivera o sonho... desde que cheguei aqui.
   Ento fora algum terrvel pesadelo que a trouxera aqui, no meio da noite.
   - Perdo. Eu fiz com que voc falasse sobre isso durante a tarde. Foi isso que trouxe o sonho de volta.
   - O... doutor disse que eu devo falar a respeito de tudo o que aconteceu. - Ele a ouviu suspirar, soltar o ar com grande fraqueza. - Como voc disse, tambm.
Mas ... difcil. Todo mundo que eu conheo... conhecia Nick. Todo mundo est arrasado tambm, e parecia... to equivocado ficar falando de tudo o que aconteceu,
porque foi to horrvel, e eu nunca poderia lhes contar toda a verdade. Foi horrvel demais, feio demais, muito sangue, e eles eram seus amigos, familiares...
   D conteve as palavras vacilantes e voltou a tremer. Ele a abraou com fora, sem encontrar resistncia. Na verdade, ela dava a impresso de buscar o aconchego
dele.
   Grant achava que no gostaria de ouvi-la, no queria detalhes sobre algo que tinha o poder de abalar deste modo uma mulher to resignada. Ao mesmo tempo, contudo,
no suportava v-la to consternada, na tentativa de controlar o que queria ser posto para fora.
   - Me conte - sussurrou ele. - Me conte, D.
  - Eu... no posso.
   - Pode, sim. - Curinga voltou a toc-la com o focinho, unindo foras para encoraj-la. - Quem seria melhor para ouvir? Eu no o conhecia, no vai me machucar;
no como machucaria a todos eles.
   - Eu...
   - O que aconteceu, D? Kristina apenas me disse que ele foi morto em uma misso.
   - Ele no foi apenas morto. Ele foi... executado.
   Agora ele tinha certeza de que no queria ouvir nada sobre aquilo, mas no podia mais voltar atrs, no quando enfim ela desabafava.
   - Como? - emendou ele, com uma voz mais firme do que esperava.
   - A gente estava... no meio de uma investigao.
   Grant notou-a ela meio vaga, mas no insistiu. Sups que certas coisas policiais simplesmente no falavam para cidados normais, no importavam as circunstncias,
no importava o quo deprimidos e tristes eles estivessem. O treinamento, a doutrinao iam fundo. Eram nome, patente e nmero de registro, mesmo sob tortura.
   - Nick recebeu uma dica de um informante, com quem ele j trabalhava h algum tempo, sobre o assassinato de um agente anos atrs, um amigo dele. Ele confiava
no informante.
   Algo no tom de voz dela indicava a emboscada.
   - Mas ele no deveria ter confiado?
   - O informante o entregou de bandeja. Os caras que ns estvamos buscando esperavam por ele naquele depsito. Era uma cilada desde o incio.
   Ela tremeu, uma convulso, outra, e Grant instintivamente lhe agarrou com mais fora. Esperou silenciosamente at que os tremores passassem, at t-la de novo
quieta em seus braos. Mais do que nunca, ele no queria ouvir o resto da histria. Deduziu que ela pararia se no a incentivasse, mas sabia que D precisava se
livrar do fantasma.
   - E a? - provocou ele, um pouco hesitante.
   - Eu... No. No interessa. No vai mudar nada.
   - Fala, D.
   Por um instante, ele pensou que ela se fecharia de vez. Entretanto, percebeu a capitulao pelos gestos dela, antes mesmo que as palavras viessem, vacilantes,
pedaos de dor, raiva e culpa.
   - Eles o amarraram, com as mos por trs do corpo, e atiraram, um tiro na nuca.
   - Malditos.
   - Ele no teve nenhuma chance. A sua nica chance seria eu, mas eu cheguei tarde demais. Ele j estava morrendo... quando eu o alcancei.
   Grant permaneceu imvel. No sabia desse detalhe.
   -Voc... estava l?
   - Eu era a sua parceira, era claro que eu estava l. - A voz dela ganhou repentina amargura. - Mas isso no o ajudou em nada. Ele... - Doris engoliu em seco.
Grant pde sentir e ouvir o movimento. - Ele estava sangrando. Sangue demais. A cabea... estava... - Ela tremia violentamente - Ele ainda respirava, mas os olhos...
eles j estavam... Ele morreu nos meus braos.
   Meu Deus, Grant pensou.
   - D...
   - Se eu tivesse chegado um minuto antes. Um minutinho. Se eu no tivesse parado para fazer o chamado, no tivesse perdido tempo pedindo apoio, se eu apenas tivesse
ido em frente e o seguido depsito adentro, se...
   - Pare, D.
   Ela fez que no com a cabea, enftica, recusando qualquer esforo dele para acalm-la e consol-la neste momento.
   - Voc no v? A culpa de ele estar morto  minha. Eu era a sua parceira, eu deveria estar l com ele, eu poderia ter feito alguma coisa...
   - Como morrer tambm, por exemplo? - cortou Grant com brutalidade, tentando conter a culpa que transbordava dela.
   - Eu poderia ter...
   - Voc no teria que pedir apoio numa situao como essa?
   - Sim, mas...
   - Ento voc fez o que voc deveria ter feito. Acho que foi o seu parceiro que agiu de forma precipitada. -Grant desconfiava que no deveria criticar um homem
morto, mas, neste exato instante, ele s pensava no bem-estar de D, apesar de isso parecer inalcansvel agora.
   - Ele era um agente graduado. Eu deveria t-lo seguido, e no ficar esperando do lado de fora...
   - Se tivesse, voc estaria morta. - Grant foi lgico e determinado. - Homens como esses no valem um centavo. Eles no teriam nenhum peso na conscincia por matar
dois em vez de um.
   Ele torceu para que ela se convencesse. Era to claro para quanto um dia cristalino de inverno em Wyoming. No havia nada que D pudesse fazer, a no ser aumentar
a lista de vtimas dos assassinos. Ele supunha que parte daquela angstia era culpa de sobrevivente, e o fato de ela ter estado to perto do assassinado agravava
o sentimento. Contudo, no era somente isso. D honestamente pensava que poderia ter realizado um milagre, que de alguma maneira poderia ter conseguido o impossvel.
   Mas ela no acreditaria, no aceitaria que era impossvel. Enxergava tudo atravs de uma neblina de dor, tristeza e culpa e tirava concluses equivocadas, as
nicas possveis para a sua mente torturada.
   - Voc se lembra daquele ano quando eu fui visitar mame e fui acampar no norte de Minnesota? - indagou Grant, pacientemente.
   Cautelosa diante da aparente mudana de assunto, ela titubeou antes de confirmar com a cabea. Ele sentiu, mais do que viu, o movimento.
   - Eu comecei caminhando morro acima. No segundo dia, vi um grupo de lobos abater um veado. Era um filhote, que se separou do rebanho. Quando os lobos o cercaram,
o restante do rebanho escapou. No havia outra escolha para eles. Nem mesmo precisaram refletir sobre as escolhas. Para os animais, o instinto de sobrevivncia 
programado e inegvel. Somente as pessoas cultivam a idia de que h escolhas a serem feitas numa situao como essa. s vezes, eu no sei se isso  bom.
   - O qu... O que voc est querendo dizer?
   - Eu estou dizendo que foi aquele filhote que se meteu naquela situao ao separar-se da segurana do rebanho.
   Ela endureceu.
   - Voc est dizendo que Nick  culpado por ter sido assassinado? Voc est errado. Ele poderia estar mesmo obcecado com... o caso, pois o policial morto era seu
amigo, mas ele era o melhor policial que eu conhecia.
   Estava claro que ela se encontrava longe de aceitar que o seu querido parceiro poderia sim ter parte da culpa pelo que aconteceu. Logo, ele acelerou para conseguir
continuar.
   - O meu argumento  que mesmo na cidade h lobos para se enfrentar, e eles podem ser to impiedosos quando os que vivem na natureza. Piores, na verdade, porque
lobos matam para sobreviver. E se voc tivesse dado a esses predadores a chance, eles teriam matado voc tambm. Voc acha que Nick apreciaria isso?
   D se amparou novamente no corpo dele, Grant mal pde ouvir ela sussurrar:
   - No.
   - D, me desculpe. Eu sei que voc o amava, mas o seu sacrifcio no o salvaria, assim como se entupir de culpa agora no o trar de volta.
   - Eu o amava mesmo, ele era... o meu melhor amigo.
   Uma maneira estranha de descrever um namorado, um amante, Grant pensou, mas disse somente:
   - Eu sei o quanto  duro perder algum to querido. O vazio que deixa.
   D respirou profundamente, e ele pde sentir que ela se recompunha. No havia mais o tom de amargura na voz dela, quando falou de novo:
   - Eu sei que voc sabe. A sua me disse para Kristina que estava muito preocupada com voc quando seu pai morreu.
   Grant afastou-se de leve.
   - Ela disse? Eu no sabia. Ns nunca... falamos muito a respeito dele.
   - Ela o amava, voc sabe.
   - No o suficiente.
   - No o suficiente para continuar aqui, mas ela o amava. Ele suspirou.
   - Eu sei que ela amava, mas no acho que ela alguma vez se arrependeu do que fez.
   - No. Ela me disse uma vez que a nica coisa da qual ela se arrependia era no ter visto voc crescer. Se ela no soubesse que voc era forte, independente e
teimoso o bastante para crescer por sua conta, ela no teria sido capaz de agarrar a segunda chance que teve para ser feliz.
   Ele riu.
   - Teimoso... ela me disse vrias vezes que eu era.
   Grant ouviu D fazer um rudo. No era exatamente um riso, mas um suspiro que indicou a ele que o pior da tempestade havia passado.
   - Eu espero que os filhos de Nick sejam to fortes quando voc.
   - Ele... tinha filhos?
   - Dois. Um menino e uma menina. Meu Deus, vai ser horrvel para eles sem o pai.
   - Eu tenho certeza que voc vai... ajud-los.
   - Vou fazer o que eu posso. Eu sou a madrinha deles, afinal de contas. No vai ser fcil para Allison.
   Madrinha? O que  isso?
   - Allison? - perguntou Grant.
   - A esposa de Nick.
   - Ele era casado? - Grant foi direto. Doris levantou a cabea.
   - Com uma das minhas melhores amigas. - respondeu ela. - Fui eu que os apresentei.
   - Mas eu pensei...
   - Voc pensou o qu?
   - Kristina me disse que vocs eram muito prximos.
   - ramos mesmo. - A voz dela mudou ligeiramente de tom. - Eu no te disse? Ele era o meu melhor amigo. Era... mais do que isso. Ele era dez anos mais velho do
que eu, era policial h 15 anos. Ele era o meu mentor, o cara que me ajudou no incio, nas piores fases, ainda piores para uma mulher.
   O desabafo, claramente vindo do corao, fez Grant se envergonhar pelas suas concluses precipitadas.
   - Eu pensei que voc e ele eram... Voc sabe.
   - No, eu no sei. O que voc pensou... - Ela no completou a frase, pois a resposta, bvia, lhe veio enfim. -Voc pensou que Nick e eu ramos... namorados?
   - Bem - afirmou Grant, constrangido. - Pensei, sim. Pelo jeito como Kristina falou...
   No terminou. Ele pensou se alguma vez j se sentira to constrangido assim. Embaraado ao ponto de desejar enfiar as botas tamanho 43 na boca. As duas.
   - Ela te disse que ns ramos prximos, e voc j concluiu que era uma... relao amorosa?
   - Eu...
   - No me diga que voc  um daqueles homens que pensam que uma mulher e um homem no podem ser simplesmente amigos?
   - Eu nunca disse isso - respondeu Grant de pronto, antes que ela seguisse por aquela linha de argumentao. - Eu apenas, pelo jeito com que a minha irm falou,
eu... presumi. Eu no deveria. Eu lamento.
   Mais do que lamentava. Seus pensamentos estavam embaralhados. Ele se achava revoltado pelo que ocorrera, Preocupado por ela ver-se culpada, chateado pelas prprias
concluses precipitadas e equivocadas... E, ao mesmo tempo, por mais que no quisesse e no esperasse, aliviado por descobrir que D e Nick no eram um casal apaixonado.
No gostava de se sentir assim, mas s estava sendo capaz de manter o controle em relao  presena dela na fazenda por enxerg-la como uma mulher de luto pela
morte do amante.
   Agora, ciente de que Nick fora simplesmente um amigo, casado com outra amiga, e que ela ainda batizara os seus filhos, ele no podia prever o que aconteceria
com os confusos sentimentos.
   No podia prever e nem queria saber.

   Captulo 6

   Ainda no o agradecera por t-la escutado, Doris pensou. No da maneira como deveria pelo que ele fez. No importava se aquilo no dizia respeito a ele, mas ouvir
uma histria horrvel daquelas no era fcil. Alm do mais, ele no tinha a obrigao de agentar o desabafo, a angstia que ela liberou na noite passada.
   E, tampouco era obrigao dele abra-la com tanta gentileza, de modo to aconchegante, com tanta... tanta ternura. Doris disse consigo, com as faces vermelhas
por caminhar pela neve nesta aprazvel manh de Domingo.
   Envergonhada, a mente se esquivou da lembrana do que ele, de como ela se sentira, de como permitira, de como desfrutara daqueles abraos. Evitava envergonhada
de admitir como Grant amenizara sua dor como ningum ainda conseguira, simplesmente por se fazer presente e abra-la. As palavras dele se assemelharam a muitas
j ditas pelos amigos, mas soaram muito mais poderosas e reconfortantes.
   Tinha conscincia de que seria necessrio muito mais do que palavras para de fato calar a dor. No entanto, pela primeira vez desde que tudo acontecera, ela confiava
que isso era possvel. Confiava que, no futuro, se convenceria de que no havia nada que ela pudesse mesmo fazer. Sentiu-se quase capaz de sorrir da idia sobre
um envolvimento romntico com Nick. Entendia de onde Grant tirara tal absurdo, mas no a reao esquisita dele quando se descobriu equivocado. Ele pareceu quase...
decepcionado, e ela no tinha uma explicao para isso.
   Ela avistou a fazenda, ainda coberta de neve, apesar de o sol deste dia claro ter derretido muito do gelo da tempestade de ontem. Olhou para cima, para os picos
da montanhas, que definiam o horizonte com um revestimento reforado de neve. Tentou se contagiar com a paz da paisagem, absorver parte daquela tranqilidade, crer
que a beleza selvagem da regio poderia lavar e cicatrizar a sua alma surrada.
   Tudo com cuidado, pois no adiantaria se apegar demais a este lugar. Ficaria aqui at que se capturassem os assassinos, quando voltaria para a cidade, ajudaria
a conden-los e retomaria sua vida.
   Ela escutou o barulho de um carro e virou-se para a estrada de cascalho, que ligava a fazenda  via pavimentada. Viu o jipe vermelho de trao nas quatro rodas
se aproximar. O motorista duelava com a neve na estrada sem maiores problemas. Um local, Doris deduziu, antes de se dar conta da provvel identidade do recm-chegado,
ou melhor, da recm-chegada. A me de Risada, a dedicada, eficiente e inteligente Rita, a mais do que competente cozinheira...
   Pare, Doris se repreendeu. Voc est sendo... rude, finalizou, sem dar o nome correto ao que sentia.
   Determinada a no dar trgua para a sua tolice, ela voltou para a casa, decidida a cumprimentar a mulher que preparava a comida deliciosa para eles. Mesmo requentada,
a lasanha, a carne assada e o frango estavam melhores do que qualquer coisa que ela pudesse cozinhar.
   A sua disposio em ser receptiva foi a abalada quando se aproximou da mulher. Era uma morena, acertara, mas subestimara a beleza de olhar marcante. Rita Jenkins
era no menos do que estonteante.
   Sara do jipe carregada de coisas, um caixote repleto de comida e sacos de mercearia, um deles prestes a cair. Doris correu para salv-lo.
   - Oh! Obrigada, querida. Era o que estava com os ovos.
   - Sem dvida - disse Doris. Ela apanhou um outro saco, e a mulher de cabelo escuro suspirou de alvio. - Se no fossem ovos, seria o de embalagens de vidro.
   A risada da mulher foi alegre, cativante, cheia de vida. O brilho naqueles olhos castanho-escuros era mais do que lindo, era agradvel, acolhedor. Ela usava uma
aliana.
   - Meu nome  Rita - apresentou-se a mulher. - Voc deve ser D?
   - No  difcil adivinhar num lugar s com homens -respondeu Doris, fazendo questo de sorrir, enquanto as duas descarregavam os mantimentos na cozinha.
   - Grant me disse que voc estava vindo. Ele se esqueceu de dizer o quanto que voc iria embelezar este lugar.
   Doris piscou uma, duas vezes.
   - Eu... ... Obrigada. - Ela gaguejou, surpresa pelo elogio.
   - E meu filho mordeu a isca - acrescentou Rita. - Voc est arrasando coraes por aqui.
   - Eu... No era a minha inteno - afirmou Doris, sem estar muito segura sobre o que dizer. Ela j sabia da atrao de Risada, mas quem lhe comunicava o fato
ali era, afinal, a me dele.
   - Tudo bem, querida. Eu at me preocuparia, se ele no se apaixonasse uma vez por ms.
   - Oh. Melhor assim.
   Rita gargalhou novamente, a mesma risada sonora. Ela era to cativante quanto Kristina, mas de uma maneira muito diferente, muito mais aberta e madura. E tambm
to bonita quanto Kristina, a verso morena da beleza loura de Kristina.
   Subitamente, D sentiu-se muito mida, sem graa e insignificante.
   - Onde est Grant? - perguntou Rita.
   - Eu... Ele est vendo uma gua grvida. Walt disse que ela est se comportando de forma estranha.
   - Deve ser Lady. Walt saberia, sim. Ele  a melhor bab de cavalos de todo o estado.
   Doris no conteve o sorriso ao imaginar o homem rude e grisalho como uma bab.
   -  melhor eu comear - afirmou Rita. - Era para eu ter chegado ontem, mas Jim no queria que eu dirigisse naquela tempestade.
   - Jim  o seu... marido?
   - Isso mesmo, aquele diabo sortudo. - Rita abaixou o tom de voz conspiratoriamente, enquanto pegava uma lata de molho de tomate. - Para ser sincera, eu que sou
a sortuda, mas nunca vou dizer isso a ele.
   Ela no deixara dvidas sobre os seus sentimentos, e Doris sentiu alvio e, ao mesmo tempo, incmodo, diante da revelao. Para esconder o que temia estar estampado
em seu rosto, ela deu as costas para Rita e comeou a esvaziar outro saco do mercado. Uma sacola cheia de farinha, acar, manteiga e, l no fundo, confeitos verdes
e vermelhos.
   - Biscoitos de Natal? - arriscou Doris.
   - . Grant disse que queria neste ano. Se eu tiver tempo, vou prepar-los hoje - afirmou Rita. - Eu sei que ainda falta muito, mas chegar aqui no  algo que
se possa prever nesta poca do ano.
   Doris se esquecera completamente que eles estavam a menos de um ms do Natal. Uma das razes por Doris ter concordado em vir para a fazenda foi a preocupao
da sua famlia. O feriado de Ao de Graas havia lhe consumido o resto das reservas emocionais. No tinha mais nenhum pingo de pacincia para lidar com a comoo
dos pais. Eles ficaram tremendamente consternados com a morte de Nick. Embora a filha os entendesse e os amasse por isso, era mais do que enervante ter que assegur-los
o tempo inteiro que estava bem. Especialmente, quando ela no estava convencida disso.
   - Eu... poderia fazer isso para voc. Digo, os biscoitos. Rita interrompeu o ritmo veloz com que desempacotava os mantimentos. Acabava de desempacotar um presunto
tender enorme, quando encarou-a com uma expresso indecifrvel.
   - Eu no quero invadir o seu territrio - afirmou Doris, rapidamente. - Meus dotes na cozinha no valem nada, mas biscoitos eu posso preparar.
   O sorriso de Rita brilhou de novo.
   - Se  assim, acho que voc tambm pode fazer esse tender que Grant pediu. Eu escrevo a receita, e voc segue as instrues. - Ela colocou o pedao de carne enorme,
embrulhado em papel-alumnio. - Meu filho me disse que voc  uma policial.
   - Sou.
   - Trabalho pesado, no. Mais pesado ainda para uma mulher.
   Doris no tinha por que negar.
   -  mesmo.
   -  que nem trabalho na fazenda, ento. Mais pesado para mulher.
   Doris surpeendeu-se.
   - Eu... no havia ainda pensado sobre isso, mas acho que voc est certa.
   Rita abriu a lata de polpa de tomate. Apanhou cogumelos, cebola e um pacote de macarro da ltima bolsa. O cardpio da noite seria espaguete, parecia.
   - Precisa ser durona para enfrentar a vida aqui - disse Rita. - Muita gente da cidade no agentaria.
   - J me disseram isso - comentou Doris, com um certo cinismo.
   - E Grant? Cavalgando muito naquele cavalo caro?
   - No tenha dvida.
   - Ele tem... uma certa fixao pelo animal.  estranho que, sentindo-se solitrio a esse ponto, ele no d bola para as garotas daqui que ficam correndo atrs
dele - comentou Rita.
   - Ele... no d?
   - O meu garoto disse que ele nunca sai  noite. Quando tem uma festa, Grant sempre fica aqui fazendo qualquer coisa. Mas ele tem as suas razes.
   - Voc quer dizer fazendo o que precisa ser feito para manter um lugar como este funcionando? - rebateu Doris, que, sem querer, soou na defensiva.
   Rita sorriu com bastante satisfao.
   - Voc tem razo.  muito trabalho. No  para qualquer um. - Ela fixou os olhos em Doris. - Mas eu poderia apostar que algum durona o suficiente para um trabalho
como o seu poderia se adaptar a tudo, se essa algum quisesse,  claro.
   Doris a encarou tambm.
   - Se quisesse.
   Rita sorriu mais uma vez.
   - Os biscoitos - disse ela - so todos seus.

   - Como voc chegou at aqui em cima?
   Doris ouviu os rudos familiares de Curinga poucos minutos atrs, logo no se surpreendera ao deparar-se com Grant montado no appaloosa.
   - Andando - respondeu ela.
   -  uma subida e tanto.
   Doris no poderia discordar. Este abrigo de rochedo, de onde era possvel avistar a fazenda, estava a mais de um quilmetro da casa. Felizmente, a maior parte
da neve do sbado derretera, e, apesar do solo estar enlameado, ela no precisou enfrentar o cho fofo.
   Uma vez ali, a formao rochosa a protegera do vento. Para isso, ela teve de abrir mo da paisagem, sentada atrs da pedra numa camada de folhas e galhos acumulados
no lugar. A impresso era que tinha  disposio uma janela para o mundo nevado.
   - , mas eu gosto deste lugar.  tranqilo, sereno. Tudo limpo e quieto.
   - Eu sei - afirmou Grant, suavemente. - Eu costumava vir muito aqui. Quando o meu pai estava doente, eu... me escondia aqui, quando chegava ao meu limite.
   - Eu... estou certa de que ajudava.
   A admisso dele a fez recordar da ternura que este homem mostrara na noite passada. Ela optou por mudar de assunto.
   - Bom, tenho certeza de que o exerccio me faz bem.
   - Se voc agenta andar a essa altitude, voc est realmente bem. - Grant cruzou os braos e se reacomodou na sela sobre o cavalo, de onde, l de cima, ele sorria
para ela. - Por aqui ningum anda mais do que cinqenta metros a p se no for preciso.
   - Bem, eu preciso, j que eu no cavalgo - lembrou Doris.
   Grant recolheu o sorriso e se ps reflexivo.
   - Isso no  necessariamente uma coisa boa por aqui. Se algo acontece, como um tombo, voc iria ficar na mo.
   - E qual seria a vantagem de cavalgar?
   - Cavalos de fazenda dificilmente caem. Todos esto acostumados com terrenos acidentados.
   - Mas para isso voc tem de ser capaz de se manter em cima deles - comentou Doris e sorriu.
   -  verdade. - O riso que tirava o flego da adolescente abriu-se no rosto dele. - Mesmo assim, o cavalo voltaria sozinho para casa, ns saberamos que h um
p de moa para ser resgatado, e eu teria que chamar Rachel - prosseguiu ele, claramente zombando dela. Grant falava da filha de Jake e Erika Fortune, que, segundo
Kristina lhe contara, montou um servio de resgate areo em Clear Springs, perto dali, antes de se casar com Luke Greywolf, um mdico local. - E ento, Luke ficaria
preocupado...
   Doris, rindo, o interrompeu.
   - Muito obrigada, mas, uma vez que eu no monto, este  um argumento questionvel.
   Grant hesitou antes de falar, mas finalmente disse:
   - Talvez a gente precise fazer algo a respeito disso.
   - A respeito de qu?
   - De voc no cavalgar.
   Doris por pouco no soltou um "hein?" de excitao.
   - No fique chocada. Voc inclusive j falou sobre isso - recordou Grant.
   - Eu? Ele confirmou com a cabea.
   - Falou, no falou, Curinga? Disse isso na sua cara. O cavalo bufou, e Doris surpreendeu-se quando o animal balanou a cabea em aparente concordncia.
   - Este cavalo - murmurou ela - no  normal.
   - Ele lembra claramente quando voc disse que ele poderia fazer at mesmo uma urbana como voc querer cavalgar. Isso no  o tipo de coisa que um cara esquece
assim.
   Doris olhou para Grant, cautelosa.
   - Aparentemente, no.
   Grant sorriu de novo.
   - A escola de montaria abre de manh. Esteja presente.
   - Grant, realmente...
   - Eu no sou um professor paciente - alertou ele. - Ento, no se atrase.
   - Grant, no brinque. Eu sei que voc no tem tempo para isso...
   - Eu no tenho tempo  para me preocupar com voc. No tenho tempo para procurar voc por a. A gente faz um pacto: voc aprende a montar, e eu paro de me preocupar.
   - Voc no tem que se preocupar comigo - afirmou Doris, tentando no admitir que a idia a seduzia.
   - Claro que eu tenho - rebateu ele. - Kristina me mata se alguma coisa acontecer com voc.
   Kristina. Claro. Doris perguntou-se o que havia de errado com ela. Ela saiu com dificuldade do seu abrigo, surpresa por constatar como esfriara. No havia suspeitado
do quo protegida estava pela formao rochosa.
   - Ou pior - acrescentou Grant, quando ela j estava junto ao garanho. - Ela viria aqui atazanar o meu inverno, e, quando a primavera chegasse, eu estaria louco.
   - Eu pensei que voc a adorava.
   - E adoro, mas longe daqui - decretou Grant. - No sei, no, mas acho que voc pode levar jeito para montaria.
   - Ah, ? Muito obrigada.
   - Oito horas, amanh.
   - Grant...
   - Concorde, D. Ou voc vai voltar a p para a fazenda.
   - Eu vou voltar a p, de qualquer maneira - disse ela, como se ofendida.
   - Voc pode voltar a cavalo, se concordar em comparecer a sua aula.
   - Tudo bem - ela se rendeu.
   - timo. - Grant soltou o p esquerdo do estribo. -Suba.
   Doris examinou o estribo acima da sua cintura, preso ao appaloosa.
   - Voc no est falando srio. Grant se curvou e pegou a mo dela.
   - Apenas encaixe o seu p a, e eu te ajudo. Venha.
   Ela vacilou, colocou finalmente o p no estribo e agarrou-se nele. Grant a segurou pela cintura, e ela sentiu o calor do corpo dele, seus msculos fortes sob
a camisa grossa. Virou o pescoo para observ-lo, e ele a olhava como se experimentasse a mesma sensao estranha.
   - Grant? - Ela quase sussurrou. Ele pareceu despertar do transe.
   - Vamos l - disse o cavaleiro.
   Ele a levantou sem o menor esforo. Antes que pudesse se dar conta, ela j estava em cima do cavalo, que era muito mais alto do que imaginava.
   - No sei se essa foi uma boa idia - comentou Doris, checando nervosa a distncia at o cho.
   - Eu no acredito que voc est com medo. Uma policial machona como voc?
   - Machona? No, maches so s os homens equivocados que existem por l - afirmou Doris, secamente.
   Grant riu.
   - Segure firme.
   - Como? - perguntou Doris. - Voc tem os estribos e a rdea. Tudo que eu tenho ... ...
   - O traseiro do bicho? - completou Grant, sem maiores pudores. - Ento, segure em mim. Voc nunca pegou carona numa moto?
   - Numa moto h um lugar para o carona colocar os ps - resmungou Doris.
   - Vai ser somente um trote. No vai, Curinga?
   O cavalo bufou e moveu-se de leve ao som do seu nome. Doris necessitou de todo o seu auto controle para no gritar. No, ela pensou quando iniciaram o percurso,
aquela definitivamente no fora uma boa idia.
   - Eu acho - disse Grant, desapontado - que no d.
   - Desculpa- afirmou Doris.
   - Eu no acredito. Eu sempre lidei com cavalos, e nunca tinha visto nada assim.
   - Eu no estou fazendo nada - lembrou ela.
   - E nem precisa - comentou Grant, azedo, enquanto Curinga relinchava de novo, alto, claramente incomodado.
   Doris estava montada no cavalo que Grant classificara como um dos mais calmos da fazenda. No entanto, o bicho agora danava nervoso diante dos urros irritados
do appaloosa. Imponente, ela segurava as rdeas. Manteria o orgulho at pelo menos a primeira queda, o que, aps trs dias de aula, ainda no ocorrera.
   - Talvez eu deva voltar l para acalm-lo de novo -sugeriu ela, pouco convencida do que propunha.
   - Claro. E a calma vai durar at voc montar de novo. Eu no acredito. O maldito cavalo est com cimes.
   Ela suspirou. Se Grant no estivesse visivelmente irritado, a histria toda seria at engraada. O incmodo de Curinga com as aulas de montaria dela ficara bvio
de imediato.
   Desde o primeiro dia, o appaloosa no deixava nenhuma dvida de que no apreciava a ligao dela com outros cavalos.
   De um modo estranho, isso... lhe massageava o ego, Doris concluiu. Pelo menos, um macho naquela fazenda lhe dedicava toda a admirao. Alm de Risada, claro.
Ele, entretanto, no contava. Era jovem demais. Mais jovem inclusive do que os garotos de 18 anos de Minneapolis. Ou, provavelmente, os garotos de 18 anos de l
que eram mais amadurecidos, contagiados pela decadncia do ambiente urbano.
   No fundo, ela sabia que se desviava do cerne da questo. O verdadeiro motivo de desdenhar a admirao de Risada era o homem que neste instante encarava Curinga.
Nos ltimos dias, a proximidade forada por essas aulas - mesmo atrapalhadas pelo cime do cavalo - a desestabilizava, isto  o mnimo que se pode dizer.
   - Ele est tirando todo mundo do srio - murmurou Grant. - At Aposta foi buscar refgio. Ele est deixando todos os cavalos nervosos.
   - Talvez seja melhor ento desistirmos - afirmou Doris, embora no quisesse suspender as aulas. Em meio aos contratempos causados por Curinga, ela se surpreendeu
ao desfrutar da experincia. Cavalgar era emocionante, mesmo confinada no curral que Grant estabeleceu como sala de aula.
   - Eu vou me arruinar se me deixar intimidar por um cavalo - reclamou Grant.
   Curinga relinchou de novo, estridente, e o cavalo de Doris se debateu, nervoso. Grant o segurou pela correia para que ficasse quieto. Ela se desvencilhou do estribo
e desmontou, movimento j aprendido. Curinga voltou a relinchar.
   - Se eu fosse do tipo que atribui a animais emoes humanas - afirmou Doris - diria que ele soou um pouco metido desta vez.
   - Acredite. Ele est feliz consigo mesmo - disse Grant. Ela caminhou at a cerca. Curinga se antecipou e a tocou com o focinho, obviamente orgulhoso por ter conseguido
afast-la do concorrente. Ela riu e deu tapinhas na cabea do cavalo. O animal abaixou a cabea, emitiu um rudo, e Doris esticou o brao para lhe esfregar as orelhas.
   - Voc est arruinando meu curso de montaria, seu choro - disse ela, simulando uma bronca. - Graas a voc eu vou ficar presa em casa. No vou poder passear
por este lugar lindo.
   - Voc realmente acha lindo aqui?
   Ela olhou para Grant, que trazia a montaria dela pela correia. O cavalo olhava para Curinga nervoso, mas agora que ela no estava mais na sela, o garanho ignorou
o colega de menor patente.
   - Claro que sim - respondeu Doris. - Quem no acharia?
   - Alguns no acham - disse Grant, dando de ombros.
   - Pior para eles - resumiu Doris. Grant se calou, mas ela teve a impresso de ver algo diferente na expresso dele, uma mistura de alegria e cautela.
   - Bem, j que ele  o culpado, talvez deva ser castigado - afirmou Grant, apontando para o appaloosa.
   - Como assim?
   - Acho que ele precisa de um curso para relembrar das boas maneiras. - Grant olhou severo para o animal. - A escola ainda no fechou.
   - Iiiih, acho que voc est em apuros. - Doris dirigiu-se ao cavalo em tom de brincadeira.
   - Vamos ver se ele vai continuar to atrevido depois de algumas centenas de voltas no curral. Vamos l.
   Doris franziu a testa.
   - Eu?
   - Aquela sela no vai caber nele - afirmou Grant, acenando para o equipamento que ela usava no concorrente de Curinga. -  muito estreita. E a minha sela  grande
demais para voc. Vamos ter que colocar a velha sela da minha me.
   Os olhos dela arregalaram-se.
   - Eu? Eu vou cavalgar nele?
   - No vejo outra soluo. Voc ainda quer aprender a montar, no quer?
   - Quero, mas... Eu... Ele...
   - Eu sei, acho que eu estou ficando louco. Normalmente, eu nunca confiaria num garanho como montaria para um novato, mas Curinga ... diferente. E ele obviamente
, vamos dizer, atencioso com voc.
   - Mas Grant, ele  muito valioso...
   - Ele  um cavalo. E eu nunca paparico cavalos, no importa o quo valiosos sejam. Curinga treina e trabalha como qualquer outro cavalo na fazenda. Isto o mantm
em forma.
   - Mas e se ele se machucar? Grant riu.
   - Voc  pequena demais para machuc-lo.
   - Obrigada pelo elogio - rebateu irritada Doris, revelando o seu trauma com a sua estatura.
   - Voc deve se preocupar com voc.  muito mais fcil ele te machucar do que o inverso... Talvez voc esteja certa,  melhor no fazermos isso.
   - No se preocupe, nada vai acontecer. Obrigada -afirmou ela, com a voz fria como a neve.
   - timo. Vamos l, ento?
   Doris abriu a boca para concordar, enftica, mas a fechou antes que pudesse responder.
   - Voc fez isso de propsito.
   - Isso mesmo - admitiu Grant sem qualquer sinal de vergonha que Doris no se conteve e riu.
   - Tudo bem, tudo bem. Eu acho que no me importo em ser manipulada, se vou na direo que eu quero.
   Apesar da reserva de Grant, nos dias que se seguiram Doris achou em Curinga um perfeito cavalheiro, muito mais fcil de montar do que o cavalo menor com o qual
iniciara as aulas. At mesmo o trote do appaloosa chacoalhava menos. E quando ela se sentia insegura, como se fosse perder o equilbrio, o animal parecia perceber
a dificuldade e reduzia o ritmo.
   - Voc o conquistou direitinho - comentou Grant, no quarto dia de lio sobre o garanho. Ela notava que o dono no tirava os olhos do cavalo, o que significava,
por tabela, que tampouco tirava os olhos dela.
   Freqentemente, o professor interrompia o trote e vinha lhe apontar um erro, mostrar-lhe como fazer. Isso requeria toc-la, posicionar-lhe as pernas e braos
corretamente, obrig-la a abaixar os calcanhares at o ponto em que a panturrilha doeria por dias.
   Mas no havia dor ou dificuldade - e ela certamente sofreu por usar msculos que nem sabia que existiam, que pudesse anular os arrepios que a tomavam quando ele
se aproximava, o calor que ela sentia quando Grant lhe tocava. O fato de mais de uma vez t-lo flagrado a observar as mos dele nas suas no contribuiu em nada para
minar o seu desconforto, muito pelo contrrio.
   Dizia a si mesma que isso se dava por ser ela a nica mulher ali e por ser Grant um homem de sangue ardente. Chegava a desejar no ter trabalhado cercada de homens
e, assim, no conhec-los tanto. Ele obviamente era um homem de sangue quente, e aquele sangue muitas vezes se concentrava num lugar que ele devia sentir dificuldades
para esconder. Repetiu para si mesma que seria uma idiota se conclusse que a aparente excitao dele tinha alguma coisa a ver com ela, alguma coisa a ver com qualquer
coisa que no fosse o fato de ela ser a nica mulher ali. Grant no dissera nem fizera nada para que ela pensasse diferente.
   Pouco adiantava aquele esforo mental, pois o corpo a traa com facilidade. A sua reao a ele era bem menos visvel - neste aspecto h afinal algumas vantagens
em ser mulher, o que no pensara antes -, mas nem por isso menos poderosa. O seu pulso se acelerava no momento que ela o via, e quando Grant a tocava, mesmo que
fosse um simples toque no calcanhar, ela sempre se esquecia de respirar.
   E com o passar do tempo e das aulas, mais difcil ficava ignorar a reao dela. Grant tampouco se mostrava particularmente feliz. Principalmente naqueles momentos
estranhos, quando ela notava que ele a tocava por mais tempo do que o necessrio, que a observava sem falar por um perodo tambm longo, e, enfim, se retirava de
modo abrupto, evitando olh-la.
   Ela torcia para que os dois pudessem superar essa sensao inesperada que parecia acontecer entre eles, mas ela sequer sabia como comear. No sabia se queria,
no sabia se suportaria.
   Talvez, pensou comum suspiro, no fosse somente aulas de montaria que ela precisava dele.


   Captulo 7

   De todas as idias estpidas que j tivera, ensinar montaria a D estava entre as principais, juntamente com planejar casar-se com Constance Carter.
   Pensava que havia aprendido a lio que Constance Carter, a sofisticada, lhe ensinara, mas aparentemente um reforo se fazia necessrio.
   - Boa noite, Grant.
   A voz suave e vibrante, ligeiramente rouca, de D enlouquecia a sua pulsao e o obrigava a controlar o frio na barriga.
   - Boa noite - murmurou Grant.
   Ele no a olhou. No precisava, pois lhe lanara olhares furtivos durante toda a noite at agora. Sabia que ela estava encolhida no sof, vestida com uma suter
que parecia l, sobre uma camisa de gola rul verde-escura, e jeans. A cor da roupa tornava os olhos verdes dela ainda mais brilhantes, e o seu cabelo, mais dourado.
Ele estava... maravilhosa.
   Ambos permaneceram, desde o jantar, lendo na sala. Ela, um livro sobre criao de cavalos. Ele, um thriller incapaz de prender-lhe a ateno.
   De vez em quando, D perguntava-lhe algo, se desculpando a cada vez, at ele pedir para ela indagar apenas e Parar de desculpar-se.
   Depois que ele explicara-lhe sua teoria, sem nenhum fundamento cientfico, sobre o motivo dos appaloosas terem a cauda mais curta do que outros cavalos - uma
adaptao ao terreno de arbustos e vegetao rasteira onde eles se estabeleceram, sob o cuidado dos indgenas, e onde uma cauda longa seria um incmodo -, D calara-se.
Mesmo assim, ele no conseguia concentrar-se no livro. Percebeu que D ainda hesitava na porta da sala e pensou ter escutado um suspiro antes de D finalmente deixar
o aposento. Em instantes, ouviu os passos dela escada acima, e a porta do quarto de hspedes se fechou.
   Liberou o ar que prendia, mas no sabia por que se sentia aliviado. Uma porta fechada entre eles, duas se contar a dele, no impedia nem um pouco que ele pensasse
na mulher que dormia no quarto ao lado.
   Achara at graa, na primeira noite de D na casa, quando ele sonhara com ela deitada na cama de casal e coberta com o edredom azul. Ironizara o prprio sonho.
Sua abstinncia deveria estar atingindo o limite, j que agora fantasiava situaes com a garota chata de sua adolescncia. Quando o sonho passou a se repetir, cada
vez com mais detalhes e mais ertico, ele no mostrou mais o mesmo bom humor. Pelo contrrio, a experincia o irritava durante a noite. No sabia se tinha raiva
de si ou da mulher que causava aquilo.
   E, como se no fosse o bastante, inventou essa idia imbecil de aulas de montaria.
   Ele fechou o livro com fria. Sentado na poltrona reclinvel, recostou a cabea numa almofada e comprimiu ainda mais os lbios.
   Como voc no pensou nisso?, repreendeu-se. Aulas de montaria? Pelo amor de Deus. Elas exigem proximidade. Conversa. Toque. Por perodos longos. Ele balanou
a cabea, decepcionado. Voc entrou nessa por que quis, McClure, mas parece que o seu crebro no estava funcionando direito.
   Uma soluo de repente lhe veio  mente. Depois t-la ensinado os fundamentos nestes ltimos dias, passaria a responsabilidade das aulas para Risada. Era a coisa
lgica a fazer. O garoto, apesar de trabalhar duramente, era o menos experiente dos ajudantes e, sendo assim, o mais dispensvel. Agarraria sem pestanejar a chance
de passar umas duas ou trs horas com o atual objeto de sua paixo. E ele voltaria a administrar sem contratempos a fazenda, livre da companhia perturbadora de Doris
Ceclia Brady.
   Como no pensara nisso antes? Era perfeito. Satisfeitssimo consigo mesmo, Grant voltou  leitura. No absorvera nada do ltimo captulo e retornou ao ponto em
que estava quando D lhe perguntara a respeito das caudas dos appaloosas.
   Caudas dos appaloosas.
   Curinga.
   Mas ele no poderia nomear Risada como professor de D. No quando ela tinha aulas com o garanho, o bem mais valioso da fazenda. No tinha como passar aquela
responsabilidade para o garoto.
   Curinga,  verdade, se comportava como se o objetivo da sua vida fosse manter D sobre a sela. O esforo do garanho, mais o excelente preparo fsico e o incrvel
equilbrio de D, possibilitou que ela progredisse muito mais rpido do que ele calculara.  medida que a aprendiz avanava, a afinidade entre a cavaleira e o appaloosa
se aprofundava. Os dois desenvolveram algo raro e prazeroso de assistir: a comunicao perfeita entre montador e montaria.
   Mesmo assim, no havia como confiar ao inexperiente Risada a guarda de Curinga. O garoto poderia complicar as coisas devido ao nervosismo. Mais de uma vez o ajudante
comentara com Walt que nunca desejaria cuidar de um cavalo to caro como Curinga, porque ele teria um medo constante de que algo ocorresse com o animal. O coitado
entraria em pnico se precisasse cuidar de Curinga e D ao mesmo tempo.
   Grant fechou o livro, de novo com raiva. A leitura no servia de nada. Ele estava encurralado como o lince arredio que encontrara num dos galpes na primavera
passada.
   Demorou at que ele se animasse a subir as escadas, um trajeto que no parecia to longo caso no fosse necessrio passar em frente da porta do quarto onde dormia
aquela mulher.

   Doris sentou-se na poltrona grande e azul e, coberta com o edredom azul, se ps a contemplar a noite quieta. Pensou ter ouvido o canto de uma cotovia, vindo do
lado do galpo das guas, mas convenceu-se de que deveria estar imaginando coisas. Os pssaros h muito j rumaram para o sul por causa do inverno.
   Ela suspirou longamente e quase riu de si mesma.
   - Melanclica, nesta manh? - perguntou a si mesma. Assim Nick a provocava para que ela dissesse o que a chateava.
   Prendeu a respirao. Sem mover-se, esperou. A dor, as lgrimas no vieram. Ela ainda sentia a pontada quando pensava no amigo morto, sentia as lgrimas chegaram
quando imaginava a amiga viva e os filhos sem ele, continuava determinada a fazer o impossvel para condenar os assassinos, mas a dor no a nocauteava mais.
   Por um momento, sentiu-se culpada, como se sofrer menos fosse trair a memria de Nick. Tinha conscincia no entanto que isso era natural e que Nick no gostaria
de v-la num luto eterno.
   O amigo seria o primeiro a aconselh-la a tocar a vida, no deixar que sua morte a paralisasse.
   Voc acha que Nick apreciaria isso?
   As palavras de Grant ainda ressoavam na sua cabea, e ele tinha razo. Nick de maneira nenhuma aceitaria que ela morresse junto com ele. No somente porque o
parceiro gostava tanto dela quanto ela dele, mas porque havia um outro elemento na relao entre os dois, um componente nico do trabalho de ambos.
   Foi ele quem lhe dissera, lembrava-se ela agora, no primeiro dia em que patrulharam juntos.
   "Se alguma coisa acontecer comigo, no deixe se abater e capture-os. Tire-os de circulao."
   Ela concordara com a cabea e conseguiu pronunciar duas palavras: "voc, tambm".
   Nos cinco anos desde ento, ela nunca esperara que isso fosse acontecer. Mas aconteceu. E ela estava aqui, em vez de caar os assassinos de Nick. No servia de
consolo o fato de ter recebido uma ordem para se afastar por um tempo.
   Suspirou de novo, enquanto seguia contemplando a paisagem. Quase no havia mais neve, mas Grant avisara que mais estava a caminho, talvez nesta noite. Ela no
duvidara quando ele dissera que podia sentir pelo cheiro. Passou a vida inteira aqui e saberia, sem dvida.
   Doris tinha pensado que nada aliviaria a sua dor, nada poderia distra-la da perda do amigo querido. Este lugar, no entanto, conseguiu. Este lugar, e Grant McClure.
   Ela no podia mais atribuir isso a resqucios da paixo de juventude. O garoto que conhecera e adorara doze anos atrs era inteligente, educado e bonito. Grant
mantinha-se assim e desenvolvera tambm a fora, a determinao e a serenidade de um verdadeiro homem.
   O menino que ela idolatrava j exibia as cicatrizes da famlia dividida, mas, como Grant falava, ele se sabia mais feliz do que muitos. Os pais eram pessoas razoveis,
honestas e nunca deixaram dvidas sobre o amor que sentiam pelo filho, mesmo quando no mais se amavam.
   O homem Grant, ela achava, provavelmente travara outras guerras.
   Ele tem suas razes, Rita Jenkins comentara. Doris quis saber que razes seriam essas e o que aquela mulher atraente parecia conhecer. Quem sabe Grant de modo
figurado - ou at literalmente - no chorara no seu ombro?
   Ela sorriu com a idia, percebendo no haver nem mais rastros do cime que, antes e de forma inesperada, sentira. Era impossvel ter cime daquela mulher franca
e direta.
   Alm disso, a sua mente encheu-se de novo com as lembranas da noite em que ela mesma aceitara o ombro de Grant para se recuperar do pesadelo reincidente. Custava-lhe
horas se livrar das imagens sangrentas de Nick  morte em seus braos e dos exageros prprios de um sonho: ela se afogando naquele sangue todo, e Nick a acusando
de um jeito que nunca fora o dele. Grant, porm, a confortou como ningum jamais conseguira, vencera os horrores da mente dela.
   Ele teria feito isso a qualquer um que sofresse o que ela sofria. Ou a qualquer amigo ou amiga de Kristina, Doris concluiu. Era a medida da sua considerao pela
irm. No havia nada pessoal.
   Se era mesmo assim, ento por que ele reagia como se tocasse em fogo cada vez que os dois tinham algum contato fsico? Por que Grant a olhara de lado inmeras
vezes quando ambos liam horas atrs? Ela se ps a perguntar-se sobre cada dvida que o comportamento dele suscitava, na tentativa de libertar a mente das especulaes.
   Ainda se encontrava acordada na cama quando ele, enfim, subiu as escadas. Escutou os passos cuidadosos dele pelos degraus, pelo corredor, e se convenceu de que
uma suposta pausa em frente  porta do quarto de hspedes era fruto de sua imaginao. Quando ouviu finalmente a porta do quarto principal se fechar, ela no se
sabia se sentia aliviada ou desapontada.
   A raiva passou quando se deu conta do que acontecia do lado de fora j h alguns minutos. Grant acertara na mosca. Nevava. Silenciosamente, sem variar o ritmo,
os flocos de neve cobriam a paisagem, sem nenhum sinal da ventania da tormenta anterior.
   Ela assistiu ao espetculo por um longo perodo. Sua paz interior parecia ampliar-se  medida que a neve dominava o cenrio. Estranho, pensou, que algo pudesse
ser to agradvel, to sereno, quando voc est abrigada, e ao mesmo tempo to perigoso quando no h um teto para se cobrir. L fora, o risco de hipotermia. Aqui
dentro, um carto de Natal. Um carto de Natal.
   Nem se lembrava que faltava to pouco para o feriado. E fizera nada, no comprara nem ao menos presentes para os pais, embora eles alegassem no ser necessrio
sob essas circunstncias. Sabia que os dois entenderiam, mas assim mesmo sentia-se culpada.
   Sempre passava os feriados com a famlia, e estar longe neste Natal, pelos motivos que a levaram a isso, fazia com que se sentisse isolada. Mas era assim que
tinha que ser. Alcanou o seu objetivo vindo para a fazenda, para este lugar onde ningum pensaria em encontr-la, em busc-la. Ela no poderia arriscar a meta conquistada,
cedendo  vontade de rever a famlia. Estivera com todos no Dia de Ao de Graas, arranjaria uma desculpa para no repetir a visita agora.
   Somava-se ao desconforto o fato de ela se sentir uma intrusa na fazenda, na vida de Grant, neste perodo do ano que supostamente deve ser partilhado com aqueles
mais prximos. Provavelmente ainda estaria ali no Natal e no parara at agora para ponderar sobre tal situao.
   No havia nada que ela pudesse fazer. No iria para sua casa, nem para a dos pais, a nica alternativa era ficar onde estava. Lamentar por isso somente atrapalharia
a festa daqueles em volta ou, pior, despertaria neles piedade.
   Resolvida a pelo menos no arruinar o Natal dos outros, ela se agarrou ao edredom e se espalhou na cama. Trincou os dentes ao verificar como os lenis esfriaram
e se encolheu para que o ambiente esquentasse debaixo das cobertas. Dormiu antes, porm, graas  paz que mais uma vez a neve lhe proporcionava.

   - E essa daqui?
   D examinou a rvore pequena, mas de formato perfeito, e tornou a olhar para ele.
   - Legal.
   Estava claro que ela achava a arvorezinha pequena demais.
   - Muito pequena - admitiu Grant. - Mas eu no tenho muitos enfeites para colocar. Acho que tem umas lmpadas no depsito e uma caixa de ornamentos esquecida pela
minha me.
   D levantou as sobrancelhas.
   - Voc acha?
   - J tem um tempo que eu no dou uma olhada.
   - Walt me disse que normalmente voc no monta rvore.
   Ele pareceu... surpreso.
   - Eu... Eu no montei mesmo no ano passado - disse Grant, tentando despistar.
   - Ento por que neste ano?
   - Porque me deu vontade. Algum problema?
   Ele no tinha dvidas de que soara ranzinza, mas no queria tentar explicar por que decidira ter uma rvore neste Natal, quando tampouco sabia ao certo. Desmontou
e puxou as rdeas do cavalo grande e acinzentado para amarr-lo numa rvore. O animal fora a sua montaria principal antes da chegada de Curinga. Esquecera-se da
cavalgada suave do bicho. No to suave, nem to veloz como Curinga, mas era um bom cavalo.
   - Tambm te deu vontade de pedir um tender a Rita?
   - Voc se importa em apenas cuidar de Curinga, enquanto eu corto a droga da rvore?
   Ele pegou o machado que trouxe na bolsa amarrada  sela. Somente deixou D sair do curral com o cavalo apenas nos trs ltimos dias. Apesar das boas maneiras
de Curinga, cavalgar em campo aberto era arriscado.
   - No se preocupe com Curinga. Nosso caso vai muito bem. E os biscoitos?
   Grant olhou-a sobre os ombros.
   - O qu?
   - Os biscoitos de Natal. Rita disse que voc os encomendou especialmente para este ano.
   - Parece que Rita - afirmou ele, contrariado - tem falado demais.
   Todo mundo estava falando demais a respeito dele, pensou Grant, ainda mais contrariado. Sem mais comentrios, ele caminhou at a rvore. Comeou a golpe-la com
mais empenho do que o tronco fino exigia, mas isso evitaria novas perguntas para as quais no tinha respostas.
   No sabia direito por que se contagiara com o esprito de Natal. No gostava da maneira como todo mundo tinha as interpretaes mais complicadas para uma coisa
to simples.
   Rita, Walt, at mesmo Risada, todos zombavam dele. E agora, D. Apesar de ela o questionar com mais seriedade e menos sarcasmo.
   Ele atou a rvore ao cavalo acinzentado. O animal a arrastaria com facilidade, e a neve evitaria maiores danos, Grant concluiu.
   - Grant - interrompeu Doris. - Voc se...
   - Olha - cortou ele, antes que ela pudesse recomear. - Natal aqui  um dia como outro qualquer. H o mesmo trabalho a ser feito. Ento no saia interpretando
coisas por causa de uma rvore boba e alguns biscoitos.
   D simplesmente o observou por um longo e silencioso momento e depois, humildemente - humilde at demais para os padres dela - , disse:
   - Eu s queria perguntar se voc se importaria se a gente voltasse por aquele caminho do lago que voc me mostrou ontem.
   - Oh. - Ele suspeitou que soava to desconcertado quanto se sentia.
   - No  muito longe daqui, no ?
   - No,  logo depois daquela colina. - Ele tinha que dar o brao a torcer. Para algum da cidade, D se orientava muito bem no novo hbitat.
   - E ento... vamos?
   - ... Vamos. Tudo bem.
   - No vai machucar a rvore, vai?
   Ele franziu a testa. Ela estaria o ironizando? No poderia dizer. A mulher, descobria Grant, no era somente muito mais complexa do que a criana, era tambm
muito mais hbil em esconder os pensamentos. Na adolescncia, ele no tinha problemas para verificar o que ela sentia, mas agora nunca estava seguro sobre as intenes
dela. Exceto quando D baixava a guarda por completo, como naquela noite no galpo.
   E o tipo de horror que a levou quela situao revelava muito sobre a mulher forte que a criana se tornara.
   - Eu gostaria de passar por ali de novo. Era lindo.
   E, para piorar, D no aparentava muitas dificuldades para decifr-lo, Grant pensou.
   - Sendo de Minnesota, eu creio que voc viu centenas de lagos muito mais bonitos do que aqueles.
   - Eu no sei explicar - disse Doris. - Foi... especial.
   - Vamos, ento. - Grant agarrou as rdeas e voltou  sua sela.
   A camada de neve era mais espessa colina acima, e a cavalgada um pouco mais rdua, mas em poucos minutos eles alcanaram o topo. O pequeno lago, que parecia mais
uma lagoa, descansava no campo plano em frente. Em volta da gua, no vero, havia arbustos e pequenas rvores esparsas, um cenrio no muito interessante. No inverno,
todavia, virava modelo de carto-postal. A vegetao montona ganhava majestade e aparncia de cristal. A lagoa, rodeada pelo branco da neve, por pouco no se congelara
por completo.
   D sentou no cavalo com as duas pernas para o mesmo lado e saltou para o cho. gil, ela adotou essa ttica para desmontar. O mtodo evitava o uso dos estribos,
muito altos devido ao seu tamanho. Ele brincava de que aquilo era trapaa, mas estava, admitiu consigo, orgulhoso do progresso da aluna.
   Ele desmontou e calculou, ao pisar no solo, que a camada de neve tinha 15 centmetros de espessura. Nada mal, mas cedo ou tarde aumentaria. Agora, pressentiu
Grant,a capa branca chegava para ficar.
   Posicionou-se um pouco atrs e observou a paisagem. D no disse nada, continuou ali a assistir  cena pitoresca - Ela permaneceu ali por um bom tempo, sem falar,
sem mover-se e parecia no respirar tambm. Grant desconfiou que ela no estivesse muito bem. Finalmente, deu um passo  frente, de onde pde ver o rosto da hspede.
   Ela chorava.
   No era um pranto ruidoso, agitado. As faces estavam midas, as lgrimas escorriam por elas, mas D no emitia qualquer som. Sem suspiros ou soluos. Isso, todavia,
pouco contribuiu para amenizar o mal-estar dele. A nica mulher em prantos com quem tinha experincia era Kristina, que, na infncia, punha-se a chorar por qualquer
coisa.
   D, contudo, Grant ponderou, no tinha e nunca teve nada a ver com a meia-irm. Precisaria mais do que um simples aborrecimento, uma criancice, para que chorasse.
   - D? - interveio Grant, enfim, sem conseguir pensar em nada mais para dizer.
   Ela virou-se, e para a surpresa dele no havia dor ou angstia nos seus olhos, mas um brilho especial que quase lhe tirou o flego.
   - E to lindo - sussurrou ela.
   - Voc est chorando porque...  bonito? Rapidamente, D esfregou a mo no rosto, como se somente agora se desse conta das prprias lgrimas.
   - Me desculpe. s vezes, quando algo... me transmite essa intensidade, as lgrimas simplesmente se derramam.
   - Voc no precisa se desculpar - afirmou Grant.
   - Eu... Eu aprendi a controlar isso na maioria das vezes. Eu tive, por causa do trabalho, mas... agora fui pega de surpresa.
   Sem raciocinar sobre o que estava fazendo - caso contrrio, no teria feito - Grant ps o brao sobre o ombro dela. Ele sentiu a tenso de D, que logo relaxou
e se apoiou nele. Ela parecia... bem, ali. Ajustada. Era pequena, mas no frgil ou delicada para aquela regio rida. Combinava com o ambiente, como se pertencesse
ao lugar.
   No sabia direito como chamar essa sensao esquisita que ganhava espao dentro dele, enquanto os dois continuavam ali, num silncio companheiro, quase ntimo.
No era desejo somente. Tinha que admitir que no era simplesmente a longa abstinncia que o deixava tenso. Tantas outras coisas estavam presentes: respeito pela
coragem dela, admirao pela inteligncia e perspiccia e apreo pela vontade e desejo de aprender coisas novas.
   Era uma mistura confusa e perturbadora de sentimentos, e ele no estava seguro sobre o que aquilo significava. Sinceramente, Grant pensou, desde a chegada de
D, nunca tivera to pouca certeza sobre as coisas.
   Tirando,  bvio, a certeza de que a criana que transformava em caos apenas os seus veres virara uma mulher capaz de fazer o mesmo com a vida dele o tempo todo.


   Captulo 8

   - Voc o qu? - Grant encarava Walt, muito desconfiado do brilho nos olhos do ajudante.
   - Voc me ouviu - respondeu o antigo funcionrio.
   - Mas voc nunca vai para o povoado no Natal.
   - Eu j disse. Eles vo fazer uma grande festa no prdio da associao dos criadores de gado, com dana e tudo mais. Eu vi os cartazes quando fui l na semana
passada. Vai durar a noite toda.
   - Ele fazem isso todos os anos - lembrou Grant. - E voc nunca foi l.
   - Talvez nunca ningum tenha me perguntado se eu queria ir - afirmou Walt, indiferente.
   - Mas...
   - Voc est dizendo que eu no posso folgar na noite de Natal? S porque eu no tenho famlia nas redondezas como o resto dos homens, eu no posso fazer planos
para o Natal? Isso  bastante egosta da sua parte.
   - Claro que voc pode - disse Grant. - Mas...
   - Eu vou deixar o meu trabalho pronto antes de sair. Vou cuidar dos animais e prepar-los para dormir. At mesmo voc poder dar conta do trabalho que sobrar.
   - No  disso...
   - E alm disso, voc ter D aqui para lhe ajudar. Eu no diria isso, se, para uma garota de cidade grande, ela no tivesse se mostrado to eficiente em vrias
coisas. -Walt sorriu, de repente. - Em muitas coisas.
   - Est bem - resmungou Grant.
   - Um diamante  um diamante, garoto, no importa onde voc o encontrou e se ele vem em um embrulho chamativo ou no. E por mais chamativos que possam ser os artifcios,
eles no transformam vidro em diamante.
   Grant riu.
   - Deixe de filosofar e diga o que voc quer dizer.
   - Eu quero dizer que voc  teimoso como uma mula e cego como um morcego quando se trata de mulheres da cidade grande - afirmou Walt, severo. - E se voc quer
saber a minha opinio, eu acho que voc est com medo de ficar aqui sozinho com a menina.
   - No seja ridculo - rebateu Grant, torcendo para que soasse convincente.
   - Ridculo? Eu posso ser velho, filho, mas eu no sou cego. Todo mundo pode ver...
   - O que eles quiserem ver.
   Ele cortou a conversa com o ajudante, sem querer ouvir o que o antigo funcionrio pensava que todos podiam ver. J sabia, afinal de contas. Flagrara suficientes
espiadas s escondidas e risinhos contidos dos seus homens para deduzir o que eles cogitavam. Mais de uma vez, os homens repararam na maneira como o patro assistia
 moa cavalgar, cuidar de Curinga ou desempenhar uma das tarefas que se acumulara, o que facilitava a vida de todos ali.
   D adaptara-se  vida na fazenda muito melhor do que ele podia prever. Melhor do que qualquer garota l da cidade grande.
   Certamente com mais desenvoltura do que Kristina, que visitava a fazenda s durante as estaes mais acolhedoras. A irm nunca se adaptaria, afinal era uma...
   Teimoso como uma mula e cego como um morcego quando se trata de mulheres da cidade grande.
   As palavras de Walt ainda ecoavam na sua cabea, mas ele disse a si mesmo que o homem que o conhecia a mais tempo do que qualquer um, com a exceo da sua me,
estava equivocado. Ele no era cego ou teimoso, ele era apenas... desconfiado. E tinha boas razes para isso.
   Irritado, deixou o depsito onde guardava selas e outros materiais para montaria, e foi em direo  casa. Entrou pela porta lateral, que daria na cozinha, mas
antes tirou o casaco, as meias e as botas, molhadas e cheias de gelo, na rea de servio.
   Sentou-se num pequeno banco ali, cansado demais para entrar de vez na casa e abrigar-se ao calor do aquecedor. O frio, porm, logo superou a sua exausto. Ou
se movia ou, em um minuto, estaria trmulo.
   Levantou-se, apesar dos protestos dos ps congelados. Alm do frio e do cansao, algo mais passou a lhe chamar a ateno. Da cozinha, vinha um aroma de alguma
coisa que assava. D no estava de brincadeira; poderia no cozinhar, mas assar era com ela mesma. Todos na fazenda ficavam mal-acostumados com os pes, biscoitos
e bolos da hspede. Ele perguntou-se se ela tambm trabalharia arduamente assim quando no buscava manter a mente ocupada. Pressentia que sim.
   Ele abriu a porta entre a rea e a cozinha. Biscoitos. Reconheceu o cheiro um instante antes de ver as guloseimas decoradas esfriando na bancada. Biscoitos de
Natal.
   D, com resqucios de farinha na roupa e em uma das faces, lhe deu um sorriso, que o esquentou tanto quanto a diferena de temperatura entre a rea e a cozinha.
Ela mostrou a bandeja cheia de biscoitos, pronta para ir ao forno, que apoiava em uma das mos.
   - Rita me disse que voc pediu biscoitos neste ano. D empurrou a bandeja para dentro do fogo, fechou a porta do forno e tirou a luva do que a protegia do calor
do forno. Ele ouviu um rudo e virou-se para encontrar num canto da cozinha Aposta, que aguardava pacientemente. Ficou bvio o que o animal esperava quando D jogou
para o cachorro um pedao de biscoito. O co, preciso, mordeu o agrado no ar, o engoliu, e voltou a sentar-se  espera do prximo.
   - At o cachorro - murmurou Grant.
   - O qu?
   - Nada.
   Por que a surpresa? Depois de Curinga, um cavalo daquele tamanho, Aposta era o de menos. A frieza e a tradicional indiferena do pastor australiano no foi preo
para o calor e a sinceridade de D.
   - Voc parece estar com frio - disse ela.
   - Estou mesmo - admitiu ele.
   - Risada me disse que voc provavelmente chegaria com frio e molhado.
   Grant franziu a testa.
   - Supostamente ele deveria estar consertando a cerca.
   - Ele est. Ele veio somente me falar que a me no vai poder vir hoje porque a irm est doente. Assim, eu disse que poderia adiantar os biscoitos sem ela. -
Doris sorriu. - Risada Parecia ansioso por causa dos biscoitos.
   - Posso ver porqu - disse Grant. Ele nunca havia visto tantos biscoitos de uma vez. Mesmo assim, se sobrasse algum para a noite de natal, amanh, seria um milagre.
   De qualquer jeito, Grant pensou, os biscoitos no seriam muito necessrios, j que s ele e D sobrariam na fazenda. Todo o resto se espalharia em diferentes
e privadas celebraes.
   Eu acho que voc est com medo de ficar sozinho aqui com a menina.
   Seus msculos se contraram de um modo esquisito. Grant tentou se convencer de que era somente repulsa ao comentrio de Walt.
   - Voc est com frio - disse Doris. - Aqui, mastigue esse e espere um segundo.
   Antes que ele pudesse falar, ela lhe passou trs biscoitos cheirosos e desapareceu dentro da dispensa, do outro lado da cozinha. L esto o freezer grande, toalhas,
um aquecedor e uma porta que d para fora da casa.
   Ele mordeu cuidadosamente um dos deliciosos biscoitos de manteiga. Em seguida, engoliu todo o resto. Pensava em comer outro dos biscoitos em forma de boneco,
quando D voltou com algo nas mos.
   - Aqui - disse ela, trazendo um par das meias grossas de l dele.
   - O que... - Ele parou de falar no momento que tocou as meias. Elas estavam quentes. Deveria ter sido postas sobre a tubulao do aquecedor, concluiu Grant.
   - Vista-as antes que elas percam todo o calor.
   Ele obedeceu, suspirando em alto e bom som ao sentir o calor nos ps. Quando voltou-se para D, ela sorria, feliz.
   - Minha me sempre fazia isso quando eu voltava para casa depois de brincar na neve. Era timo.
   - Ainda  - afirmou Grant, enftico.
   - Claro que ela agora s me obriga a tirar dos ps a areia do deserto antes de entrar em casa.
   - Uma mudana e tanto em relao  neve de Minneapolis.
   - , mas eles gostam do Arizona.  muito bonito l. Quando o mato est bem verde, e as montanhas ficam avermelhadas,  incrvel. Meu pai gosta de contar vantagem
pela vista que tem do jardim.
   Ele sorriu, mas sentiu um tom de tristeza na voz dela. Ou solido.
   - Voc deve... estar sentindo falta dos seus pais agora.
   D apoiou-se na bancada larga, ampliada pela reforma que o pai fizera na cozinha, um presente de casamento para a me. Tempos depois, ele no conseguiria nem
sentar-se no ambiente espaoso e eficiente. Tampouco era o lugar favorito de Grant, mas com o aroma dos biscoitos e com D a um metro de distncia dele, aquele parecia
o aposento mais aconchegante da casa.
   Ela arremessou mais um pedao para Aposta. O cachorro o agarrou e olhou para a benfeitora de forma interrogativa.
   - Acabou, querido - anunciou Doris. - Voc vai acabar passando mal.
   O normalmente reservado animal balanou o que lhe sobrou da cauda, parecendo entender. O cachorro encolheu-se ento sobre o tapete que havia em frente  pia e
fechou os olhos.
   Finalmente, quando Grant j pensava que ela no mais o faria, D respondeu ao comentrio sobre os pais.
   - Eu sinto falta deles, sim. Mas eu estava l no Dia de Ao de Graas, e eu sei que eu no poderia... mais suportar todos os cuidados e preocupaes deles, por
mais bem-intencionados que fossem.
   - Kristina me disse que voc precisava de um lugar onde as pessoas no... falassem sobre o que aconteceu durante todo o tempo.
   - E voc me propiciou este lugar. - Doris o olhou agradecida. - Muito obrigada, Grant.
   - Eu... De nada. Mas eu que deveria te agradecer por tudo o que voc tem feito por aqui. Eu te disse que voc no precisava trabalhar...
   - E eu te disse que eu precisava trabalhar.
   - Eu entendo.
   D o encarou por um longo momento.
   - E, eu acho que voc entende. E eu te agradeo por isso tambm. E por todos os lugares tranqilos e aprazveis que voc me mostrou. Eu sei que lhe tomou bastante
tempo me levar...
   - So lugares que eu amo. No  nenhum sacrifcio. E no havia sido mesmo. Ele vira e apreciara coisas conhecidas com outros olhos, com os olhos dela. Experimentara
de novo toda a paz que esses lugares podiam propiciar, ao testemunhar a calma que essas paisagens produziam no rosto dela.
   - Eu te agradeo de qualquer forma.
   - Eu que agradeo a voc. Eu precisei desses lugares tambm um dia. Voc fez com que eu os notasse de novo, recuperasse o valor que eles tm para mim.
   - Grant - sussurrou ela, como se a garganta subitamente se comprimisse.
   - D - respondeu Grant, de um jeito igual.
   Ele no saberia descrever como aconteceu. No se lembrava de ter se movido, mas tampouco recordava de v-la se movendo. D, porm, estava nos seus braos. As
mos dele inclinaram a cabea dela para trs, e ele abaixava em busca dos lbios dela. Ouviu-a sussurrar alto, no de protesto mas de surpresa. E, em seguida, D
colaborava com o movimento dele, alongando-se para acabar com a distncia entre os dois.
   Os lbios dela eram suaves, quentes, um refgio depois do frio que enfrentara durante o dia. Ela tinha gosto de acar, de biscoitos e de alguma coisa mais quente
e doce, algo caracteristicamente de D. De alguma maneira, ele j sabia que assim seria o gosto dela.
   O que Grant no sabia era que apenas tocar seus lbios no dela dispararia um jato de calor pelo seu corpo, que daria fim a qualquer resqucio do frio que ele
trouxera para casa. O que Grant no sabia era que o ato de beij-la sensao daquele corpo pequeno pressionado contra o seu faria com que ele se ressentisse de todas
aquelas roupas entre os dois. O que Grant no sabia era como beij-la o deixaria completamente desorientado, ligado apenas ao toque e ao sabor dela, sem se importar
com qualquer outra coisa.
   O que ele finalmente no sabia era que beij-la no aliviaria a dor que se intensificava nele nos ltimos dias. Ao contrrio, aumentaria o desconforto de forma
to abrupta que Grant duvidou que conseguiria cont-lo por muito mais tempo.
   Ele tinha que parar com aquilo. Ele tinha, ele sabia que deveria. Um pouco mais, e ele morreria se no a possusse, ali mesmo e naquele momento. Ela o excitava
tanto que achava que no poderia nem mesmo chegar ao cho. Seria neste exato lugar, naquela bancada. No seria adequado com todo o seu peso contra o dela...
   Com um gemido, ele se obrigou a afastar-se. No era esse o aposento mais quente e aconchegante da casa? pois o ambiente se tornara subitamente frio, sem os lbios
dela contra os dele, sem o contorno do corpo dela contra o seu.
   Ele escutou um murmrio, um meio-suspiro, um meio... Ele no sabia exatamente o qu. Sabia, sim, pois ele mesmo se sentia ofegante.
   Meio grogue, D amparou-se na bancada. Ainda sem recobrar-se, encarou-o com olhos pasmos. Ele tinha que falar alguma coisa, fazer alguma coisa, mas estava sem
ao.
   D engoliu em seco, movimento visvel em seu pescoo.
   - Eu...
   Ela engoliu mais uma vez e tentou de novo. Desta vez, mais recuperada, as palavras lhe saram quase com normalidade, apenas com um leve tom de atordoamento.
   - Quando voc agradece, voc agradece pra valer.
   Grant piscou, espantado. Ele supunha que recobrar-se rapidamente de uma situao inesperada era parte do trabalho dela, mas no gostou muito da demonstrao de
agora.
   - Isso - urrou ele - no tem nada a ver com agradecimento.
   - Grant...
   - A gente agradece por... biscoitos. - Ele virou-se para ela e acrescentou: - E meias aquecidas.
   Ele se retirou sem olhar para trs. Tinha total conscincia de que se debandava da cozinha como uma criancinha rejeitada porque, se ali permanecesse, a beijaria
outra vez e no queria responder pelo que viesse a acontecer depois de um novo beijo.
   Ela se perguntava se ele viria afinal, pois sabia, Grant dissera, que na fazenda no se dava a mnima para feriados. O mesmo ocorreria amanh, Dia de Natal.
   Ela tambm sabia, entretanto, que Walt executara a maior parte das tarefas antes de pegar a caminhonete nesta manh, rumo ao povoado. Risada pegou carona com
o colega, foi para casa, onde a febre da irm no atrapalharia a festa de Natal. O restante dos funcionrios havia partido por volta do meio-dia, no sem antes parar
para pegar o lanche da viagem, uma poro de biscoitos de Natal.
   Grant, mesmo sozinho, continuava enfurnado no depsito onde eram guardados selas, rdeas e demais equipamentos dos cavalos. Mais cedo, mal-humorado, ele lhe dissera
que hoje no haveria aulas. Se no fosse por isso, nem teria falado com ela.
   No mencionara evidentemente o episdio de ontem na cozinha. Ela no podia definir se estava aliviada ou magoada com isso. Como poderia, se continuava em estado
de choque? Nunca sentira nada parecido com a sensao provocada pelo beijo de Grant. Nada do que imaginara que pudesse acontecer entre um homem e uma mulher se comparava
quilo. Nada do que vivenciara antes, por mais que tenham sido poucas as experincias, a fez desconfiar que um simples beijo poderia ter tal efeito.
   E no houve nem vestgio da adolescente apaixonada naquele beijo. Ali, ela fora puramente uma mulher adulta, respondendo a um homem adulto. A mulher que vinha
resistindo para no se entregar aos efeitos que aquele homem provocava nela. A mulher que tinha de admitir que o garoto pelo qual alimentara um amor infantil transformara-se
num homem que poderia estremec-la por inteiro com um nico beijo.
   Ela respirou fundo e segurou o ar por um instante. No sabia como proceder agora, mas sentia que alguma coisa ser feita. Qualquer coisa. Sentia que, se no fizesse
algo, perderia o pouco controle que lhe restava. Caminhava de um lado para o outro da sala de estar e checava a cada cinco minutos o aquecedor.
   Obrigou-se a sentar-se na poltrona antiga e confortvel, apenas para interromper as idas e vindas sem sentido. Respirou fundo novamente, tentando se recompor,
mas de pouco adiantou, pois o ar estava impregnado com a fragrncia suave da rvore que eles recolheram juntos e que se encontrava a um metro da poltrona.
   Ela automaticamente recordou os momentos de quietude diante do pequeno lago, quando Grant colocara o brao sobre o seus ombros, num gesto de compreenso. De imediato,
ela lembrou-se do agradecimento de Grant.
   Eu precisei desses lugares tambm um dia. Voc fez com que eu os notasse de novo, recuperasse o valor que eles tm para mim.
   Somente um homem forte e seguro admitiria a necessidade por algo etreo como a paz e a solido dos lugares quietos. Ela nunca duvidara da fora de Grant. Pressentia
de alguma maneira, desde que ele tinha 16, que o homem de hoje carregava consigo esse carter. O que a confundia agora era a outra parte da histria. Ele admitiu
tal necessidade por ser simplesmente seguro o bastante para no ligar para o que os outros pensavam? Ou por confiar nela de um jeito especial?
   Voc tem mesmo que analisar tudo, Brady? As palavras, a voz de Nick lhe vieram  cabea, e ela sentiu o retorno da conhecida dor, ao pensar no primeiro Natal
da famlia do parceiro sem o pai. Era l que deveria estar, Doris pensou. Deveria estar com eles, com Allison e as crianas, - seus afilhados. Aquilo, contudo, era
impossvel, ela sabia, e os Corelli, tambm. Eles provavelmente entendiam a situao dela melhor do que ningum. Allison foi a primeira a encoraj-la a vir para
c, a manter uma distncia por segurana, da cidade, mas isso no amenizava a culpa.
   Ela talvez analisasse demais as coisas. Mas, se isso consistia numa fraqueza, tambm constitua um dos seus trunfos. Mais de uma vez, os benefcios se provaram
maiores do que os custos. At mesmo Nick admitira isso, embora tenham sido mais freqentes os olhares esquivos e as frases de reprovao: "s vezes, Brady, um cigarro
 somente um cigarro".
   E s vezes, Doris pensou ao olhar pela janela a noite que caa, os homens eram um inconveniente e s serviam para chatear.
   Bastou ela concluir isso para que o seu inconveniente particular abrisse a porta da frente e entrasse na casa, com Aposta nos calcanhares. Todos os demais abandonaram
o trabalho, mas o patro e o cachorro no tinham folga.
   Ela o observou tirar o chapu e o casaco e pendur-los no cabide. Estava mais seco do que ontem, aparentemente. Ele ento voltou e se abaixou para apanhar algo
que ficara sob o prtico. Quando reentrou na casa, tinha os braos cheios de galhos de pinheiro.
   Grant parou quando a viu sentada ali, como se no tivesse percebido antes a presena dela. Por uns segundos, ficou ali parado, dando a impresso de que no sabia
o que dizer. Enfim, ele mostrou os galhos que trazia.
   - Acho que a gente pode usar a lareira nesta noite e jogar esses galhos no fogo. Esse negcio cheira muito bem quando queima.
   Mais um item para a lista de pequenas coisas que Grant executara para o Natal, Doris pensou. Aquilo seria tudo por causa dela? Todas essas concesses ao feriado,
uma coisa rara, de acordo com a reao dos demais residentes da fazenda?
   Grant espalhou lenha pela lareira, inseriu os galhos e gravetos de pinheiro na pilha de madeira e colocou fogo em tudo. As chamas se alastraram velozmente, e
em minutos o aroma caracterstico comeou a tomar o ambiente. Ele virou-se e permaneceu ali por um momento. Ontem, antes que ele a beijasse, ela estava para sugerir
ao anfitrio que sentasse e relaxasse. Agora, no tinha certeza sobre o que dizer.
   Finalmente Grant deu alguns passos em sua direo e acomodou-se no sof ao lado dela. Ao lado dela era eufemismo, Doris lamentou em silncio, pois ele garantira
cerca de um metro de segurana em relao a ela. Aposta se deitou no tapete em frente  lareira e prontamente dormiu, alheio ou optando por ignorar o clima entre
os humanos na sala.
   Ela esquentara a contribuio de Rita para a noite de Natal, uma bandeja cheia de asas de frango picantes e uma panela enorme de sopa. Esfomeado, Grant traava
a refeio, em silncio.
   - Voc quer algo quente para beber? - perguntou Doris, durante uma pausa dele para respirar.
   Grant ponderou por muito mais tempo do que o necessrio para sua indagao e acabou por concordar. Ela levantou-se e foi para a cozinha, onde o seu tradicional
coquetel de Natal j estava no fogo. Aps alguns minutos, tinha duas canecas prontas e voltou para a sala. Grant pegou a dele e cheirou, curioso, o contedo.
   - Sidra quente?
   - Quase isso - respondeu Doris. -  uma tradio da minha famlia.
   Mais curioso, ele mexeu o lquido dourado com um ramo de canela que enfeitava o drinque e levou a caneca  boca. Bebeu um gole. Levantou as sobrancelhas, lambeu
os lbios, como se tivesse apreciado o gosto.
   - Brandy? - conferiu Grant.
   - O qu? Ah, sim. Brandy. - Ela torceu para que ele atribusse o corar das faces dela aos efeitos da mistura ou ao fogo da lareira, e no ao motivo verdadeiro.
Ao ver Grant lamber os lbios, se lembrou da lngua dele em seus lbios. - Espero que voc no se importe.
   - No, estou somente surpreso. No sabia que tnhamos Brandy.
   - Walt comprou os ingredientes para mim quando foi ao povoado na semana passada.
   - Ah. - Ele tomou um gole maior desta vez e sorriu. -Isto realmente  muito bom.
   - Fico feliz que voc tenha gostado.
   Grant bebericou de novo, agora examinando a rvore.
   - De onde veio tudo isso? - perguntou ele, apontando para os variados enfeites pendurados na rvore, de uma espora prateada bem polida a uma pequena cruz dourada.
   - Dos funcionrios - respondeu ela. - Eles trocaram os objetos para adornar a rvore por biscoitos.
   Grant olhou confuso para ela e, depois, de novo para a rvore.
   - Ficou legal - resumiu ele.
   Ela sups que os dois poderiam estar desfrutando de uma conversa menos superficial. No entanto, alguns minutos depois, quando o silncio se instalou na sala,
se contentaria com o mais prosaico dos dilogos. E ela que chegara at a pensar que Grant tinha uma razo secreta para acender a pouco usada lareira, alguma coisa
a ver com o fato de que o fogo aberto  muito mais... prazeroso do que no aquecedor fechado.
   Grant terminou a refeio, e Doris desistiu da dela. Tudo que conseguiu comer foi uma pequena poro da sopa e uns dois pedaos de frango. Ele limpou as mos
e arremessou o guardanapo na lareira. Ambos assistiram ao papel pegar fogo, como se fossem cientistas a estudar a combusto.
   Ela no se sentia confortvel com o silncio, mas no conseguia pensar em algo para dizer que no tornasse o clima ainda mais pesado.
   - Voc quer cavalgar amanh?
   Doris espantou-se, piscou, confusa pelo jeito repentino com que ele falou - como se estivesse tentando dizer aquilo h tempos - e com o que ele falou.
   - Voc disse...
   - Eu sei. Mas Curinga j est formigando depois de um dia parado. Mais um, e o bicho vai ficar doido.
   - Ah. - Claro. Curinga. Essa era a razo para o convite. Grant no tinha vontade em cavalgar com ela e nem desejava propiciar-lhe um dia ao ar livre no Natal.
- Coitado do cavalo.
   Ela no pensava que tivesse soado muito sarcstica, mas Grant lhe dirigiu um olhar fulminante e respondeu de forma igualmente severa.
   - Se voc no quiser, eu saio com ele. Ela suspirou.
   - No foi isso o que eu quis dizer. Eu adoraria cavalgar. Seria uma tima maneira de passar a manh de Natal.
   - Tudo bem, ento.
   - Mas no - continuou Doris - se voc for agir como um urso rabugento durante todo o dia.
   - Ursos so rabugentos.  parte da natureza deles -disse Grant.
   - Ento me processe por redundncia.
   Grant contraiu a boca, mas no respondeu. Acabou com o drinque. Tirou as botas, levantou-se e jogou mais lenha no fogo, apesar de no ser necessrio. Tudo sem
dizer uma s palavra. Ela esperava que ele deixasse a sala, mas o anfitrio voltou a se sentar. Aliviada, ela soltou a respirao.
   Difcil acreditar, choramingou ela para si mesma, que voc um dia tenha ganhado uma medalha por bravura.
   O prprio sarcasmo a incitou a falar.
   -  por causa de ontem?
   Grant gelou. Lentamente, ele virou a cabea para encar-la.
   - O qu?
   - Esse seu... humor?  pelo que aconteceu na cozinha ontem?
   Ela viu os dentes dele trincarem.
   - Voc est falando do beijo?
   Doris precisou de todos os nervos para acenar que sim com a cabea.
   - No.
   Ela voltou a respirar, mais uma vez sem saber se aliviada ou desapontada. Delrios de grandeza, Brady, murmurou ela de novo consigo. O que fez voc pensar que
aquele beijo, s porque fez o seu sangue ferver, teve algum efeito nele?
   - No tem nada a ver com te beijar - afirmou Grant. Era necessrio que ele lanasse assim a verdade  queima roupa?
   - Tudo bem. Me desculpe. Eu pensei que...
   - Tem a ver - disse ele de um jeito um pouco ameaador - com o fato de que eu no queria ficar s no beijo.

   Captulo 9

   Grant se arrependeu das palavras no momento em que elas lhe escaparam. Tarde demais. No podia recolh-las de volta.
   Para o inferno com tudo isso, praguejou consigo. Estava cansado de esconder que a desejava. Nem sabia ao certo por que tentava ocultar o fato.
   Nada mais natural. Provvel. Pegue um rapaz saudvel, nos seus trinta e poucos anos, isolado numa fazenda com nada alm de gado, cavalos, um cachorro e alguns
ajudantes. Coloque uma mulher linda como D no meio de tudo isso. O que voc esperaria que ocorresse? No faltavam razes para deduzir que aquele era o desfecho
bvio. Por que ento esconder?
   O problema, Grant pensou, era que a mulher em questo estava aqui apenas para se sarar de uma ferida, para se recuperar da morte horrvel de um amigo querido.
A condio emocional dela era a mais frgil possvel, e tirar vantagem disso seria repugnante.
   E perigoso, caso Kristina descobrisse. Os Fortune, aprendera, eram uma espcie de temperamento explosivo, para no dizer homicida, pensou ele, subitamente srio,
ao se lembrar de Jake, irmo de Nate.
   D era bem diferente, no entanto. Ela era... vulnervel. Neste momento, porm, ela estava vermelha de raiva.
   - Me desculpe - disse Grant, um pouco formal. - No foi a minha inteno constrang-la.
   - Eu... Voc...
   - Esquea o que eu disse.
   Ela mordeu os lbios. Em seguida, empinou o queixo como parecia sempre fazer quando se preparava para enfrentar algo. O que ocorria na maioria da vezes, j que
D, por mais desagradvel que fosse o assunto, nunca utilizava meias palavras.
   - S se voc tiver dito o que disse da boca para fora. Grant recuou de leve.
   - O qu?
   -  verdade?
   - D...
   -  muito simples.  sim ou no.  verdade?
   - Voc tambm estava ontem na cozinha - respondeu ele, secamente. - O que voc acha?
   - Eu no sei. No tenho... muita experincia nessas coisas. Pelo menos, no recentemente.
   - Meu Deus - murmurou Grant.
   - Voc... no quis parar?
   - Droga, D...
   - Quis ou no quis?
   - Eu estava to quente quanto a droga do fogo -disparou ele. - Isso responde  sua pergunta.
   Ela ficou ainda mais corada.
   - Eu... acho que sim.
   D virou o rosto para a lareira e manteve o olhar perdido em direo s chamas. Ele tentou recordar, em primeiro lugar, o que o levou a acender o fogo. Tanto
o fogo na lareira do canto da sala, quanto o que queimava entre os dois h bem mais tempo.
   Ela no dizia nada. Continuava l a observar a lenha em chamas. No se mexia nem aos estalos dos gravetos de pinheiro, que mais pareciam tiros de revlver. Na
verdade, concluiu Grant, D diferenciaria aquele rudo de um tiro da mesma maneira que ele no confundiria o uivo de Aposta com o de um coiote.
   Ela se mantinha em silncio. Em que diabos estava pensando? Como poderia ficar apenas... ali, sentada, depois de incit-lo quela confisso?
   -  isso? - As palavras finalmente explodiram dele, apesar dos esforos para aparentar calma. - Voc faz uma pergunta dessas e depois no diz nada?
   D virou o rosto. Tinha as faces rosadas, o que bem poderia ser uma reao ao calor do fogo, a pouco mais de um metro dela.
   - Eu s precisava saber se...
   - Se o qu?
   Ela abaixou os olhos, e agora ele sabia que a vermelhido vinha de dentro.
   - Se s eu tinha... me sentido assim ontem. Grant respirou fundo.
   - Eu... Voc tambm no queria parar?
   Como se D se desse conta somente agora que evitava encar-lo, suspendeu a cabea. E, mais uma vez, em silncio, Grant a reverenciou. Ela podia ser uma garota
da cidade grande, mas no lhe faltavam neurnios. No era de se admirar a competncia profissional que tinha como policial.
   -  amedrontador admitir, mas... no, eu no queria parar.
   - D... - Ele iniciou, mas no terminou a frase, aps sentir o tom de urgncia na prpria voz. O seu corpo reagia  admisso dela com uma pulsao violenta, ele
necessitava por um momento de todo o seu poder de concentrao para dominar o calor que ameaava o seu autocontrole.
   Ela, entretanto, no lhe concedeu esse momento. Simplesmente o fitou, com os olhos abertos, ternos, de um verde brilhante. Grant cedeu. E ao aproximar-se de D,
ela no demonstrou resistncia.
   Grant quase se convenceu que aquilo era tudo fruto de sua imaginao. A fria, a doura quente de sua boca, o beijo. Ele dizia a si mesmo que eram os longos meses
de abstinncia que o conduziram a tal situao, que dinamitavam daquela maneira o seu senso de realidade. Nada real poderia provocar a sensao que resultava daquele
beijo.
   Estava completamente errado.
   Os lbios dela eram suaves, to doces quanto ele provara na noite anterior. A chama que se alastrou por ele fez o fogo da lareira parecer uma fasca.
   Grant a saboreou, longamente, profundamente, e D o acolheu. Ela lhe acariciava a nuca, os dedos finos se entrelaavam nos cabelos dele. O seu toque despertava
todos os nervos do corpo dele de uma s vez. O prazer descia como ondas pelas costas dele. Ela murmurou algo bem baixo e rouco, que o arrepiou e o endureceu ainda
mais. Doeu.
   Ele gemeu e tentou se desvencilhar, ciente de que no agentaria por muito mais tempo. D protestou, agarrando-o pelo pescoo e pressionando o corpo dele contra
o dela. Na tentativa de persuadi-lo, ela contornou os lbios dele com a ponta da lngua. Ele gemeu, um som longo, de puro prazer.
   D deu a impresso de tomar tal reao como um encorajamento, e Grant perdeu o flego quando ela passou a explorar com a lngua o contorno de seus dentes. Ele
congelou, com os lbios ainda entreabertos, preocupado em no assust-la com a intensidade de seu desejo. Respirou fundo e, como num convite, tocou na lngua dela
com a sua. Gemeu novamente, quando ela. como se estivesse  espera do toque, explorou com entusiasmo a boca dele.
   O desejo de D liberava o dele. Grant segurava a cabea dela para poder beij-la melhor e com mais vontade, at que o peso dele os desequilibrasse, e os dois
cassem deitados no sof. A sensao de t-la estirada entre ele e o encosto do assento quase o enlouqueceu. De forma selvagem, ele deslizou a mo pelas costas dela
at a cintura para pression-la ainda mais contra si.
   Neste momento, as mos de D apertavam os msculos dos ombros dele com a mesma fora que sempre o impressionara. Ela no o estava afastando. Pelo contrrio, o
estimulava a prosseguir. Quando D gentilmente lhe mordeu o lbio inferior, o quadril dele se contraiu de forma involuntria, espremendo contra a coxa dela o membro
que ele no se lembrava de ter visto to rgido.
   Ele no sabia se a sala estava rodando graas ao beijo dela ou por que se esquecia de respirar. No final, era tudo a mesma coisa. Relutantemente, forou-se a
interromper o beijo para, por um perodo relativamente longo, apenas observar aqueles olhos verdes, atnitos como jamais vira antes. E a certeza de que fora ele
o responsvel por aquele olhar fez com que se sentisse de um jeito que nunca experimentara.
   D transmitia com o olhar um tremendo encantamento, a necessidade feroz que capturara o casal. Era assim que ela deveria ficar todo o tempo, refletiu Grant, livre
da tristeza, da dor, das lembranas terrveis...
   Meu Deus, o que ele estava fazendo? D estava aqui para se curar, se recuperar, antes de voltar para relembrar todo o horror num tribunal, quando o bandido for
preso e julgado pelo assassinato do amigo querido e respeitado.
   Ele se obrigou a sentar-se no sof. O corpo estremeceu em protesto, pois no dava a mnima para o que era racional, certo ou errado. Ligava somente para o fato
de lhe terem negado o desejo de buscar refgio no calor dela, vontade mais forte do que a de continuar respirando. Ele trincou os dentes ao lutar contra si mesmo,
lutar contra essa necessidade que o consumia e que nunca imaginara sentir.
   - Grant?
   A voz de D mostrou-se hesitante, entre a suspeita e a mgoa.
   - D, escute... - Ele teve de parar para ganhar flego. - Ns no podemos... prosseguir. Eu sei que voc ainda est um pouco... fora de sintonia, depois de Nick...
   Ela sentou-se sem pressa, mas to ofegante quanto ele. D o mirou, com os lbios ainda entreabertos e levemente inchados da intensidade dos beijos. Quando finalmente
respondeu, ela adotou grande cautela.
   - Eu sei que eu estou.
   - Viu? Ento  melhor parar enquanto... podemos.
   - Mas uma coisa no tem nada a ver com a outra.
   - Mas  claro que tem. - Ele comeava a deixar vazar um certo desespero,  medida que o seu corpo s atentava para o consentimento dela, e no para as conseqncias
do que tanto desejava. - Eles dizem que quando algum prximo a voc... morre, o seu instinto ...
   - Sexo como forma de afirmao.  sobre isso que voc est falando?
   Grant fez uma careta.
   - Falando assim... parece frio, mas...  mais ou menos isso mesmo.
   Doris se ps de p, alongando ao mximo o seu 1,55 metro de altura e esbanjando uma dignidade muito maior do que o seu corpo diminuto.
   - Eu acho que voc est se subestimando, Grant. Para ser sincera, o seu esforo no deixa de ser elogivel e... nobre. Eu estava um pouco frgil quando cheguei
aqui, mas... no estou mais. Eu encontrei a paz aqui. E, por um momento, pensei que tinha encontrado outra coisa tambm.
   - Eu no sou nobre - urrou Grant, suspeitando que, de tudo o que ela disse, isso foi o que mais o atingiu. Talvez, porque ele no se sentia muito nobre neste
instante. Sentia-se frustrado e culpava exclusivamente a sua estupidez por deixar que os seus escrpulos interferissem naquela histria.
   - Eu entendo, Grant. Verdade, isso  comum, eu acho. Mas voc realmente pensa que eu s desejo isso porque Nick morreu? Para provar para mim mesma que eu ainda
estou viva? Se voc pensou assim, voc subestimou tambm a mim. Isso aqui no tem relao com reafirmao, culpa de sobrevivente ou qualquer outro jargo que eles
lanam por a.
   - D...
   - Eu no sou a criana que um dia eu fui, que pensava que o sol nascia de voc. No tem nada a ver com isso tambm. Tem a ver somente com o fato de que voc faz
com que eu me sinta de um modo que homem nenhum conseguiu. E, como voc admitiu, a recproca  verdadeira. No  nada alm disso.
   D saiu dali com a cabea levantada e a coluna esticada como uma bengala. Ele, por sua vez, suspeitava de que havia causado mais dano do que benefcio com todo
o auto sacrifcio desta noite de Natal. Havia momentos, lamentou quase com dor, que desejava que a sua me no o tivesse criado com tanta... retido. Vezes em que
desejava ser capaz de fazer como a maioria, que aceitava os presentes da vida, sem questionar se aquilo era certo ou errado, sem considerar os sentimentos dos outros
envolvidos.
   Porm, Barbara Jackson McClure Fortune era uma influncia poderosa, mesmo no estando presente todo o tempo desde que ele tinha quatro anos. Quem sabe no vinha
exatamente deste fato a influncia da me? Quando criana, por passar to pouco tempo junto dela, ansiava por lhe mostrar que poderia ser o filho que ela queria.
Quando enfim percebeu que todos os seus esforos no seriam suficientes para traz-la de volta, o hbito j fizera o monge.
   Ele recostou a cabea no sof e suspirou contrariado, enquanto ainda tentava controlar o corpo ainda excitado.
   Ouviu um rudo breve, que mais parecia um eco da sua prpria contrariedade, e levantou a cabea para ver Aposta, de p, o encarando com evidente pena. Uma vez
que se certificou que atrara a ateno do dono, o cachorro se dirigiu at a porta.
   - Estou na pior, mesmo - murmurou Grant, ao levantar-se para abrir a porta para o animal. - Nem voc agenta ficar aqui comigo.
   O pastor olhou para o dono antes de sair e retirou-se.
   Grant fechou a porta. O co como sempre dormiria no galpo. Aposta no era um cachorro caseiro. Adotou o costume de visit-los  noite com a chegada de D. O
seu co, o seu cavalo, os seus ajudantes, ela encantou a todos. E ele no poderia dizer que sem esforo, pois ela vinha trabalhando pesado na fazenda.
   No tinha o adjetivo exato para o que D fizera com ele e com os demais. No tinha certeza se esse adjetivo existia.
   Muito tempo se passou desde que ela, solitria, subira as escadas.
   - Que noite de Natal - resmungou Grant. Ao passar pela porta dela, em direo ao seu quarto, seus dentes trincaram. S no tinha mais pena de si mesmo por ainda
estar to excitado.

   Doris no contava que adormeceria, no aps aquele beijo. Logo, sentiu-se um pouco desorientada quando o latido alto a despertou de supeto. Ela j ouvira Aposta
latir antes. O animal, pequeno, mas enrgico, podia transmitir diversas informaes simplesmente por variar o tom e a velocidade dos seus latidos. Ela escutara as
mais diferentes mensagens anteriormente, mas nenhuma se assemelhava a esta. Havia um qu de urgncia e preocupao na srie de rudos rpidos do co, que a fez sentir
uma pontada no peito.
   Sem titubear, ela pulou da cama, vestiu-se com pressa e enfiou os ps nas botas, enquanto j abria a porta. Ouviu as passadas pesadas pela escada no momento em
que saiu no corredor. Grant tambm estava de p para responder ao chamado do pastor.
   Ele j estava do lado de fora da casa, quando ela chegou ao trreo da casa. Ao abrir a porta da frente, o viu correndo, cruzando o jardim. O cachorro, em silncio
aps ter o seu chamado atendido, guiava o dono at o galpo.
   Com cuidado, ela fechou a porta da casa e partiu na mesma direo. O seu corao pulou quando Grant e Aposta ignoraram o galpo principal e seguiram para o menor,
que abrigava as guas.
   Por um instinto que no ousou questionar, ela concluiu que algo se passava com Lady, a appaloosa leopardo. Ao entrar no galpo, ouviu um barulho spero, agudo
e avistou Aposta, ansioso, sentado em frente  baia de Lady. Grant somente agora abria a porta do compartimento, tendo obviamente parado para apanhar a lanterna
que ele agora segurava. Ela correu pelo corredor do galpo, franzindo o rosto a cada rudo da gua.
   O lindo animal estava deitado, e a sua barriga de lado parecia ainda mais inchada. Lady suava, tinha o pescoo e os flancos encharcados. Debateu-se, agitou as
pernas e a cabea e, ento, como se exausta, voltou a repousar o corpo na palha. Doris sentiu uma fisgada, uma dor que a apertou por dentro. Assistiu a Grant colocar
gentilmente a mo sobre a barriga da gua e falar suavemente para o estressado animal:
   - Calma, garota. Tudo vai dar certo. O seu pequeno apenas decidiu chegar mais cedo. Vai ser um presente de Natal. Calma, agora.
   A mensagem foi meiga, quase cantada, e Lady pareceu responder ao no resistir ao toque de Grant. Doris sabia que o parto vinha cedo demais. Walt havia lhe explicado
que eles tentam programar os nascimentos na fazenda para que os filhotes viessem logo depois do Ano Novo, pois, para fins de registro e competio, a data de nascimento
de todos os cavalos era calculada como 1o de janeiro.
   - Vir cedo assim pode ser um problema?
   Grant virou-se para ela e mostrou-se um pouco assustado. De sbito, Doris deu-se conta de que na pressa no prendeu os cabelos nem se lembrou do suti. Ele no
fez nenhum comentrio, apenas a respondeu.
   - Acho que no. O doutor disse que ela iria parir em meados de janeiro, ento o beb est vindo s trs semanas mais cedo.
   Este no  o problema.  alguma outra coisa que est errada.
   - Alguma outra coisa?
   - Normalmente uma gua d  luz em no mais de meia hora depois da bolsa arrebentar. Da ltima vez, Lady no demorou mais do que quinze minutos, mas agora parece
que ela j est aqui deitada por um bom tempo. Se h um problema na passagem ou o cordo umbilical se enrolou, o filhote pode morrer.
   A barriga de Doris deu um n.
   - Voc quer que eu chame algum? Um veterinrio?
   Grant balanou a cabea negativamente, sem pestanejar.
   - Levaria duas horas para o doutor Watson chegar aqui, isso se a gente conseguir localiz-lo na noite de Natal. Eu no acho que o filhote tenha todo esse tempo.
Talvez nem a me. Ela est exausta.
   Ela arregalou os olhos. Havia se afeioado  gua, bonita e gentil, a alimentara com pedaos de cenoura e ma.
   - Ela no vai morrer, vai?
   - No se eu puder ajud-la - respondeu Grant. Virou a cabea para olhar para ela.
   - J trouxe um beb ao mundo, agente Brady?
   - Uma vez - disse ela.
   - Prepare-se para a segunda experincia. Se ele tentou intimid-la, fracassou.
   - Voc vai precisar da tradicional gua quente? - indagou ela, sem nervosismo.
   Grant sorriu.
   - Vou l na casa esquentar. Ele abriu o sorriso.
   - Aquela torneira ali vai te poupar o trabalho. A gua vem realmente quente, quase fervendo. Vou me lavar l. E por isso que temos o pequeno aquecedor e a pia
aqui.
   Ela sorriu junto, automaticamente.
   - Bem pensado.
   - Idia de Walt. Nada  demais para as suas guas. Ele trouxe Lady para essa baia de parto na semana passada. Provavelmente suspeitava que ela nos pregaria essa
pea.
   Ela olhou a baia em volta. Era maior do que as outras, quase cinco metros quadrados. O recipiente com feno e rao a uma altura baixa nas outras baias no existia
aqui. Ela sups que por razes de segurana.
   - Como eu gostaria que fosse ele que estivesse aqui para te ajudar - disse Doris, enftica.
   - Voc vai sobreviver, D. - Grant comeou a ditar ordens, que ela nem pensou em contestar. - Pegue para mim a caixa azul dentro daquele armrio e tambm as toalhas
limpas guardadas l. Eu vou precisar da lmpada de calor tambm. Ligue-a na tomada perto da porta. Vou precisar dela para esquentar as toalhas, e, com esse frio,
o filhote talvez precise de ajuda para se secar. Apanhe no outro galpo uma lanterna igual a essa. As luzes daqui no sero suficientes. Eu no quero machucar o
animal por no ver direito.
   - Tudo bem.
   Ela buscou a caixa, a lmpada e as toalhas, primeiro. Em seguida, correu at o outro galpo. Assim que l entrou, Curinga relinchou, mas ela dedicou ao admirador
apenas um tapinha no nariz. O garanho protestou quando a sua cavaleira agarrou a lanterna sem lhe dar maior ateno, e ela o repreendeu.
   - Fica quieto - ordenou. -  o seu beb que ela est tentando parir, e o mnimo que voc pode fazer  calar a boca enquanto ela trabalha.
   Surpreendentemente - ou no -, o garanho no deu mais nenhum relincho.
   Ao retornar, ela deparou-se com Grant ajoelhado ao lado de Lady, ainda cada. Ele havia tirado a jaqueta grossa e lavado os braos, pois a camisa cinza de trabalho
estava molhada.
   Num outro homem, a camisa ordinria passaria despercebida, mas em Grant caa de forma... deslumbrante. Esticada pelo seu trax largo, justa nos seus braos musculosos
e bem presa por dentro do jeans, sobre o seu abdmen reto e delineado, a imagem, inevitavelmente, lhe despertou para o fato de que quase nunca havia o visto assim,
sem a proteo contra o frio. De pronto, ela desejou voltar para o calor da fazenda, ter mais oportunidades de observ-lo sem as roupas pesadas de inverno.
   - Prenda essa lanterna aqui e ligue-a - orientou Grant. Assim ela procedeu, e o facho de luz iluminou o resto da baa. - Eu preciso checar como est o filhote.
Reze para que eu no encontre patas viradas para cima.
   - Por qu?
   - Porque elas sero provavelmente as patas traseiras, e isso ser um problema grande demais para que eu possa resolver. Tente mant-la calma. Ela est cansada,
mas pode tentar me golpear pelo que eu vou fazer.
   Ela acompanhou Grant ajoelhar-se atrs do cavalo e, quando percebeu como ele iria checar a situao do filhote, fez uma careta.
   - Se fosse eu, voc certamente levaria um coice - murmurou Doris, ao agachar-se perto da cabea da gua. Sem saber direito o que fazer, ela se ps simplesmente
a coar o pescoo encharcado de suor de Lady e a falar. Adotou o tom de voz melodioso que usava com Curinga, como se estivesse a brincar com o animal. Dizia o que
lhe vinha  mente, mas sem variar a voz.
   - Claro, ele  apenas um homem, o que ele sabe sobre essas coisas, no  mesmo? Mas ele vai te ajudar, e voc e o seu beb vo ficar bem. Agente firme...
   Estava demorando uma eternidade. Ela no podia olhar para Grant, acompanhar os procedimentos. A gua se agitou uma vez, mas Grant no se moveu. Ela continuou
a acariciar e a conversar com Lady.
   Finalmente, ele bradou de satisfao. Ela viu Grant limpando o brao, com cara de feliz.
   - OK, garota,  com voc agora.
   - Como ele estava? No estava de costas?
   - No. Tinha apenas uma das pernas dianteiras dobrada de um jeito esquisito. Tudo deve correr bem. Eu acho que acertei a posio dele agora.
   Grant nem bem terminou a frase, e o processo teve incio. A gua, como se revigorada, passou a bufar de forma contnua. Um corpo coberto por uma membrana comeou
a emergir. Doris prendeu a respirao. No era limpo nem arrumado, mas era todavia um milagre. No que pareceu no demorar nem um segundo, a pequena criatura, mais
pernas do que tudo, j estava espalhada sobre a palha da baia; a cpia perfeita do pai.
   Grant se moveu com agilidade, mas sem pressa, para que a me e o recm-nascido no se assustassem. Com toalhas limpas e aquecidas, ele limpou o filhote, sob o
brilho da lmpada de calor. Grant, sob os olhares de Doris, manuseou com carinho o pequeno cavalo, cuidou do cordo umbilical e levou o beb at onde a me deitava
a cabea. Exausta, Lady acariciou o seu beb com o focinho.
   - Fique tranqila, mame - sussurrou Grant. - Ela est aqui, est bem, e vocs duas precisam descansar.
   -  mesmo? - checou Doris, suavemente. - Ele  ela? Grant a olhou, sorriu e com uma voz igualmente suave respondeu:
   - , sim. Ela vai ser a menina mais bonita de todo o condado, com o corpo da me e o plo do pai.
   Doris riu junto com ele, tomada de alegria, delirante, diante da pequena criatura, uma nova vida que h minutos no estava ali. Nova vida. O ciclo continuava.
Vida e morte e vida... E ela tomou conscincia de que, a partir daquele instante, seus problemas cessariam. Nunca esqueceria Nick, nunca preencheria a perda do amigo,
mas, a partir dali, ela seguiria em frente. Encontraria prazer na vida de novo. Por mais trmula que estivesse, to trmula quanto o recm-nascido animal, sobreviveria
como Nick gostaria que ela sobrevivesse.
   Maravilhada pela revelao, Doris permaneceu imvel, em silncio, a assistir  cena. Pensou que o parto terminara, mas havia se enganado. Aparentemente, muito
trabalho restava a ser feito. Grant limpou o cho da baia e deu gua para Lady. Depois, ajeitou um monte de alfafa para ela. Quando terminou essa tarefa, a gua
j se punha de p. A iniciativa do animal o acalmou um pouco, mas ele no deu por fim a misso. Lavou as mamas da me para a primeira refeio do beb.
   Finalmente, Grant deixou a baia e fechou a porta. Descanso e silncio, segundo ele, eram a melhor coisa agora para os dois animais. No entanto, ele no saiu dali,
continuou a observ-los, ainda preocupado com eles, Doris notou, por causa do parto difcil. Minutos se passaram at que ela calculasse que j fazia uma hora do
nascimento.
   Aposta, que durante todo o tempo permaneceu quieto, sem obstruir o caminho, levantou-se e foi se acomodar aos ps dela e de Grant.
   - Bom garoto - murmurou ele, esticando o brao para um agrado na cabea do cachorro, mas sem tirar os olhos dos ocupantes da baia.
   - Mais do que isso - disse Doris. - Voc foi maravilhoso.
   Aposta gemeu baixinho, dando a impresso de estar ciente da necessidade de silncio.
   - D. - Grant no a mirava, seguia com os olhos fixos na baia. Ela tambm olhou, bem a tempo de ver a recm-nascida com as pernas bem abertas na tentativa de
se equilibrar. O animal bambeava, mas estava de p.
   De repente, o filhote desabou na palha. Doris soltou um rudo de aflio, mas Grant a segurou pelo brao para tranqiliz-la. Bastou que ele fizesse isso, para
que a beb novamente desafiasse a gravidade. Desta vez, com mais firmeza, ela se manteve de p.
   - Boa - disse Grant, satisfeito. - Ela estava cansada por causa do parto. Tudo parece bem. Agora, ela s precisa encontrar o caf da manh.
   Foram necessrias algumas tentativas, mas com o encorajamento da me, a recm-nascida encontrou o seu caminho e se mostrou esfomeada. Ultrapassado o ltimo obstculo,
ela assistiu  tenso deixar Grant, como se o nervosismo fosse algo palpvel.
   Ele sorria, aliviado, feliz, um riso nico. A cena emocionou. Doze anos atrs, Kristina zombava quando ela dizia que gostava de Grant no s porque ele era bonito,
mas tambm por causa do interior dele. A amiga no acreditava, mas ela j sabia que era este Grant na frente dela agora o Grant que realmente importava.
   Doris observou aquele grupo: me, filhote, homem e cachorro. Grant olhou de relance para a visitante. Algo na expresso dela fez com que ele a encarasse. De pronto,
piscando rapidamente, ela correu, se afastou dali,  medida que as lgrimas lhe desciam do rosto.
   Grant McClure, Doris concluiu, chorando,  um homem incrvel.
   E esta foi a noite de Natal mais linda que ela j teve.


   Captulo 10

   - Ainda tem daquele suco com brandy!
   O chamado vindo da sala de estar no a surpreendeu. Como ela, Grant devia estar cansado, mas sem um pingo de sono, aps o pequeno milagre que os dois testemunharam
nesta noite.
   - J estou esquentando o que sobrou - anunciou Doris. Em tom de deboche, acrescentou: - Voc no estava brincando quando falou sobre banhos demorados. J estava
vendo a hora que eu teria que ir l ver se voc ainda estava vivo.
   - Pena que no foi.
   A voz dele saiu rouca, grave, sugestiva e muito, muito prxima. Doris deu um pulo ao notar mais uma vez que Grant conseguira se aproximar sem chamar a sua ateno.
Ela estava ficando enferrujada e preguiosa; isso, sim. Perdeu os instintos bem treinados neste lugar cheio de paz...
   Os seus pensamentos se dissiparam quando, ao virar-se, o encontrou a cerca de um metro dela vestido somente com uma cala jeans. Grant trazia uma toalha no pescoo
e tinha o cabelo molhado, jogado para trs, o que destacava os traos bem marcados da face. Os ps descalos explicavam por que ela no o ouvira chegar. Contudo,
nada poderia explicar as marteladas do corao ao v-lo com o  peito  e a barriga nus, a maneira como os msculos definidos e fortes dos braos dele a hipnotizaram.
Era o que ela temia aceitar: Grant McClure continuava a ser o nico homem que realmente a balanava, a provocava de todos os jeitos que uma mulher deseja e precisa.
   A idia de que ela pressentira isso j aos doze anos a perturbou.
   Pena que no foi...
   A fala delicada e sensual ecoavam na cabea dela, as cenas fantasiadas lhe tiravam o flego.
   Como se ele pudesse ler pensamentos, como se soubesse que as suas palavras continuavam a mexer com ela, Grant aproximou-se mais, a prendeu contra a bancada da
cozinha e acrescentou num tom de voz ainda mais suave e provocativo:
   - Voc poderia ter se juntado a mim.
   Ela buscou o ar que lhe faltava. Nunca fizera nada semelhante ao proposto por ele, mas a imaginao lhe fornecia vises claras - e erticas - de estar nua sob
o mesmo chuveiro que Grant. Visualizou a gua a escorrer pelo corpo firme e forte dele, pelos contornos daqueles msculos. Fantasiou como seria deslizar as mos
pela pele molhada do homem a sua frente.
   Como se o devaneio, alm de visual, se tornasse ttil, ela fechou as mos, cravando as unhas nas prprias palmas, para amenizar a repentina angstia, fruto da
necessidade de toc-lo. Assim, evitava levant-las e pression-las contra o trax de Grant, trax que estava muito perto, to perto que ela podia sentir o calor
que dele emanava. Teria a textura do cetim, esticado sobre msculos rgidos, especulao que dificultou ainda mais a tarefa de reprimir as prprias mos. Grant fugira
dela horas antes, e ela no queria experimentar a mesma sensao por uma segunda vez.
   - Se voc continuar me olhando assim - disse Grant de forma brusca - ns vamos voltar ao ponto onde paramos na noite passada.
   Ela soltou o ar.
   - Mas...
   - Voc mudou de idia? - indagou ele.
   Se respondesse sim, seria o fim. Ela sabia disso, sabia disso l no fundo da alma, onde guardava as poucas coisas em que ainda confiava nessa vida. A f na sua
coragem um dia ficara l armazenada, e agora ela no tinha idia onde tal compromisso fora parar. Perdera a autoconfiana, mas a certeza sobre a dignidade de Grant
continuava no mesmo lugar. Ele no iria, nunca, forar uma situao ou seduzir uma mulher fragilizada. Mesmo sabendo que poderia pr abaixo as resistncias que lhe
sobravam com apenas mais um beijo ardente.
   Acima de tudo, se ela dissesse que sim, que mudara de idia, contaria uma mentira e mentiria por covardia.
   - Eu... Foi voc quem... quis parar- lembrou-lhe Doris. Mas que diabos ela estava fazendo? Provocando-o, quando deveria estar em busca de uma sada de emergncia
para o quarto de hspedes? Mas o que adiantaria fechar a porta para aquele homem, se ela no conseguiria se fechar para os sentimentos que ele incitava. No haveria
porta, real ou imaginria, slida o suficiente para isso.
   - Eu parei porque pensei que os motivos no eram os certos. Pensei que voc desejava obter um pouco de vida para enfrentar a morte e no queria que voc se arrependesse
depois - disse Grant.
   - Ento por que...
   - Porque agora - interrompeu ele - eu acho que o que voc quer  celebrar a vida.
   Grant deu o meio passo que faltava. Ela sentiu a presso do corpo forte dele contra o seu e tremeu, o que no fazia nenhum sentido, pois ele estava incrivelmente
quente.
   - Eu vi o seu rosto no galpo, D - afirmou Grant. -Voc sentiu o milagre, no sentiu? Uma nova vida substituindo a velha, o ciclo contnuo... Animais, pessoas,
 tudo a mesma coisa. A vida segue, voc vai seguir tambm. Voc descobriu isso nesta noite. Pode confessar.
   Ela deveria estar espantada com a sensibilidade e a percepo dele, mas no. No lhe parecia estranho que esse homem houvesse decifrado a revelao que a maravilhara
h pouco.
   -  verdade - disse Doris, em voz baixa. - Eu nunca vou deixar de sentir a falta de Nick, mas eu vou seguir com a vida. Eu devo isso a ele. E vai valer a pena.
   - Voc vai fazer mais do que seguir com a vida, D. Voc vai ser feliz de novo. Voc vai voltar para o seu emprego e vai encontrar satisfao l de novo. Sempre
haver a cicatriz, mas a ferida jamais vai doer como antes.
   - Celebrar a vida... - sussurrou Doris, como se orasse.
   - Isso - concordou ele. - E essa  a melhor soluo que eu posso pensar para isso.
   Antes que Grant se movesse, ela sabia o que estava por vir. Reagiu com a mesma rapidez dele, como se beijasse este homem h anos. As fantasias de adolescente
apaixonada foram um preldio tmido para uma realidade poderosa e efervescente. Nada na vida poderia prepar-la para a sensao de ter a boca dele na sua, para o
calor gerado nela por aqueles lbios sedentos, para a fora do impulso da lngua de Grant a penetrar sua boca, deliciando-se, brincando com ela, provocando-a.
   Nada, nunca, poderia prepar-la para algo que ela no tinha conscincia de que era possvel. Imaginava poder controlar o corpo e as reaes mais do que a maioria.
Exercitara-se para atingir o auge da forma. Conhecera os seus limites fsicos emocionais e pensava haver aprendido tudo.
   At Grant McClure a beijar e lhe ensinar que, quando se trata do corpo e das emoes, no h limites.
   Com um rudo semelhante a um urro, ele a envolveu pela cintura e a apertou ainda mais contra si. A respirao dela se acelerou ao sentir o trax nu, a parede
de msculos firmes, a maciez quente da pele dele. Ela ergueu as mos, indefesa, precisando toc-lo mais do que tudo na vida. Percorreu com os dedos o cetim imaginado
e arrepiou-se ao atrito com os plos espalhados pelo peito dele.
   Tocou-lhe os mamilos e notou que Grant sugou o ar que, neste mesmo instante, lhe faltara. De imediato, os mamilos dela tambm enrijeceram-se, pela antecipao
de que ele viesse a acarici-la do mesmo modo.
   Grant intensificou os beijos, e, quando recuou, ela foi busc-lo, to faminta quanto ele. Assim que tocou a lngua na dele, percebeu um tremor a atravess-lo,
e Grant reagiu levando as mos  cintura dela e trazendo-a para mais perto ainda. Ela gemeu ao movimento dele.
   Embora ele no se esforasse para esconder, ela demorou um instante para se dar conta do quo significativa era a presso contra o seu ventre. Sem saber exatamente
o que fazer, ela mexeu o corpo, numa tentativa de comprimir ainda mais a masculinidade dura dele. Grant se enrijeceu, seus dedos se cravaram na cintura dela, e ele
liberou um gemido. O que a excitou; nunca dera-se conta deste tipo de poder anteriormente. Talvez, por sempre estar forada na fora fsica necessria para uma policial.
Ou quem sabe por nunca ter usado esse poder feminino, capaz de enlouquecer um homem.
   - Grant - sussurrou Doris.
   - Sim! - disse ele, ofegante. - Se voc quiser parar... ter que ser agora.
   Uma ltima e pequena coisa ainda a incomodava.
   - Eu sou da cidade grande, lembra? E voc no gosta de garotas de l.
   - Eu sei, e eu sei que voc vai voltar, mas da cidade ou no voc  um diamante, D. Cristalino, puro e perfeito.
   Ela estava longe de ser aquilo, mas no lhe parecia o momento propcio para corrigi-lo.
   - No  sempre que um homem tem a chance de achar um diamante como esse - afirmou Grant. - Mas quando ele encontra... nada mais importa.
   Ele voltou a beij-la, profundamente, at que ela se excitasse ao mximo e se desligasse completamente. Estava to perdida neste redemoinho de novas sensaes
que no percebeu quando Grant a levantou nos braos. S percebeu estar em seu colo no momento em que ele virou de lado para passar atravs da porta da cozinha.
   - Grant?
   Ele a olhou por um instante. Grant, ao mesmo tempo que temia uma mudana repentina de planos, pensava na possibilidade de voltar a beij-la antes que ela se pronunciasse.
Aps uns segundos, ele apenas disse:
   - O qu?
   - Eu... no... Eu no estou preparada para este imprevisto.
   Levou um instante para que ele registrasse a informao.
   - Tudo bem que a minha abstinncia j  longa, mas eu no deixaria de ter uns preservativos guardados.
   Doris riu e, em seguida, espantou-se com a prpria reao maliciosa, uma malcia que ela nunca pensou possuir. Grant curvou-se para beij-la mais uma vez.
   - Vamos logo - pediu ela. A nica coisa que pde dizer, quando ele subia os degraus.
   No teve certeza se os olhos de Grant brilharam com a ordem ou com a urgncia no tom de voz dela, mas quela altura isso no importava, contanto que ele fizesse
o que ela pedira. E ele fez. Passou a subir dois degraus de cada vez, apesar de t-la no colo.
   E ento parou em frente do quarto que ela ocupava.
   - No seu ou no meu?
   Doris se ajeitou nos braos dele, reclinou a cabea para olh-lo, de forma inquisidora.
   - Tanto faz, ou no?
   -  que eu nunca - respondeu ele, um tanto envergonhado - nunca fiz isso aqui, nunca fiz sexo aqui em casa. - E completou, com uma careta: - Na verdade, tem tanto
tempo que eu no fao... que nem me lembro direito da ltima vez.
   - Eu tambm - sussurrou ela, ainda mais excitada pela revelao dele.
   Eu nunca fiz isso aqui. Uma coisa simples demais, mas que a fez sentir incrivelmente especial. E verdadeiramente desejada, mais do que a necessidade fsica que
no momento dominava ambos. Uma bobagem, talvez, mas uma alegria que ela no tinha como negar.
   - No seu - resolveu Doris.
   Grant respirou fundo; ela sentiu o trax encher. Os olhos dele se fecharam por um momento, e ele engoliu em seco. Abriu os olhos, a encarando-a concordou com
a cabea.
   - Tudo bem?
   - Tudo - afirmou Grant, com a voz rouca. - Eu a quero em minha cama. Desculpe se estou sendo macho e pouco sensvel por desejar isso.
   - No tem do que se desculpar - finalizou Doris, com o que lhe sobrava de ar.
   Ele cruzou o restante do corredor, ainda a carreg-la como se ela no pesasse mais do que a potranca que acabara de nascer. Grant achava que no era sensvel
o suficiente? Tinha ele esquecido que ela lhe assistira cuidando daquela pequena criatura como se o beb de Lady fosse a coisa mais frgil do planeta? Que ela vira-o
acalmar a gua amedrontada e exausta com uma voz delicada, mais delicada do que qualquer outra que escutara? Ser que ele realmente no sabia o quanto se revelara
nesta noite?
   Doris no teve tempo para continuar refletindo. Com o p descalo, Grant empurrou a porta e a conduzir ao quarto. Ela nunca havia estado ali. Examinara o aposento
de relance uma ou duas vezes, quando ele o esquecera aberto, o suficiente para saber que o ambiente era discreto e masculino. Moblia slida, pesada, e cores sbrias.
A roupa de cama, lenis e fronhas brancas e um edredom azul, estava dobrada de lado, na posio que ele largara quando saiu para atender o alerta de Aposta. Uma
camisa jogada perto do p da cama, e, sobre a penteadeira, um relgio de bolso e um pente. Mas foi a pilha de pelo menos meia dzia de livros sobre o criado-mudo
que mais atraiu o interesse dela, o que Doris achou engraado. De todos os lugares do mundo, Grant pode ter optado por "desperdiar" a vida aqui, mas nunca deixou
de exercitar a sua inteligncia.
   Ele a ps sentada na cama, vagarosamente, como se quisesse roar cada centmetro do seu corpo no dela. A idia a excitou-a, renovou-lhe o desejo. Grant percebeu,
pensou ela, porque os olhos dele se abriram mais ainda e quase se fecharam em seguida. Brilhavam com um azul intenso, brilho que ela nunca presenciara igual na vida.
   Ele a beijou de novo, mais selvagem agora, o que fez ela se sentir como o pressgio da primavera, aps um inverno nas montanhas de Wyoming.
   Deixar-se cair nos braos dele, perguntando-se aonde teria ido a fora e o preparo, resultado dos anos de treinamento. Com um gemido baixo, primitivo, inegavelmente
e veementemente masculino, ele a deitou na cama. Ela imaginou que Grant tambm deitaria, mas o dono do quarto virou-se e abriu a gaveta da mesa de cabeceira com
um puxo mais forte do que o necessrio. Revirou as coisas enquanto ela observava que ele tremia tanto quanto ela.
   Seguia cada movimento dele. Grant apanhou na gaveta uma pequena embalagem de plstico e a jogou sobre o tampo do criado-mudo. Quando enfim virou-se de volta,
riu para ela.
   - Melhor pegar agora, porque mais tarde... pode ser tarde demais.
   Doris tremeu com a frase, com tudo que a declarao dele sugeria. Grant deitou-se ao lado dela apressado, agarrou-a, a vontade estampada no rosto dele afugentava
qualquer constrangimento pela primeira vez. Beijou-a, na testa, face, queixo e ponta do nariz. Com beijos e mordidas delicadas, deixou-se escorregar pelo pescoo
dela.
   Foi interrompido pela gola da camisa suada, a qual Doris urgentemente se ps a tirar, para poupar-lhe o trabalho. Somente aps liberar os braos, tendo a camiseta
velha ainda presa pela testa, ela lembrou-se que no usava suti. Ouviu-o gemer de novo, no momento em que ele terminou de despi-la. Sentiu as mos dele em seus
seios, um toque de quase reverncia. Cada dedo de Grant parecia um ferro quente a queim-la, a marc-la, a lhe enrijecer os mamilos.
   Doris o observou e estremeceu ao ver o contraste das mos bronzeadas, musculosas e speras do trabalho braal na carne suave e branca de seus seios. Grant parou,
a observou, dando a impresso de no estar seguro de que deveria continuar. Ela abriu a boca para pedir, para implorar se necessrio, que seus dedos continuassem
a percorrer a distncia curta e crucial at os dois montes firmes, que, antes rosados, se tornaram violeta. No entanto, dispensando as palavras ela transmitiu a
mensagem da nica melhor maneira possvel: curvou a coluna para lhe oferecer os seios.
   Grant murmurou, um som baixo, abafado, curto, que Doris mal ouviu. Ela, porm, no tinha ouvidos para nada a essa altura. Ele segurou os mamilos dela entre os
dedos e gentilmente os pressionou, deixando-os ainda mais eretos de prazer. Doris gritou  medida que flechas de fogo disparavam da carne excitada de seus seios
numa espcie de choque. Um forte calor irrompeu, circulou e se apossou dela.
   O grito inflamou visivelmente Grant, que com agilidade livrou-a do jeans e das botas. De incio, ele simplesmente a fitou. Se no fosse pelo desejo ardente visveis
no rosto dele, ela teria ficado constrangida.
   - D - sussurrou ele, para em seguida beij-la novamente. - Quem poderia imaginar que aquela pestinha se tornaria uma mulher to linda?
   - Para mim, voc sempre foi lindo - segredou ela de volta, recuperando enfim a voz.
   Grant corou-se de leve.
   - A sua opinio no  isenta.
   - Definitivamente, no. Porque mesmo completamente vestido, voc  lindo.
   Ele percebeu a deixa e se desvencilhou do jeans. Foi ento a vez de Doris examin-lo, sem pressa. Grant permitiu, como se lhe retribusse o consentimento anterior.
Ela sabia que ele era forte, firme e totalmente masculino, mas nenhuma das fantasias que tivera poderia se comparar  viso daquele corpo nu, algo inimaginvel.
O trax mostrava-se ainda mais largo, quando se via em detalhe a maneira como ele se afinava para compor a cintura bem definida e o abdmen firme e plano. A fonte
da agilidade de Grant ficava clara para ela agora, diante dos quadris rijos, pernas fortes e costas avantajadas. A montaria moldava msculos bem interessantes, Doris
concluiu.
   E o jeans apertado, que ela imaginava que pouco contribua para esconder os contornos do que de mais masculino havia no corpo dele, ocultava, na verdade, muito
da histria. Grant era to forte e poderoso ali quanto em qualquer outra parte. E se ela ainda tinha alguma dvida sobre a intensidade do desejo dele, a excitao
vigorosa  sua frente eliminaria qualquer incerteza. Ela tremeu, de antecipao e de apreenso, pelo que estava por vir.
   Grant deve ter visto o receio no rosto dela, pois imediatamente franziu a testa.
   -D?
   - Eu...
   Ele trincou os dentes, mas indagou sem alterar o tom de voz:
   - Quer parar?
   - No - respondeu Doris prontamente. - No  isso, ... J faz bastante tempo, e voc ...
   - Eu sou o qu?
   - Em proporo... - sugeriu Doris, envergonhada.
   - Ah. - Ao mesmo tempo que deixou escapar a sua satisfao com o comentrio, Grant pareceu se censurar, no muito convicto de que deveria explicitar esse contentamento.
- E que... Voc ... - Desta vez, ele corou-se. -Eu no tinha me dado conta at agora de que voc realmente  muito pequena.
   - Eu no sou pequena - protestou Doris, automaticamente. - Voc que ...
   As palavras lhe fugiram quando ela voltou a olh-lo por inteiro. Esqueceu-se completamente do que ia dizer. S podia admir-lo, a idia de fazer amor com aquele
corpo esplndido a excitou.
   - Em outro momento - afirmou ele, com esforo visvel - eu quero apreci-la, da mesma maneira que voc est me olhando agora, por muito, muito tempo. Eu quero
que voc toque tudo o que voc est vendo neste momento, e quero fazer o mesmo com voc. Porm, no agora, por favor.
   Grant ento foi ao encontro dela, e Doris, tambm sedenta, se entregou queles braos. As mos dele pareciam percorrer todos os pontos, esfregando, acariciando,
buscando e achando cada centmetro de um corpo que despertava para um encantamento nunca experimentado.
   Ela, pela primeira vez em toda a sua vida, perdera o controle de seu prprio corpo. Era Grant que comandava as aes, e ele exercia esse poder com tanto prazer
que ela no teria com que se importar. A nica coisa com a qual deveria se importar era que ele no parasse at que lhe proporcionasse tudo o que ela precisava,
tudo aquilo que somente ele poderia dar, aplacando o desejo pulsante que a consumia.
   Com delicadeza as mos dele comearam a explorar a parte interna de suas coxas. Ela j sentia a umidade antes dos dedos dele deslizarem rumo  regio mida caracterstica
do corpo feminino.
   Doris instintivamente prendeu a respirao. Ela gemeu o nome do homem que a tocava no instante em que Grant comeou a brincar com o pequeno boto, o qual ele
fora o responsvel por fazer florescer. Ela se agarrou nos ombros dele, com a sensao de que aquele corpo era a nica coisa estvel num mundo que ameaava deixar
a sua rbita. Sem nunca interromper as carcias circulares que a enlouqueciam, Grant, com a outra mo, pegou os dedos dela e os trouxe para a parte inferior do corpo
dele. Doris hesitou, repentinamente embaraada. Nos cinco anos como policial, ela havia tratado de vrios casos que envolviam sexo. Isto porm era diferente, isto
era Grant, um ato puro, limpo, bom, sem todo o lixo com o qual a agente Brady lidara.
   - Eu no sei... - ensaiou Doris, permitindo que a voz lhe escapasse, para s depois se dar conta do quo ridcula e ignorante soara.
   Grant entretanto recebeu a suposta restrio com naturalidade.
   - D, minha querida... Eu te mostro.
   A inesperada acolhida acelerou o corao dela. Grant a conduziu, posicionou e segurou os dedos dela em torno dele, mostrou a ela a pulsao, o grau de rigidez.
Ela o alisou, uma, duas vezes, e ento Grant a deixou acariciar por conta prpria. Doris no parou e se deliciou com o gemido dele de prazer. Incentivada, prosseguiu
com os carinhos e passou a sentir pequenos frissons de calor a cada toque na carne dura, suave e quente,  sua disposio. Enquanto isso, os dedos dele a conduziam
para a beira da insanidade, a incendiavam. Nem mesmo gritar a aliviaria daquele vazio insuportvel que ela experimentava, um vazio que s Grant poderia preencher.
   No mesmo segundo em que Doris imaginava alcanar o limite do que poderia suportar, Grant contraiu os quadris em busca de mais da mo dela.
   - A noite toda - disse ele com uma voz grave e rouca. - Eu juro que da prxima vez ns vamos fazer isso a noite toda. E vamos fazer isso da maneira que voc quiser,
onde voc quiser. Mas, agora, eu no agento mais.
   Grant abriu a embalagem plstica, colocou o preservativo e se ps por cima dela. Doris o acolheu, posicionando as pernas para receber o corpo dele.
   - Possua-me - sussurrou ela, na primeira tentativa do membro dele para encontr-la. - Possua-me, sim, Grant. Agora.
   Ele finalmente introduziu seu sexo para dentro dela em um s movimento, como se os corpos de ambos houvessem sempre esperado por este momento. Esperado para provar
como se ajustavam to perfeitamente. Grant ficou imvel e, no momento em que a preencheu completamente, estremeceu. Doris gritou o nome dele ao sentir a plenitude
desse instante.
   Grant murmurou algo em meio  respirao ofegante. Gemeu o nome dela e alguma expresso de espanto, em tom solene. Ela percebeu que ele tremia novamente e o abraou
com fora, mais prximo. Na infncia, absorvida pela paixo platnica, ela no tinha conhecimento suficiente para imaginar esse tipo de proximidade. Caso contrrio,
pensava Doris agora, enquanto Grant, vagarosamente, afastava-se para em seguida voltar a preench-la com fora - puro prazer a jorrar uma, duas, tantas vezes mais
dentro dela -, no teria se recuperado do amor juvenil. Se  que um dia ela se recuperou. Isso no importava agora. Nada importava, exceto que este era Grant, o
homem, no o menino que a ensinara coisas que ela nunca sonhara aprender. A cada movimento dos quadris, ele mais e mais a excitava, a trazia, vida e indefesa, para
o ritmo dele. O som do contato dos corpos ecoou pelo quarto. As cobertas que supostamente deveriam proteg-los contra o frio do inverno foram jogadas para o cho,
tal o calor que ambos os corpos geravam.
   Grant voltou a sussurrar algo em tom imponente, como uma reverncia, para depois pronunciar um "D" com uma voz que ela nunca mais esquecer. Ele deslizou a mo
por entre seus corpos at achar e se ocupar novamente do intumescente ponto de prazer do corpo dela. Ao primeiro toque, Doris gritou. Com uma convulso, curvou-se
ao encontro dele, e Grant acariciou com mais intensidade aquele ponto, enquanto a masculinidade dele ainda a preenchia com uma rigidez extrema e prazerosa.
   Doris rezou para que Grant no parasse, desejou dispor da conscincia necessria para implorar-lhe isso, mas no conseguia pronunciar nada alm do nome dele entre
gemidos. Finalmente, o corpo inteiro dela se retesou como um arco pronto a lanar uma flecha. Ela o abraou com fora, tornando ainda mais potente a presena dele
dentro dela. Escutou-o gritar "D", sentiu Grant se afastar ligeiramente e dar a ltima estocada com fora. A partir da, ela perdera o contato com tudo que no
fosse as contraes violentas do prprio corpo, as ondas de calor que percorriam cada ponto do seu ser.
   Gradualmente, Doris voltou a si, tomando conscincia primeiramente da respirao rpida de Grant. Ficou deitada sem se mexer por um longo tempo, simplesmente
deleitando-se com o peso dele sobre ela, admirando o suor que escorria dele, adorando o fato de ele continuar abraando-a. Assim Grant permanecera assim desde seu
ltimo esforo, como se temesse que ela pudesse fugir. Doris sentiu as lgrimas que lhe vinham, rpidas, da mesma forma que vieram naquele dia diante do lago, sem
que ela pudesse conter. E se ps a pensar sobre o novo mundo de problemas que criara para si mesma. L estava ela, nos braos de Grant, algo que sonhara incessantemente
doze anos atrs. Mas a vida dela era na cidade, e a dele, agora, neste lugar.
   Doris pouco acreditava nas chances de sucesso de uma relao  longa distncia.
   Os dois, porm, resolveriam aquilo mais tarde. No momento estar ali era o bastante. Sentir a solidez e o peso dele sobre ela era o suficiente.
   Doris, entretanto, no pde evitar a dvida que lhe chegava  mente: Ser que ele ainda iria odiar as mulheres da cidade grande?


   Captulo 11

   Ele tinha que dar um fim naquilo. Sonhar todas as noites com D acabaria deixando-o maluco. Isso iria mat-lo. Nunca acordara to cansado. Apesar de um pouco
sonolento, no se sentia particularmente fatigado nesta manh. Na verdade, estava at muito tranqilo, relaxado, confortvel, aquecido, de bem com a vida. Em um
minuto, tentaria se lembrar por qu. Agora, continuaria mais um pouco nesta transio entre o sono e o despertar, nem bem dormindo, nem bem acordado, onde tudo era
maravilhoso. As lembranas ainda vivas do sonho quase o convenciam de que se tratava mesmo de D ao seu lado, ali, juntinho, esquentando com a pele macia das costas
e do quadril dela a carne nua dele.
   Um susto, e Grant despertou de vez, suspendendo meio corpo com o auxlio do cotovelo. O quarto estava suficientemente iluminado para que ele logo percebesse que
era muito mais tarde do que a sua costumeira alvorada, s 5 horas. Em seguida, deu-se conta de que a neve cessara, pois o sol brilhava. E s depois a claridade agradvel
do aposento confirmou a razo de sua satisfao nesta manh.
   Foi tudo verdade, e no mais um daqueles sonhos vividos e erticos. Ela estava ali. D estava ali, na sua cama, nua, seus ombros esguios fora das cobertas, apesar
do quarto um pouco frio. Os cabelos louros, bem claros, espalhavam-se em torno dela. Cabelos que ele agora conhecia to intimamente.
   As recordaes neste instante se acenderam em sua mente em detalhes, lembranas da noite passada, do seu prprio desejo, da receptividade ardente dela. As imagens
que recordava o excitaram com uma velocidade que o surpreendeu. Pensou - naquela vez em frente ao lago, quando percebera que D chorava - as palavras que ela lhe
dissera.
   s vezes, quando algo me transmite essa intensidade, as lgrimas simplesmente se derramam.
   Vontade e necessidade e desejo o invadiram quando recordou em seguida o que D lhe dissera sobre o modo como ele fazia com que ela se sentisse. Inmeras vezes
na noite passada os dois foram um ao encontro do outro, cada vez com mais intensidade, at ele duvidar de que ainda poderia se mover. Os dois mergulharam finalmente
num sono de exausto; braos e pernas ainda entrelaados.
   D, neste instante, moveu-se. Murmurando, escorregou na buscando aconchego nas costas dele. Grant segurou um gemido, quando o roar das curvas firmes dela lhe
fez despertar o desejo.
   Nunca sentira nada parecido a sensao de alegria matinal, livre de qualquer culpa, convicto de que era absolutamente normal acordar com uma mulher em seus braos.
No uma simples mulher, mas esta mulher. J supunha isso, quando quis possu-la na mesma cama em que ele prprio fora concebido.
   Grant lutou contra a urgncia de se entregar novamente, de desfrutar da manh de ternura e do prazer pela presena de D.
   Seu corao, seu corpo, suas entranhas poderiam estar em festa, mas sua mente lhe enviava alertas to estridentes quanto os latidos de Aposta.
   Ela era uma mulher urbana, assim se definiu, e, conforme dissera para ele, voltaria para a cidade grande.
   Eu prometo que no vou ficar aqui a vida toda. Assim que eles me chamarem, eu pego o prximo avio e tiro o peso das suas costas.
   D afirmara, sem economizar palavras, e ele no havia se esquecido. Na noite passada, isso no teve importncia, pois a queria com tanto furor que a sua mente
lgica e racional parou de funcionar.
   E agora? Agora que ele sabia do quanto eram capazes; agora que sabia que D provocava nele uma reao que mulher nenhuma jamais conseguira?
   Agora que ele sabia tudo isso, alguma de coisa mudou?
   Grant sentiu algo lhe apertar bem no fundo. Algo que no experimentava desde que Constance lhe devolvera, numa bandeja, o corao surrado dele.
   Voc entrou nesta histria consciente, Grant pensou, rigoroso. Voc sabia que um dia ela iria embora. No havia nada ali forte o suficiente para segurar uma mulher
que no nascera para isso. Incluindo ele prprio.
   D mexeu-se novamente. Mais do que tudo, ele queria despert-la com um beijo. Queria ver de novo o fogo nos olhos dela, queria que ela o desejasse de novo, queria
ouvir suspiro de prazer, indicando que ele deslizara at o limite dela.
   No entanto, no faria nada daquilo. Sentindo-se imerso em problemas quase afundando, Grant distanciou-se de D. O corpo dele contraiu-se em protesto por perder
o contato com o calor e a maciez da pele dela. D virou-se de frente com os olhos entreabertos, as plpebras j entreabertas, e, quando ele encarou o verde sonolento
dos olhos verdes dela, precisou de toda a determinao que dispunha para no abra-la e fazer algo ainda mais estpido. Dizer o que no queria declarar e que ela
no desejava ouvir.
   - Bom dia - afirmou Doris. O sorriso doce e delicado com o qual ela o cumprimentou atingiu o corao dele.
   - Boa tarde - respondeu Grant, ciente de que soara pouco amistoso. A vontade de se aproximar guerreava com a necessidade de manter uma distncia de segurana.
   D piscou algumas vezes confusa.
   - Que horas so?
   - Tarde - disse Grant, sucinto ao ponto de se mostrar grosseiro.
   Sonolenta, ela enrugou a testa, certamente por registrar o tom spero de sua voz. Sentou-se, expondo as linhas longas das costas que se abriam em curva ao alcanarem
os quadris. Algo dentro dele deu um n com o movimento. As imagens o inundaram novamente, os seios em suas mos, os quadris dela o embalando de forma ritmada, a
carne quente, mida levando-lhe ao clmax mais intenso.
   - Grant?
   - Preciso ver Lady - disse ele e sentou-se.
   - Algum problema?
   Ele colocou os ps para fora da cama e apanhou o jeans do qual se livrara com pressa na noite anterior.
   - Algum problema comigo, Grant?
   Ele a olhou. D escondia com a coberta o corpo que lhe oferecera sem receios durante a noite. Tinha os olhos abertos e aflitos, mas os mantinha firmes nele. Enfrentava-o
como enfrentava a tudo; de cabea erguida. Ele a devia pelo menos uma explicao, reconheceu Grant, pois no havia razo para mudar as regras do jogo agora. D se
mostrou honesta desde o incio. Deixara bem claro que voltaria logo para cidade, assim que pudesse.
   - Est tudo bem, D - respondeu Grant. - Eu sei que a noite passada no... mudou nada. - Os olhos dela se arregalaram, e ele acelerou para esclarecer tudo. -
Voc vai voltar para o lugar ao qual voc pertence, e eu vou ficar aqui, no lugar ao qual eu perteno.
   - Eu... sei.
   Grant no pde decifrar o tom de voz nem a expresso estranha no rosto dela, e as dvidas imediatamente o dominaram. No esforo para tornar as coisas mais fceis,
teria ele precipitado e tornando-as mais difceis?
   - Ns sabamos disso o tempo inteiro. Voc tem o seu mundo; eu, o meu, e eles no se misturam.
   - Foi isso o que voc disse.
   Ela estava reticente, e Grant no sabia por qu.
   Buscava somente reassegur-la de que no esperava nada mais do que os corpos de ambos pressentiram que aconteceria.
   - D...
   - Vamos  luta - cortou ela. - Na fazenda no h feriado, no  isso o que voc diz.
   Algo estava errado, Grant sentia, mas a expresso no rosto dela era neutra. D procurava as roupas que despira ontem e vestiu o agasalho antes que ele pudesse
pensar em algo para dizer.
   Ela levantou-se para encar-lo, antes de que ele abotoasse o jeans.
   - E ento? - afirmou ela, radiante, to radiante que lhe pareceu falsa. - Vamos ver como est a potranca recm-chegada? Posso levar uma ma para a me?
   Grant hesitou, confuso com a sbita disposio dela.
   - S um pedao, nada mais. Olha, D, se eu disse algo...
   - Esquea, garoto do campo.
   Ele teve a impresso de que D acabara de lhe mandar uma indireta, mas ela exibia tanta alegria que isso no seria possvel. A hspede partiu em direo  porta
do quarto.
   - S posso lhe dizer uma coisa, McClure. Voc com certeza sabe como dar a uma garota da cidade grande uma manh seguinte memorvel.
   Disse e saiu. Grant s foi capaz de se mover depois do ltimo eco dos passos dela pelo corredor.
   Seria muito mais fcil, Doris lamentou ao enfiar a jaqueta, tentando no tremer, se ela pudesse considerar tudo um erro. Mas como? Como tudo que se passou entre
os dois poderia ter sido um engano? Ela no era a mais experiente das mulheres, mas tampouco era ingnua ao ponto de crer que todas encontravam tanto prazer numa
relao.
   Pensando bem, talvez encontrassem, sim. Talvez ela fosse realmente muito ingnua, e nada de to especial assim acontecera. Pelo menos, para Grant. No se, como
ele haveria dito o que disse?
   Voc vai voltar para o lugar ao qual voc pertence, e eu vou ficar aqui no lugar ao qual eu perteno. Voc tem o seu mundo; eu, o meu, e eles no se misturam.
   E afirmara aquilo de um modo to... to compreensivo, como se esperasse que ela achasse consolo em tais palavras. Um lembrete de que, uma vez garota da cidade
grande, sempre garota da cidade grande. Um alerta de que, assim como ele no esperava nada dela, ela no deveria esperar nada dele.
   E ela no esperava nada, mesmo. Ela no esperava coisa nenhuma de Grant McClure, pensou Doris furiosa, abalada, esfregando os olhos e afastando a ameaa de choro.
Voc  uma idiota, Brady, resmungou consigo. Voc sabia que isso terminaria assim.
   Mas no se tornaria uma dessas mulheres chorosas que se fazem de vitima. No foi vtima de nada, foi uma agente, uma agente ativa. Tomou decises, e agora que
arcasse com as conseqncias. No tinha o direito de ficar decepcionada pelo fato de Grant declarar em alto e bom som o que ambos sabiam de antemo. Ele foi honesto,
algo que ela sempre reivindicou, e ressentir-se por isso seria uma hipocrisia.
   Pelo menos, no demonstrara como as palavras dele lhe magoaram. Se aprendera alguma coisa nos cinco anos como policial, essa coisa foi como camuflar as emoes.
No pretendia dar a Grant sinais de sua tolice ao cogitar, mesmo por um s momento, que uma noite juntos poderia significar mais do que uma noite juntos. Se ele
era capaz de levantar a cabea e seguir tranqilo, ela tambm seria.
   Na noite passada, se perguntava se ele ainda odiaria mulheres da cidade grande. A resposta veio nesta manh.
   Um movimento estranho lhe desviou a ateno. Ela virou-se para a direita para se deparar com Aposta correndo em sua direo. O cachorro diminuiu o ritmo para
acompanhar o passo dela, rumo ao galpo das guas.
   - Fazendo a ronda, amigo? - indagou Doris. O pastor soltou um latido seco.
   - Como vai a beb?
   Aposta deu um latido agudo e acelerou o passo, como se entendesse perfeitamente o questionamento e partisse para apurar as informaes.
   - Fale a verdade, agora.  voc quem manda aqui, no ? - perguntou Doris ao cachorro. - Voc s deixa que eles pensem que so eles que mandam.
   Ele latiu de novo, quase na porta do galpo, impaciente com o passo dela, ainda vagaroso. Ela sabia que o animal costumava entrar por uma pequena abertura, destinada
justamente para o livre acesso dele. Sendo assim, Doris concluiu que Aposta duvidava que ela pudesse ter acesso ao galpo sem a sua ajuda.
   Ela puxou a porta de correr, e s ento o cachorro adentrou o galpo.
   - Que cavalheiro - cumprimentou-o Doris. - Eu gostaria que o seu dono fosse um pouco mais...
   Conteve as palavras. Ela no iria fazer isso. No iria acusar Grant pela sua mgoa. Ela foi a responsvel por isso. Ele nunca guardou segredos sobre o que sentia.
   Com um suspiro, tomou o rumo da baia, pasma por uma noite que parecera to perfeita ter se transformado nesta baguna.
   Lady, j de p, aparentava calma. O corao de Doris deu um salto. Cad a beb? Ela debruou-se na meia-porta da baia e bisbilhotou em volta. Nada. De repente,
um movimento do outro lado da gua devolveu-lhe a calma. O pequeno rosto apareceu de trs do corpo imponente da me.
   Ela abriu um sorriso de alvio, totalmente cativada pela potranca.
   - Como vai, pequena. Feliz Natal. Para voc tambm, mame.
   Doris exibiu o pedao de ma que tinha trazido, a gua esticou o pescoo, cheirou a guloseima e delicadamente a aceitou.
   Ela escutou a porta do galpo correr novamente. No olhou. Nenhum dos ajudantes voltaria at o fim do dia.
   Logo, s poderia ser Grant. Pela reao de Aposta, a suspeita se confirmava.
   O homem no disse nada, mas Doris escutou os seus movimentos, o barulho da gua, alguns outros sons, e, enfim, passos.
   A gua relinchou, quando o dono se aproximou.
   - Perdo, mame, estou atrasado - murmurou ele, ao terminar de abrir a porta da baia. Doris observou que Grant trazia um balde com o que parecia um mingau grosso
fervendo.
   - Caf da manh? - perguntou ela, atenta em manter a voz alegre.
   - Cereais amassados - respondeu ele. - Ela vai voltar  dieta normal em uma semana. Isso  o melhor agora para a mame.
   - Ah.
   Ela no tinha mais nada para dizer. Como duas pessoas, depois do ocorrido na noite passada, podiam agora agir como se mal se conhecessem?
   Os dois ficaram ali, observando a gua esvaziar o balde sob o olhar curioso da beb. Quando o animal terminou a refeio, Grant retirou o recipiente, para que
nem me nem filha se machucassem. Ele levou a tina de volta para pia e a limpou metodicamente. E em silncio.
   Grant titubeou por um momento, aps guardar tudo. Momento no qual ela achou que ele falaria algo. No entanto, o anfitrio partiu sem pronunciar nada. Ela segurou
um suspiro e voltou-se para a baia. A imagem da potranca esfomeada mamando na me a fez rir. Havia na cena esperana, paz e simplicidade suficientes para que Doris,
por uns instantes, colocasse de lado toda a confuso e desfrutasse desse milagre.

   - Essa sua famlia  inacreditvel, me. Todo dia uma nova surpresa.
   Grant se ajeitou na cadeira de carvalho da cozinha, com os ps sobre a mesa. Ele havia, entretanto, retirado as botas, efeito da educao transmitida pela me.
   -  verdade, filho - concordou Barbara Fortune, com um riso espontneo. - No d mesmo para acreditar que o filho de Monica, Brandon,  o gmeo seqestrado. Todo
esse tempo a gente pensava que o gmeo desaparecido era uma menina como Lindsay.
   - Vocs - disse Grant, cinicamente - e aquela mulher que tentou se passar pela irm de Lindsay.
   - A mulher de sobrenome Ducet? Bem, filho, as duas eram muito parecidas. Talvez tenha sido um engano honesto.
   Grant riu, mas um riso amargo. No lembraria a atitude da mulher e do seu companheiro, que desapareceram quando Brandon Malone surgiu com a carta de Monica. A
tal Ducet queria mesmo o dinheiro, idntico ao caso da mulher que, ao ver o tamanho da fazenda McClure, decidiu conquistar o herdeiro da propriedade para a estante
de trofus dela.
   A me sempre buscava pelo melhor em cada pessoa, sem se importar se esse melhor realmente existia.
   - Ento Monica estava por trs de tudo? - perguntou Grant. - Inclusive da morte de Kate?
   Barbara Fortune suspirou, e Grant calculou que ela deveria estar encontrando dificuldades para achar algo positivo sobre a parente obcecada.
   - De acordo com as cartas encontradas no cofre e com as descobertas de Gabe Devereax, detetive da famlia, ela estava desesperada para ganhar o controle da companhia
de Kate. Monica pensava que era um direito que Brandon trazia do bero. E odiava Kate, porque Ben nunca deixaria a minha sogra.
   - E Monica deu o troco arquitetando o atentado que a matou. Encantador. - Grant se remexeu na cadeira. Como a me poderia viver num mundo desses? Ele no gostava
nem de ouvir a respeito, embora a distrao desta manh fosse bem-vinda. - Eu suponho que ela esteja tambm por trs de todos os problemas no laboratrio.
   - Ela escreveu sobre isso tambm. Esperava que a sabotagem transformasse tudo num caos, para assim tirar alguma vantagem.
   Os Fortune j eram um caos, Grant pensou, ainda cnico.
   - Boa sorte para Brandon Malone - disse ele. - Ele vai precisar de muita para lidar com aquela famlia.
   - Eles so a minha famlia, tambm, Grant. Grant suspirou, em arrependimento.
   - Eu sei. Desculpa.
   - E a sua tambm.
   - Isso eu nunca senti.
   - Eu sei, mas eles te admiram do jeito deles.
   - A mim? - indagou Grant, surpreso.
   - Nate sempre diz que gosta do seu carter. E Kate te via como parte da famlia. Ela te deu aquele cavalo, afinal de contas.
   Curinga. Era verdade. Ela lhe deixou o garanho, o cavalo que poderia transformar a lucrativa fazenda numa mina de ouro. O animal que havia sido conquistado pela
policial pequena, mas determinada - a mesma visitante que virara a sua vida do avesso.
   - Eu ainda no entendo por que Kate fez isso - afirmou Grant, afugentando da mente o tema sobre o qual ele no queria especular neste momento.
   - Kate era uma mulher generosa, filho. A me falou de um modo mais severo.
   - Desculpe, me. Eu sei que voc gostava muito dela. No quis parecer ingrato. Eu apenas continuo... perplexo, acho.
   - Eu sempre tive medo de que voc se sentisse um pouco... abandonado.
   - No por isso - afirmou ele. - Eu at agradeo por no fazer parte do melodrama. Eu sou um simples fazendeiro, um caipira, no saberia lidar com todas essas
armaes.
   - Simples caipira... - A me manteve a voz severa, mas Grant percebeu, ao fundo, o riso camuflado. - Eu gostaria que Kate tivesse vivido para ver tudo isso. Ela
amaria saber que o seu beb est vivo e bem.
   - Beb? Ele ja no tem quase 40?
   - Voc sabe o que eu quero dizer. Todo mundo se referia a ele assim, pois Kate mal o colocara no colo antes do rapto. Alm do mais, quando voc ama o seu filho,
ele vai ser sempre um beb.
   - Eu sei, me - afirmou Grant, captando a mensagem bvia. Ele nunca duvidou do amor da me, porque ela nunca perdia uma oportunidade de declarar-lhe isso. - Quer
dizer que Ben sabia mesmo do rapto durante todo o tempo?
   - Isso  o que a carta deixada por Monica para Brandon diz. Ainda no d para acreditar que ele  filho de Kate. Monica no podia ter filhos e, quando viu que
Kate teria gmeos, chantageou Ben para que ele lhe desse Brandon.  inacreditvel que ele tenha feito isso com a famlia.
   Grant riu.
   - Eu no ligaria se por acaso tivesse lao sangneo com Kate, mas de Ben Fortune eu fao questo de ficar longe.
   A me silenciou-se. Por muito tempo. Grant ps os ps de volta no cho.
   - O que foi, me?
   - Ns... descobrimos algo mais. Estava em todos os jornais aqui meses atrs, mas voc provavelmente no sabe por que Jake estava atendendo s demandas de Monica.
Isso surgiu quando Jake foi preso pelo assassinato de Monica.
   Grant expirou com fora. Fatigado dos dramas da famlia Fortune. Sua me estava consternada, ele no gostava disso. Talvez fosse o caso de lev-la para passar
uns dias na fazenda, afast-la da confuso. Todavia, ele se conteve para no piorar as coisas. Afinal, o cunhado dela estava preso, sendo processado por um homicdio
qualificado.
   - O qu, agora?
   -  sobre Jake. - Ela hesitou, e ele no pressionou. Havia muito que aprendera que a me tinha o seu prprio jeito de chegar at as coisas. - Ns descobrimos...
que ele no  filho de Ben.
   Grant ficou paralisado. - O qu?
   - Aparentemente, Kate j estava grvida quando ela se casou com Ben. A criana, no entanto, no era de Ben. O verdadeiro pai de Jake foi morto na guerra.
   Grant assobiou baixinho.
   - O que isso significa? Jake no  herdeiro da grana... dos Fortune?
   - No sei ao certo. As coisas esto... um pouco confusas.
   - Disso, eu no tenho dvidas. E como est Nate?
   - Ele est... muito estranho. Ele foi falar com Jake, mas no me disse ainda como foi a conversa.
   - Me...
   - Ah, mas ele vai dizer. Em algum momento. O seu padrasto tem o jeito prprio de fazer as coisas.
   O seu padrasto. Engraado, mesmo com a me casada com Nate por 25 anos, ele no se acostumava com a idia do dinmico, poderoso e ambicioso Nate Fortune como
seu padrasto.
   - Parece que Jake e Erica esto se reconciliando. O queixo de Grant caiu.
   - O qu?
   - Tudo isso os aproximou de novo. Eu acho que Jake caiu em si e viu agora que realmente precisa dela. E eles se amam mesmo.
   - Eu estou... atnito.
   E tambm contente, mas no sabia ao certo por qu. Ele no entendia como Erica aturou a personalidade exigente de Jake por tanto tempo, mas a notcia de que,
apesar das adversidades, eles estavam lutando pela relao lhe deixou, inexplicavelmente, alegre.
   - As coisas vo se arranjar - afirmou a me, com o tradicional otimismo. - E como vai a sua hspede?
   - D? - Como se houvesse outra visitante na casa, Grant pensou. Mas como no tinha uma resposta pronta para a questo, ganhava tempo.
   - D? Meu Deus, no ouvia esse apelido desde que vocs eram crianas.
   - Eu... Ns, pode-se dizer, retomamos o hbito.
   - Est tudo bem com ela? Kristina est muito preocupada com a amiga.
   - Eu acho que ela est lidando bem com... aquilo.
   - Que bom. Ela  uma garota maravilhosa. Odeio imagin-la magoada. Ela est por a? Kristina vai chegar em um minuto, tenho certeza de que vai querer falar com
a amiga.
   - ... Ela est l fora. Um minuto.
   Grant colocou o telefone sobre a mesa e levantou-se:
   - Aposta. - O co, que descansava sobre um tapete perto da pia, veio de imediato. - D - disse o dono.
   O cachorro correu enquanto Grant abria a porta da casa.
   - Encontre D, garoto. Encontre...
   Aposta latiu uma vez, de forma abafada, o que sinalizava que compreendera a misso. Ele assistiu ao cachorro cruzar o jardim em direo ao galpo, como se o animal
soubesse exatamente a localizao de D. Aposta sabia sempre onde encontrar a todos no seu mundo. No mundo ordenado, em harmonia, do pastor australiano.
   O cachorro, provavelmente, habitava um mundo muito melhor do que o do dono, o seu suposto mestre.

   Captulo 12

   Doris no saberia precisar por quanto tempo observava ali a potranca, quando Aposta surgiu de novo no galpo. O cachorro latiu, como se tentasse atrair sua ateno.
Junto  porta, a encarou com a cabea virada, pois tinha o corpo j pronto para sair. Latiu novamente, avanou dois passos e tornou a parar.
   - Eu acho que tenho que te seguir.  isso? - checou Doris. Ela caminhou em direo ao animal, e Aposta imediatamente latiu em aprovao e partiu. - Eu sempre
adorei os filmes da Lassie - disse Doris, rindo.
   Era bvio que o animal ia para casa. Quando ela se lembrou do ltimo chamado do cachorro, na noite passada, o seu corao disparou. Alguma coisa estava errada?
Grant tinha se machucado, ou...?
   Com uma careta, se repreendeu: Voc assistiu a filmes demais da Lassie. Mesmo assim, apertou o passo e, logo, seguiu o co cozinha adentro.
   - ...muito melhor, eu acho.
   Ela ouviu a voz dele no mesmo instante, aliviou-se por v-lo bem e se sentiu estpida por isso. Grant, sentado em uma das cadeiras de madeira da cozinha, falava
ao telefone.
   - Est, sim - afirmou ele, olhando de relance para ela. - Ela mesmo a pode te dizer.
   Grant levantou-se e lhe passou o aparelho. Doris mostrou-se intrigada.
   - Kristina - disse ele, curvando-se para coar a cabea de Aposta. - Bom garoto.
   Doris fez cara de espanto.
   - Voc mandou ele me chamar, e ele foi l e me chamou?
   - Ele sabe quem voc , e ele conhece o comando "encontre". No  nada especial. - Grant saiu dali para que ela pudesse ter privacidade.
   - Doris?
   Precisou de um tempo para responder. Havia se acostumado com D, e o prprio nome lhe soava esquisito agora.
   - Oi, Kristina. Feliz Natal.
   - Para voc tambm - disse a amiga. - Est sendo um Natal agitado por aqui. Tem um monte de coisas acontecendo. Papai est em estado de choque com a descoberta
sobre o tio Jake e o vov. Mame est tentando ajud-lo, mas... Grant vai te contar tudo. Mame j falou para ele. Me fale sobre voc. Como esto as coisas?
   - Eu estou bem. - No estava mentindo, Doris pensou. Em relao ao que Kristina se referia, estava bem. Era o resto da vida dela que, subitamente, se embaralhou.
   - Voc no parece bem - disse Kristina.
   Doris, tirando a grossa jaqueta na cozinha aquecida, apressou-se em acalm-la.
   - Eu estou bem, Kristina. Srio. Me sinto muito melhor... no que diz respeito a Nick. Estou administrando melhor a situao.
   - E os pesadelos?
   Doris apertou o telefone ao relembrar-se da noite em que o pesadelo terrvel lhe espantou da cama e da casa. Relembrou-se da ternura e da gentileza Grant.
   - Acho que eles no voltam mais - afirmou ela.
   - Ento ajudou. Eu achava que ajudaria. Voc sempre foi daquelas que precisam ficar sozinhas para resolver as coisas.
   s vezes, a percepo de Kristina a pegava desprevenida. Era fcil desdenh-la como a princesinha mimada, mas havia mais do que apenas uma loura bonita nela.
   - E Grant ouve mais do que fala - completou Kristina. A percepo da amiga pegava-lhe mesmo no contrap.
   -  - concordou ela.
   - A gente est sentindo muita falta dele, mas eu odiaria que voc ficasse a sozinha. Fiquei feliz que ele no tenha vindo.
   Doris sentiu um n na garganta.
   - Desculpe se eu atrapalhei os planos da famlia.
   - Claro que no. E muito mais importante que voc no fique solitria. E Grant no morre de amores pela festa daqui. Ele vem todos os anos somente para nos ver.
   Doris suspeitava disso. No entanto, a confirmao de que Grant adiara a tradicional visita  famlia por causa dela, para que ela no ficasse s, a deixou sem
palavras.
   - Se pudesse, eu acho que Grant nunca tiraria os ps dessa fazenda sem graa - afirmou Kristina, com claro afeto pelo irmo.
   Doris se esforou para engolir o n na garganta.
   - Eu queria te agradecer por... sugerir minha vinda para c. Tem sido maravilhoso. Muita paz, e  tudo lindo.
   - Lindo? Paz, tudo bem, mas lindo? Eu j estive a, no esquea.
   -  tudo muito agradvel, e com a neve...
   - Tivemos neve aqui tambm, mas pelo menos ela est cobrindo coisas interessantes, e no galpes, cercas e vacas.
   - Gado - corrigiu Doris.
   - Meu Deus, voc est falando como Grant. No me diga que voc realmente gostou disso a. No h uma loja e uma manicure decentes em quilmetros.
   - Voc  urbana de corpo e alma, uma verdadeira mulher da cidade - afirmou Doris, para em seguida desejar engolir de volta as prprias palavras.
   Kristina somente gargalhou.
   - Sou, mesmo. - E, de repente, sria, acrescentou: -Parece que eu estou vendo Grant falar de novo. Ele ainda est... desgostoso com a vida?
   - Como assim?
   - Amargo em relao a mulheres da cidade.
   - Eu... Ele no parece gostar muito delas.
   - Tambm, depois do que aquela bruxa fez com o meu irmo.
   Doris ficou muda. Ela pressentia que havia algo, ou algum, por trs da amargura de Grant. Era algo muito especfico e concentrado para que no houvesse nada.
   Ele tem as suas razes.
   As palavras de Rita faziam sentido agora. Obviamente, um desses motivos era a mulher que Kristina mencionara.
   - Bruxa? - perguntou Doris, tentando no demonstrar muito interesse. A tagarelice natural de Kristina faria o resto.
   - Constance Carter. Ela  scia do Country Clube que o meu pai freqenta. Foi ali que os dois se conheceram poucos anos atrs. A mulher agiu como se tivesse realmente
apaixonada pelo meu irmo, mas ele no era nada alm de um brinquedinho para ela, o caubi bonito e extico que ela gostava de exibir nas festas, No entanto, quando
Constance descobriu que ele no tinha nenhuma inteno de se mudar da fazenda para a cidade, ela terminou tudo. Disse no acreditar que Grant pensava que ela moraria
num lugar incivilizado.
   A voz de Kristina tremia com a raiva despertada. Muitos s veriam o verniz de beleza e charme, mas Doris sempre soube que a lealdade familiar era um dos pilares
de Kristina Fortune. Tanto era assim que mal se dava conta da ironia da situao: Ela e Constance Carter tinham a mesma opinio sobre a fazenda do irmo.
   - ,  bem isolado este lugar - disse Doris.
   - Isso voc no precisa me dizer - Kristina riu. - Eu j estive a, no se lembra? No sei como mame viveu tanto tempo a. Ela  muito mais feliz na cidade,
com as pessoas em volta.
   Doris teve um outro estalo. As trs principais mulheres da vida dele, a me, a irm e aquela que aparentemente amou o suficiente para se casar, Grant perdeu para
a cidade. No era de se admirar o jeito como falava garota da cidade, era quase como um xingamento. Quem poderia culp-lo por isso?
   Aps terminar a conversa com a amiga e dar um breve Feliz Natal para a me de Kristina, ela continuou a refletir. Desligou o telefone, vestiu a jaqueta e caminhou
para o jardim, pensando. Especulando.
   Ser que a reao de Grant nesta manh, a conversa de que ele no esperava nada que no fosse a volta dela para a cidade era um aviso para ele, e no para ela?
Um alerta de que ela, como todas as mulheres da vida dele, sempre voltam para a cidade? Ser que Grant estava somente antecipando o que ele via como inevitvel e
tentava tornar as coisas menos dolorosas para ambos?
   O que ele via como inevitvel?
   Os pensamentos se desdobravam com rapidez na mente de Doris, ela abotoou a jaqueta para se abrigar do ar mais frio.
   Ele estava certo. Era mesmo inevitvel. Ela iria embora. Ela tinha que ir embora. No apenas para enfrentar os assassinos de Nick quando eles fossem capturados,
mas para combater os seus prprios demnios, libertados no momento em que ela descobriu que chegara tarde demais para salvar o parceiro, que respirou pela ltima
vez nos seus braos.
   Doris tremeu, violentamente, e isto no estava relacionado ao frio. O dia estava ensolarado, e o sol se fazia sentir, mesmo num dia de inverno com neve por todos
os lados. Ela apertou o passo, apesar de saber que aquilo pouco seria eficaz contra o arrepio que sentia.
   Claro que voltaria. A vida, o trabalho dela estavam na cidade. O que mais ela faria? Se Esconderia para sempre? Um lampejo inesperado explodiu dentro dela, um
desejo de permanecer ali, para sempre, com Grant.
   - Covarde - acusou-se. - Voc deixou mesmo a sua coragem naquele depsito.
   Trincou os dentes, abaixou a cabea e apressou-se ao ponto de quase correr. Finalmente, a altitude de Wyoming e os pulmes sem ar lhe foraram a reduzir o ritmo.
   Ela andava sem um destino definido e no se surpreendeu quando enfim notou que no havia mais nada a sua volta. Avanou mais, desejando contar com as pernas longas
e a fora de Curinga para carreg-la. Nunca, contudo, ousaria cavalgar sozinha no garanho. E estar sozinha era o que mais precisava neste momento.
   Nunca se sentira to impotente na vida diante de suas emoes e sentimentos conflitantes. A morte de Nick a consumira graas  sensao de culpa, s dvidas em
relao  profisso que escolhera. Agora, administrava melhor tudo aquilo. No perfeitamente, mas melhor.
   O seu mundo virou de pernas pro ar quando acrescentou nele a paz, a beleza deste lugar e a presena forte do homem fruto daquele mundo. Sentia-se to dividida
que no imaginava a possibilidade de recompor-se um dia.
   Precisou tirar as mos do bolso para tomar impulso e enfrentar a subida at o abrigo natural do rochedo, com vista para a fazenda. As pedras voltaram a proteg-la
do frio assim que ela alcanou o topo. De todos os lugares tranqilos que Grant lhe mostrara, fora este aqui onde ela encontrara mais paz de esprito.
   Seria estranho que ela desfrutasse deste local que para alguns representaria isolamento? Haveria alguma coisa estranha nela, algo que no conhecia, que a fazia
deparar-se com serenidade onde os outros encontrariam somente solido? Seria estranho que ela, em vez de ficar falando, preferia um lugar quieto, recolhido para
pensar sobre a vida... e sobre o que iria fazer com o resto de sua existncia?
   Eu costumava vir muito aqui. Quando o meu pai estava doente, eu me escondia aqui, quando chegava ao meu limite.
   As palavras de Grant ainda estavam ali, no mesmo tom compreensivo. Ele sabia, sentira-se do mesmo modo. Ela no era to estranha quanto temia.
   Tinha razo sobre as cicatrizes que Grant carregava, embora ele fosse muito mais discreto em relao s mgoas do que ela, pensou Doris diante da paisagem j
familiar, mas no menos inspiradora por isso.
   Sentada, trouxe os joelhos para junto do corpo e os abraou, escondendo as mos por dentro das mangas da camisa. Ela vestira um agasalho mais quente e um par
de meias grossas.
   Colocou tambm um suti, pois estar sem ele fazia com que se lembrasse de Grant a gemer ao tocar em seus seios. Esqueceu-se, no entanto, das luvas. Protegida
pelas pedras, sentia menos frio do que na subida, quando o vento deixava claro a sua opinio sobre os insensatos que se arriscavam pelas serras.
   , mas se ela tivesse algum senso, como pai costumava dizer, no teria em momento algum entrado para a polcia. Anos depois, o conselho paterno parecia bem mais
razovel. A contrariedade, contudo, no impediu Gordon Brady - uma vez a filha formada - de orgulhar-se dela, como se o uniforme fosse o que ele sempre sonhara para
sua menina.
   Doris suspirou, saudosa da sabedoria crtica do pai e do apoio silencioso da me. Todavia, se estivesse com eles, no teria vivido esta temporada com Grant, da
qual nunca se arrependeria. Por nada, apesar da confuso em que se metera, abriria mo das lembranas do que nascera entre os dois. Especialmente, quando essas memrias
podem vir a ser a nica coisa a lev-la adiante nos provveis dias sinistros e difceis que se aproximavam.
   No incio, sempre se alegrava ao voltar ao trabalho depois de uma folga ou frias. Mais tarde, o contato naqueles perodos com situaes amenas transformou o
retorno  rotina num sofrimento.
   Os colegas diziam que fazia parte da profisso e que era melhor se habituar, mas ela duvidava da possibilidade de se imunizar aos horrores dirios. No havia
escolha. Ou ficava brutalizada ao ponto de no ligar mais para nada, ou permitia que o terror lhe corroesse a alma at que odiasse a raa humana e a si prpria.
Ao invs de cuidar do bem-estar do prximo, o policial acabava se tornando um perigo. E havia s uma coisa pior do que isso.
   Um policial que perdesse a coragem.
   Ela tremeu, esfregou os braos. Ponderou se j no deveria voltar para a fazenda, pois estava fora h...
   Um relincho interrompeu seus pensamentos. Curinga, Doris cogitou, admirada ao reconhecer o animal pelo rudo.
   Se era mesmo Curinga, Grant obviamente vinha junto. Doris mordeu os lbios e se esforou para manter uma calma aparente. No demorou para que homem e cavalo aparecessem.
Grant parou o grande appaloosa no mesmo ponto em que permanecera da ltima vez. Quando ele falou, exibiu uma voz serena e indiferente o bastante para que ela percebesse
o empenho dele para isso.
   - Eu sabia que voc estava aqui.
   - Eu... precisava pensar.
   - D, se  sobre essa manh...
   - No - cortou Doris. - Quero dizer... No, inteiramente - corrigiu-se, honesta. - Tambm. Mas  na verdade tudo.
   Em silncio, Grant a examinou.
   - Tudo? - finalmente perguntou, com a mesma voz baixa.
   Ela olhou alm dele, para o rancho nevado, para o horizonte. Desta vez, algumas nuvens encobriam os picos das montanhas.
   - Eu me sinto como... se eu tivesse me encontrado e me perdido de novo ao mesmo tempo - murmurou Doris.
   Grant no disse nada. Ele bateu em Curinga de leve e o cavalo se abaixou at que o joelho do dono pudesse tocar a extremidade da rocha que formava o abrigo. Grant,
com um movimento, desmontou e sentou-se ao lado dela. Arremessou as rdeas por cima da cabea do garanho, que de imediato abaixou a cabea, em posio paciente
de espera.
   Por um tempo os dois ficaram ali, sob a pedra, a fitar o horizonte. Quem sabe ambos tm medo de se olharem, Doris avaliou.
   - Sua vinda  fazenda era supostamente para... te ajudar - recordou Grant.
   - E me ajudou - rebateu Doris, com franqueza. - Ajudou bastante. Eu agora penso em Nick e... no choro. No tenho mais os pesadelos, no como antes. Eu encontrei
paz aqui, Grant.
   - Se isso  o que voc encontrou... - Ele hesitou, deu mostras de que no queria fazer a pergunta, e, quando fez, seu tom de voz saiu forado. - O que voc perdeu?
   Doris suspirou. Grant aguardou um momento e comentou, formal:
   - Isso no  da minha conta.
   - No, no  isso! - Ela tornou a encolher e abraar os joelhos. -  apenas que quando eu penso em regressar ao trabalho, eu no me sinto da mesma maneira que
antes.
   - Como voc se sente agora? Relutantemente, Doris prosseguiu:
   - Desde que eu me habituei  fazenda... Desde que eu vi a paz e a beleza daqui... - Ela fechou os olhos e apoiou o queixo nos joelhos. Difcil admitir aquilo,
mas bem no fundo sentia que se havia algum que no a julgaria por isso, essa pessoa era Grant. - Acho que eu... perdi a coragem, no tenho mais o sangue-frio necessrio
para ser policial.
   - Voc? De jeito nenhum.
   Ele soou verdadeiramente incrdulo, de um modo que amenizou a angstia dela. Entretanto, nem mesmo o assombro de Grant com a idia afugentou o sentimento.
   - Obrigada, mas eu no posso mudar o que estou sentindo. Eu costumava ficar ansiosa para voltar, pronta para ir s ruas e dar combate, tentar resolver as coisas.
Agora, eu fico s me perguntando para qu. As pessoas vo continuar agindo da mesma maneira, e a minha pequena contribuio no vai nem mesmo fre-las.
   - No so todas as pessoas que so assim - afirmou Grant.
   - Eu sei, mas so as que so que os policiais vem.  a natureza do trabalho. E ao pensar em lidar com outro cafajeste como um dos malditos que mataram Nick...
No me faz feliz o fato de poder ajudar a tir-los de circulao. Tudo isso me... enoja.
   Ela sentiu a mo de Grant no seu ombro e, enfim, virou-se para ele.
   - Voc no perdeu o sangue-frio para o trabalho, D. Voc apenas no tem mais estmago para isso. So coisas diferentes.
   Nos olhos dele ela encontrou todo o conforto e compreenso que poderia num momento de falta de autoconfiana. E deu-se conta de que Grant buscava somente livrar
ambos de uma desiluso incmoda, confrontando de cabea erguida a conscincia de que no havia futuro para os dois juntos. Mesmo se ela abrisse mo de uma vida inteira,
Doris duvidava de que Grant confiaria numa mulher da cidade, a ponto de deix-la ali ficar.
   - Voc tem mais sangue-frio do que qualquer um que eu conheo, D - afirmou ele. - Nunca duvide disso. Mas voc tambm ... piedosa. Voc sente as coisas, profundamente.
E talvez voc esteja cansada de tentar resolver as coisas para quem no liga ou no quer ter os seus problemas resolvidos.
   Doris sussurrou o nome dele e se calou, sem pensar em algo mais para falar. Ento, lentamente, no muito certa de que deveria, mas incapaz de conter-se, virou
o corpo e o beijou.
   Grant assustou-se, e ela imaginou que criava mais problemas para si prpria. Logo, contudo, ele a beijava e a abraava, quente e acolhedor.
   Ao primeiro toque da lngua de Grant, Doris separou os lbios para que ele explorasse sua boca. Grant afastou-se um segundo, o suficiente para arrancar as luvas
e, antes que Doris pudesse recuperar o flego, acariciou com os dedos os cabelos dela. Eles estavam soltos. Ela no mais os mais os prendera desde que Grant, na
noite passada, lhe sussurrara o quo bonitos eram daquele jeito.
   Ele empurrou a cabea de Doris para tornar a beij-la, mais selvagem desta vez. No hesitava, a tomava como quem reclamava um bem. Ela permitia, torcendo pela
primeira vez na vida que um homem, este homem, assim de fato agisse.
   Doris se apertou contra ele, beijando-o de volta, faminta, sem se importar por trair por completo a sua auto estima. Sem se preocupar com nada que no fosse este
homem. Quando uma das mos fortes dele deslizou para desabotoar a jaqueta dela, em vez de mostrar resistncia, ela se moveu para facilitar o ato. Soltou um gemido
de satisfao no momento que Grant deslizou a mo dentro do casaco e tocou um de seus seios. Comprimiu-se mais contra a palma da mo dele, desejando que no houvesse
tanto tecido entre os corpos de ambos.
   Grant afastou-se suavemente para deit-la ao seu lado, sob folhas de pinho de aroma adocicado. Ela se contorceu Para chegar mais junto dele. Como pde um dia
chamar este pequeno abrigo de frio? Estava mais do que quente agora. O granito se transformaria logo em lava com o calor dos dois, imaginou Doris.
   Juntos buscavam os corpos um do outro. Lutavam contra o jeans que vestiam. Quando as mos enfim descobriram  a pele nua, simultaneamente, suspiraram ao toque
suave. Ela percorreu o contorno dos msculos da barriga e do trax de Grant. Ficou imvel, porm, quando ele encontrou seus seios e acariciou-lhe os mamilos com
o polegar, o tecido fino do suti transformar-se num incmodo.
   Trmulas, as mos dela seguiram para a cintura de Grant. Novamente pararam, pois os suaves toques em seus mamilos rgidos dispararam uma vibrao de calor pelo
seu. Ela apertou o quadril dele, na tentativa de aproxim-lo. Com outra mo, Grant segurou o punho dela. Delicadamente, ele colocou a mo de Doris sobre sua ereo,
mais do que evidente. Ela sentiu a pulsao quente, mesmo sobre o jeans, e percorreu a sua extenso com um ritmo vagaroso. Grant gemeu. Ela repetiu a carcia, desta
vez descendo ainda mais, at o quadril dele se contorcer de forma convulsiva.
   - D... - balbuciou Grant, sem ar.
   Ela repetiu o movimento, e as mos dele, bruscamente, a seguraram pelos ombros.
   - D, pare.
   - Voc no... gosta?
   Grant sorriu, uma risada baixa e rouca.
   - Voc est perto de descobrir o quanto eu gosto aqui mesmo, debaixo desta droga de pedra.
   Doris observou o brilho nos olhos dele e espiou em volta, na alcova improvisada. Como mgica, o rochedo bloqueava o frio e conservava o calor possvel de um dia
de sol no inverno. Encarou-o e riu tambm.
   - Est um pouco frio, mas... acho que eu gostei da idia.
   Grant gemeu, um som intenso como o rudo que ele liberou quando ela o acariciava. Parecia que as palavras lhe afetaram tanto quanto o toque.
   - Se por um minuto eu acreditasse que voc quer isso mesmo... - afirmou Grant.
   - Mas eu quero - replicou Doris. - Este lugar ... especial.
   Ela no disse que essa seria uma recordao como essa que guardaria como tesouro num futuro prximo - quando deixaria a fazenda -, mas suspeitou que Grant deduzia
o mesmo. Algo nos olhos dele transmitia isso, alguma coisa naquela profundeza azul revelava que Grant tambm visualizava este momento como uma recordao. Doris
admitiu para si que um motivo totalmente egosta a incentivava. Ela queria uma lembrana dela sempre com ele, impressa neste lugar especial, a lembrana da nica
garota da cidade grande que o caubi no odiara.
   Num movimento gil o bastante para que ela no se desse conta, Grant despiu-lhe casaco e usou como apoio para a cabea dela. Beijou-a, profundamente; tamanha
era sua excitao que seus dedos se atrapalharam com o boto e o zper do jeans dela. Doris esticou o brao para ajud-lo, mas Grant deslizou a mo dela para o zper
dele.
   vida, ela tambm se atrapalhou, mas terminou por desabotoar a cala. Depois, a presso insistente da excitao dele a auxiliou com o zper. Ela abriu a cala
para t-lo em suas mos, quente e duro, com a textura do cetim. Grant gemeu longamente ao toque da mo dela, ao sentir seus dedos em vontade seu sexo e seu polegar
sobre a glande dilatada, espalhando a umidade ardente dele.
   Foi a vez de Grant explorar o mundo escondido entre o jeans e a calcinha dela, descendo o jeans at abaixo dos joelhos. Doris sabia da dificuldade daquilo, da
insanidade de fazer amor sob uma pedra, em jeans e botas, mas no dava importncia, contanto que ele no a deixasse esperando demais.
   O desejo era intenso, e somente Grant poderia alivi-la. O vazio que s ele podia preencher.
   - D - disse ele, sem flego. - Pare. Isso  maravilhoso demais. No posso agentar mais.
   Grant interrompeu a dana que as mos dela faziam, ainda ocupadas com o membro firme dele, e as trouxe para a posio segura do seu trax. Ele arrancou a bota
esquerda, para assim livrar uma das pernas da cala. Doris arrepiou-se. O corpo dela sabia que o que tanto desejava no lhe seria negado. Logo, logo, teria Grant
de novo dentro. Ele a preencheria, a invadiria com aquele volume vigoroso e a transportaria para alm da loucura.
   Grant retirou sua jaqueta, grande e pesada, e os cobriu com o casaco. Antes, retirou um preservativo do bolso do agasalho. Ela excitou-se por flagr-lo prevenido,
apesar de toda a relutncia. Ele deitou-se sobre ajeitando seu membro em meio  roupa. Ao primeiro toque da masculinidade premente dele, Doris gritou de contentamento
e se curvou ao encontro dele. Grant cobriu a boca dela com a dele, bebendo aquele grito. Ela sentiu que ele estremeceu ao deslizar para dentro do calor acolhedor
dela.
   Era sem dvida nenhuma insano, Doris concluiu com o nico espao da mente, no absorvido pela fora do corpo que danava sobre ela, sem parar. De certa forma,
a insanidade propiciava quilo uma nova dimenso. O cenrio, a proteo de pedra em meio  natureza bruta, adicionava ao ato deles um elemento selvagem, que somente
poderia ser encontrado ali. Como o ambiente que os cercava, os dois se tornavam primitivos, ferozes, agarrando-se um ao outro por desejo puro, por necessidade. O
instinto em toda a sua glria.
   No final, quando os dois juntos explodiram, Grant gritou o nome dela, e Doris gemeu o dele. Os dois rudos se misturaram em um nico som, bsico, selvagem, como
qualquer coisa que vivia neste lugar indomado.

   Talvez suporte, Grant pensou com D agarrada a ele, e os dois sentados sobre Curinga, de volta  fazenda. Talvez suporte a cidade em pequenas doses, suporte ficar
longe da casa. Talvez agente o suficiente para estabelecer algum tipo de relao. D aparentava gostar sinceramente daqui, e embora ele no esperasse que ela se
adaptasse por completo e ficasse para sempre, sua amada poderia visit-lo com a freqncia necessria para que os dois projetassem algum tipo de futuro para eles.
   D no o foraria a tomar uma deciso, como fizera Constance, Grant previu. Ela era franca e honesta demais para uma atitude dessas, e j notara que o corao
dele morava aqui e daqui nunca sairia.
   Mas tudo isso serviria para qu? Um namoro  longa distncia, abastecido por viagens de avio e telefonemas? Perodos de saudade sofridos, quebrados por reencontros
intensos? Nesse caso, a paixo da ausncia borraria a realidade de uma vida a dois, quando o casal alcanava uma unidade.
   A sua me experimentava essa unidade com Nate. O homem decidido e ambicioso virava gelia nas mos dele. A lembrana da me com sugeriu-lhe algo: as diferenas
entre sua me - realista, calorosa e sincera - e Nate Fortune - ambicioso, estourado e insatisfeito - seriam maiores do que as existentes entre ele e D? O caubi
e a policial seriam um casal ainda mais implausvel? Eles poderiam construir algo a partir dessas diferenas, como fizeram a me e Nate? Como Jake e Erica?
   Todos os antigos sinais de alerta soaram juntos dentro dele, mas no pareciam penetrar a camada de calor persistente que ainda o aquecia depois do sexo com D.
A partir de agora, o abrigo natural com vista para a fazenda ficaria para sempre ligado  D, relacionado com a meiguice dela, com a entrega honesta e com aquele
prazer incrvel, atordoador, indito.
   Poderia ser chamado de tolo por imaginar que os dois tinham chance de dar certo. Mas poderia vir a ser ainda mais todo se desse as costas para o que experimentava.
Mesmo se aquilo no durasse, se no pudesse durar. Mesmo se fosse somente pelo tempo que ainda restava e t-la ali.
   Curinga relinchou ao avistar o galpo. D no pronunciara uma s palavra durante o percurso. Grant ponderava consigo sobre o que ela pensava. Ser que D se arrependera
do que fizeram? Dos momentos de loucura quando se possuram um ao outro como duas criaturas nascidas em lugares selvagens?
   - D?
   - O qu? - Ela pareceu... esquisita, mas no desapontada.
   - Eu acho que a gente precisa conversar.
   - Eu tambm acho.
   - Eu s vou guardar Curinga e volto para casa.
   - Tudo bem - respondeu ela, ainda com o tom de voz estranho.
   Grant deixou D em casa e seguiu para o galpo, onde daria ao garanho algo doce para comer. O animal merecia pela pacincia que tivera enquanto os dois humanos
o ignoravam. Ele checou a gua e a potranca. Tudo bem.
   Ao caminhar para casa, Grant encontrou D na sala de estar. Ao associar o telefone na mo dela com a expresso em seu rosto, ele desejou que os cabos da companhia
telefnica passassem a quilmetros da estrada principal.
   Ela percebeu a chegada dele e no falou nada, claramente atenta ao que lhe diziam do outro lado da linha. Depois de um tempo, D enfim afirmou:
   - Tudo bem. Eu te informarei exatamente quando. - E desligou o aparelho.
   Virou-se ento para ele, que temeu pelo pior. Ele sabia que o pior viria. Suspeitou que ela soubesse que ele sabia, mas mesmo assim D lhe disse. Como se o fato
s fosse se tornar fato depois que ela lhe contasse.
   - Eles prenderam os assassinos. Os primeiros depoimentos esto marcados para segunda-feira. Eu tenho que voltar.


   Captulo 13

   Se ele continuasse assim, Grant pensou, a droga da fazenda iria falir. Era hora de parar com isso. Precisava concentrar-se no trabalho e no gastar metade do
dia nas nuvens, pensando em D, aflito pelo bem estar dela. E imaginando o que teria acontecido se os dois tivessem conversado como pretendiam.
   Sentiu um calafrio repentino. Por que ela no havia falado nada com ele? Como pde simplesmente voltar para aquela confuso, sabendo de todo o perigo que corria?
   Grant entrou com a sela no depsito e bateu a porta. Walt, que sentado remendava uma rdea - o tipo de trabalho que D faria para ele - , pulou de susto.
   - E melhor voc se curar do que est te moendo, garoto - aconselhou o ajudante. - Enquanto ainda continua inteiro.
   - Nada est me moendo.
   - Est certo. Voc est ouriado igualzinho a um lince engaiolado desde quando a senhorita foi embora.
   Grant jogou a sela, sem cerimnia, numa das prateleiras.
   - Eu no estou ouriado.
   Walt o examinou e em seguida comentou, sem exaltao:
   - Todo mundo aqui est preocupado com ela, Grant, desde quando aquele seu amigo detetive te disse o que estava acontecendo.
   Grant, frustrado e com a voz baixa, soltou um palavro. Ele telefonara para Gabe Devereax, o detetive particular que Rebecca Fortune contratara para investigar
a morte de Kate, porque a me insistira que o homem tinha amigos na polcia. Grant queria assegurar-se de que D estava devidamente protegida durante os depoimentos.
Caso contrrio, no teria se metido no assunto.
   Foi ento que ele descobriu que o assassino de Nick Corelli e tambm o homem que matara o amigo do policial participavam da mesma quadrilha. Descobriu que D,
como nica testemunha, virara um alvo. Descobriu que tentativas j haviam sido feitas para silenci-la permanentemente e que isto tambm contribura para que ela
se refugiasse na fazenda McClure. Os superiores haviam ordenado que a agente sasse de circulao para o seu prprio bem.
   Grant praguejou novamente ao abrir com violncia a gaveta prxima ao banco e de l retirar um pequeno pedao de sabo para limpar a sela. Ele a limpou com afinco.
Aquilo deveria mant-lo ocupado.
   - Voc vai continuar batendo portas e gavetas, xingando a sombra, ou pretende fazer alguma coisa a respeito?
   Grant virou-se para o funcionrio, j idoso.
   - Como o qu, por exemplo? Walt no se intimidou.
   - V procur-la.
   O fato do conselho ser exatamente contra o que ele lutava desde que D fez as malas e partiu, no dia seguinte ao Natal, no o deixou menos impaciente. J decidira
sobre isso mais vezes do que poderia contar, mas mesmo assim a idia no lhe fugia.
   - Ela  a policial, no eu. Ela  treinada para lidar com...
   - Quadrilhas - cortou Walt, bruscamente.
   Grant reprimiu um outro calafrio. Bastava pensar em D enfrentando um gngster para que tremesse.
   - Voc a conhece - resmungou o patro. - Voc acha sinceramente que ela iria gostar se eu sasse ao seu encalo como quem vai atrs de uma criana?
   - No  porque voc pode tomar conta de si mesmo, que voc sempre vai querer ficar sozinho.
   Durante um longo momento de silncio, Grant ficou ali parado frente a frente com o funcionrio. Walt o encarava firme, antes de adotar uma expresso mais suave,
coisa rara nele.
   - Eu odiaria ver voc terminar como o seu pai, filho. Ele perdeu uma vez e nunca tentou de novo. Envelheceu e morreu aqui sozinho, sem ningum que no fosse eu
e voc.
   - Droga - praguejou Grant mais uma vez, mas agora num tom de rendio.
   Walt sorriu.
   - Vai l, garoto. A gente mantm o negcio funcionando aqui. Voc no tem ajudado muito ultimamente, mesmo.

   Quatro horas depois, Grant apertava o cinto de segurana no assento de um jatinho para Denver. De l, pegaria uma conexo para Minneapolis. No estava certo se
se sentia feliz com a deciso, mas tinha certeza de que no lhe restava outra coisa a fazer.

   Doris desistira do livro aberto sobre seu colo. Tambm no fazia sentido dedicar-se s anotaes que trouxera para casa, fruto da reunio com os detetives e os
promotores. No havia nada mais que ela j no soubesse.
   Assim, ela passava o fim de domingo aqui, no escuro, desejando estar s, de acompanhada no seu apartamento por um segurana, que assistia no pequeno escritrio
ao jogo de basquete dos Timberwolves. Em minutos, chegaria um outro guarda-costas para rend-lo.
   Eles quiseram hosped-la num hotel, mas Doris recusou. At onde sabia, a quadrilha dos homens que mataram Nick no sabiam o seu endereo, e ela ficara bastante
tempo longe para despist-los. Os seus superiores, porm, fizeram questo da segurana 24 horas. Eric Neilsen era o jovem policial que recebeu nesta noite a misso
de mant-la viva pelo tempo necessrio para que ela testemunhasse e reconhecesse oficialmente, na manh do dia seguinte, no tribunal, os assassinos de Nick. Eric,
dedicado e entusiasmado ao extremo, a fazia sentir-se velha, apesar de ele ser apenas dois ou trs anos mais novo. O garoto tornava ainda mais evidente o esprito
que ela havia perdido.
   A falao contnua do narrador da partida de basquete foi abruptamente cortada no meio de uma frase. Ela entrou em alerta, instantaneamente, especulando o que
teria feito o torcedor doente desligar a TV. Escutou ento que algum batia, com fora, alm do necessrio, na porta. Fechou o livro e se ps rapidamente de p.
Empunhou a arma que conservava, sobre o criado-mudo. Uma pistola semi-automtica Glock, leve e cinza.
   - Eric? - chamou Doris.
   - Estou checando.
   Ela seguiu rumo  sala para ouvir melhor o que ocorria. Eric perguntava quem era. Ela escutou somente a resposta abafada pela porta. Viu o policial examinando
atravs do olho mgico, com a pistola automtica 45 na mo.
   - Eu disse que ela no est - gritou Eric. Ao ver o guarda-costas levantar a arma, o corao dela acelerou.
   - Senhor, eu garanto que ir se arrepender bastante se tentar colocar esta porta abaixo.
   A adrenalina disparou. Ela cruzou a sala e tomou posio ao lado da porta, onde daria cobertura ao policial se o homem fosse estpido ao ponto de forar a entrada.
   - Isso parece estranho - cochichou Doris para Eric -Se eles quisessem entrar, no armariam essa confuso toda. Vou checar os fundos para ver se isso no  uma
manobra para desviar a nossa ateno.
   - Boa idia - concordou Eric. - Seria uma manobra e tanto, porque o cara parece um maluco com essa roupa de caubi.
   Ela parou no meio do caminho.
   -Caubi?
   - Com o chapu ridculo e tudo mais - informou o policial. - E voc poderia pensar que, pelo menos, o seu nome eles usariam para desviar a nossa ateno. - Eric
sorriu para Doris, sarcstico. - Talvez seja apenas algum bbado confuso batendo na porta errada, agente Brady. Alguns dos seus vizinhos atende pelo nome de D e
anda por a com algum palhao vestido com chapu e botas de vaqueiro?
   Ela quase deixou a arma cair.
   - O qu?
   - , foi isso que ele disse. Que estava aqui para ver D e que no iria embora at conseguir.
   - Meu Deus - sussurrou ela. Correu para checar o olho mgico. Embora j adivinhasse, o nome dele lhe escapou num longo suspiro: - Grant.
   Guardou a arma na cintura do jeans e, antes que Eric pudesse esboar qualquer reao, destrancou e abriu a porta.Grant pareceu confuso diante da rapidez com que
lhe foi aberta a passagem.
   Ela no conseguia falar nada, apenas o olhava. Ele deu um passo para frente, com os braos abertos, e o pulso dela acelerou, antecipando o contato. Grant, contudo,
se conteve ao ver Eric com a arma empunhada a centmetros dele.
   - Voc conhece esse cara? - indagou o guarda-costas, examinando Grant de cima abaixo. Ela entendia a razo. No seu surrado chapu, jaqueta jeans forrada e botas
desgastadas, Grant aparentava ser qualquer coisa menos um nativo.
   - Conheo - respondeu Doris, delicadamente. - Conheo, sim. Entre, Grant.
   Grant, por sua vez, no tirava os olhos de Eric e da pistola cromo 45. De pronto, o jovem policial guardou a arma no coldre e se afastou da porta. O visitante
finalmente entrou e ela fechou a porta.
   - Ento  verdade mesmo - disse Grant, sem prembulos, olhando o elegante e bem armado Eric. - Droga, D. Por que voc no me disse nada?
   - Grant...
   - Todo esse tempo, depois de tudo, voc nem mencionou que os caras tentaram te matar. Duas vezes.
   Como ele tinha descoberto? No importava agora, Doris pensou.
   - No havia razo para te contar. Grant arregalou os olhos.
   - No havia razo?
   - A gente se assegurou para eles no seguirem o meu rastro. Ningum na fazenda esteve sob risco...
   - Voc acha que  esse o problema? - gritou Grant, incrdulo. - Voc tem uma quadrilha no seu encalo, tem de ser protegida e acha que eu estou preocupado com
esse tipo de coisa?
   - Eu...
   - Droga, D, voc no acha que eu merecia a verdade, principalmente depois...
   Grant parou de falar de forma abrupta, olhando de lado para Eric. O garoto era provavelmente menos esperto do que ela pensava, pois somente depois de D virar-se
para encar-lo foi que ele se deu conta.
   - E... Eu acho que vou terminar de ver o jogo. - Eric voltou ao escritrio.
   Doris voltou a olh-lo. Meu Deus, ela sentira falta dele. Queria abra-lo, queria ser abraada por ele, apenas por um segundo, mas no ousaria agora. Se assim
o fizesse, ela nunca permitiria que o caubi partisse. E ele tinha que partir.
   - Por que voc veio aqui? - perguntou Doris, bruscamente.
   - Por qu? Eu descubro que uma quadrilha est tentando te matar, e voc me pergunta por qu?
   Uma onda de calor revolveu dentro dela. Grant importa-se com ela. Em parte ela j sabia isso, pois envolvimentos casuais no faziam o estilo dele. O que tornara
a relao entre os dois invivel foram as distncias, no apenas a geogrfica.
   - E exatamente por isso que voc deve ir embora daqui.
   - Me protegendo, D? Foi isso que voc fez na fazenda tambm, ao no me contar a verdade?
   Doris abaixou os olhos.
   - Voc no precisava saber.
   - Eu no precisava saber que alm da morte de Nick voc estava perturbada com o fato de terem tentado te matar duas vezes? Eu no precisava saber para o qu voc
voltava agora?
   - O que voc poderia ter feito?
   - Ter trancado voc na fazenda. Quem sabe? - rebateu Grant, melanclico.
   - Grant, eu tinha que voltar.
   - Sei. - Ele ajeitou para trs a aba do chapu. - E voc fez isso com pressa demais. Voc queria tanto voltar a ponto de virar um alvo novamente? Era isso melhor
do que ficar longe da cidade preciosa por mais um dia?
   A voz de Grant transmitia uma irritao que ela no compreendia.
   - Voc sabe que isso no  verdade...
   - Sei?
   - Deveria - contra-atacou ela. - Eu tinha que fazer isso, Grant. Voc no pode ver isso? Eu no posso mudar... o que eu no fiz, mas eu posso ajudar a conden-los.
   - D, pare com isso. Eu pensei que voc tivesse superado isso. Se voc tivesse feito algo, voc tambm estaria morta.
   - Eu... - Ela engoliu em seco e tentou de novo: - Era fcil superar tudo, ento. Havia a fazenda, a paz, tudo isso me fez acreditar. Mas aqui, onde Nick vivia,
lendo os mesmo relatrios de antes, vendo escrito l...
   Grant levantou as mos, como se fosse toc-la. Um tranco na porta fez os dois pularem de susto. Agradecida pela interrupo, ela checou no olho mgico.
   -  o substituto de Eric - disse, girando a maaneta, no momento em que o jovem policial aparecia no corredor, de volta  sala.
   - Murphy? - perguntou Eric. Doris fez que sim com a cabea e abriu a porta para o homem ruivo, mais velho, que a treinara na academia policial.
   - Oi, Murph - disse Doris.
   O policial acenou para ela ao entrar, mas teve a ateno capturada por Grant.
   - Quem  o caubi?
   O seu tom de voz foi de deboche, e Doris por um instante viu Grant como ele devia parecer para os mais acostumados com os homens urbanos. No entanto, onde eles
enxergavam algum para caoar, ela encontrava somente a beleza bruta, de presena forte, de Grant e a aura dos lugares remotos e selvagens que aprendera a amar na
companhia dele.
   Da mesma maneira que aprendera a am-lo, agora ali, em p, representando tudo que encontrara naquele mundo.
   Ela admitiu, o amava, aqui e agora, nos mais impossveis tempo e lugar. Reconheceu isso com a dor de algum apunhalado, pois Grant era um homem que merecia mais
do que uma mulher que deixara o parceiro de trabalho morrer, diante dos seus olhos, sem levantar um dedo sequer.
   - Ele ... um amigo - respondeu Doris a Murphy. O ruivo virou-se para ela.
   - Tire ele daqui, menina.
   - Eu estou tentando.
   - Ah, ele  teimoso?
   - Ele tambm - intrometeu-se Grant com a voz modulada - no liga muito se algum fala sobre ele na terceira pessoa mesmo quando presente.
   Murphy franziu a testa e encarou Grant novamente.
   - Teimoso e esperto?  para o seu prprio bem, cara.
   - Ele tambm no precisa dos cuidados de ningum.
   - Um discurso razovel para um caipira.
   - E uma lngua razovel para um tira.
   - Vocs querem parar? - cortou Doris, angustiada. -Murphy, feche a porta. Grant no fez nada alm de ajudar. Ele  o dono da fazenda para onde eu fui, OK?
   - Bem, eu vou indo - informou Eric, atento aos dois homens ao sair e fechar a porta.
   Murphy sorriu de sbito.
   - Ento o caubi  de verdade? Foi mal. Pensei que voc fosse um desses artistas de cinema ou sries de TV que se vestem a carter. - O policial olhou de relance
para Doris. - E a? Pronta para amanh?
   Grant riu.
   - Por que voc no usa parte dessa energia para bolar um jeito de tirar esses caras de circulao sem torn-la um alvo?
   Murphy balanou a cabea.
   - No d. A gente vai precisar do testemunho dela. Mas ela vai ficar bem, ns temos aquele tribunal cercado desde o instante em que agarramos os canalhas.
   Grant no pareceu convencido, e, de certa forma, isso aumentou mais a sensao de calor em Doris. Murphy retomou a conversa com ela.
   - Ns vamos ter que recapitular as coisas nesta noite, Brady. Voc sabe que eles vo se ater ao fato de que voc realmente no viu o tiroteio.
   - Ento ela vai ter que aparecer em pblico e dar a eles uma nova chance para peg-la? - cortou Grant, em tom beligerante.
   - Uma esquadra do nosso grupo para operaes tticas vai vigiar cada passo dela - explicou Murphy, comeando a demonstrar impacincia.
   - Eu vou ficar bem - disse Doris a Grant. - Eu tenho que fazer isso, Grant. Voc no entende? Eu preciso fazer pelo menos isso para conden-los.
   Por um longo momento de silncio, Grant a observou. Ela retribuiu o olhar como um apelo pela compreenso dele.
   - Eu no tenho como dizer o quo significativo foi... voc ter vindo aqui, mas voc no pode me ajudar, Grant. Ningum pode. Eu preciso enfrentar isso. Tudo isso.
   Um brilho distinto nos olhos de Grant relembrou a ela a ternura com que ele lhe mostrara os recantos de paz da fazenda. Um brilho que a deu esperana, embora
ela no ousasse dizer de forma clara e direta que tipo de esperana.
   Enfim, com um movimento lento e gentil, Grant ergueu uma das mos e lhe tocou a face.
   - Voc no perdeu nem uma gota do seu sangue-frio, D - declarou Grant.
   - Eu tenho que fazer isso - insistiu Doris, quase em desespero, pois tudo que desejava era voltar para casa com ele. E no a desconcertou o fato de pensar na
fazenda como a sua casa. - Eu tenho que fazer isso, no somente por Nick, mas por mim mesma.
   Mais uma vez, Grant silenciou-se por um longo momento. Murphy permanecia quieto, coisa rara para ele e uma bno para ela.
   - Tudo bem - aceitou Grant, finalmente. - Eu acho que eu entendo. Todos precisam lutar contra os prprios demnios. E voc vai vencer, D. Voc  forte demais
para no sair vitoriosa.
   Ela liberou um longo suspiro, somente agora ciente de que prendia a respirao.
   - Voc faz apenas uma coisa por mim? - indagou Grant, suavemente. Incapaz de falar, ela gesticulou que sim. -Nunca perca a f em si mesma. D, Voc ainda  um
diamante, sempre ser.
   Ele afirmou aquilo com uma certeza serena e inabalvel, o que fez Doris tremer at o mago. Grant a devolvia a coragem que ela perdera.
   Ele pareceu prestes a falar algo mais, porm se conteve. Deu-lhe as costas, com um movimento rpido e decidido, e Doris perguntou-se se era realmente to duro
fazer isso quanto ele demonstrava que era. Egoistamente, desejou que sim.
   Muito depois que Grant partira, a situao ainda a torturava. Ponderava se fora mais um erro terrvel deix-lo partir. Tentava no duvidar de que o veria novamente.
Imaginava se ele seria capaz de trat-la como ela o tratou. Queria ter algum com quem desabafar aquilo tudo.
   Finalmente, chorou, porque as nicas pessoas em quem ela confiaria para falar sobre assunto to ntimo era Nick... e o prprio Grant.

   J fizera coisas mais difceis, Grant disse a si mesmo.S no conseguia relembrar agora de algo mais difcil do que dar as costas e deixar D sozinha para enfrentar
seus prprios demnios dela por conta prpria. Especialmente quando ele estivera a ponto de ter uma atitude bem mais primitiva, como levant-la pelo ombro e traz-la
de volta para a fazenda.
   Ele permanecera em Minneapolis at segunda-feira  noite, assistindo s notcias do testemunho de D no quarto de hotel em que se hospedara. Vendo o batalho
de agentes e policiais que faziam a proteo dela, tivera certeza de que ela estava segura - a segurana possvel naquelas circunstncias. E quando D apareceu na
TV, ele tremera. Pouco havia ali da mulher que visitara a fazenda. Sofisticada, ela vestia tailleur preto refinado, saltos e o cabelo preso de maneira sbria. Uma
mulher da cidade grande em estado puro.
   Ele, ento, voltou para casa, sentindo-se culpado por ir visitar  cidade sem procurar a irm e a me. Entretanto, se convencera de que no poderia v-las antes
de domar as suas emoes.
   Em p, em silncio, no apartamento de D, deu-se conta de que somente uma emoo realmente importava. O sentimento que ele nunca expressara, mas que carregava
silenciosamente dentro de si. No estava certo sobre quando isso brotara. Poderia ter sido bem no incio quando ela descia da caminhonete, e ele dava-se conta da
mulher que D se tornara. Talvez naquela primeira vez em que ela, do alto da montanha, reconhecia a beleza da paisagem... Ou at mesmo - quem sabe? - doze anos atrs,
quando, para a menina, ele era o homem que mantinha a lua no cu. No importa quando tudo comeou. O importante  que acontecera. E, por isso, agora que ele finalmente
reconhecia para si mesmo que a amava, ele no poderia admitir isso para ela. No, naquele momento, quando D tinha uma pela frente. Seria mais presso, quando ela
j ultrapassara o limite do suportvel.
   Alm disso, sabia, bem l no fundo, pelo que D optaria quando chegasse a hora da escolha. Uma vez vencidos os demnios, uma vez derrotados com a coragem que
ele tinha certeza que ela conservava, a mulher voltaria  vida de dedicada policial. A agente determinada que nem sonharia em deixar a sua funo, ou a cidade que
era o seu verdadeiro lar.
   E ele nunca mais a veria de novo. Perderia mais uma mulher para a vida urbana na qual ele nunca poderia viver.
   Voc nunca a teve para perd-la, Grant declarou a si prprio, severo, escovando com mais fora as costas de Curinga. O cavalo reagiu virando a cabea e observando,
curioso, o dono. O garanho tem agido de forma estranha, desde a partida de D. No est exatamente triste, mas se pe junto  cerca do curral todos os dias, olhando
a casa, esperando que a garota com cabelos de ma aparea a qualquer momento.
   - Conte at dez - murmurou Grant para o appaloosa. E siga voc mesmo o conselho, McClure, acrescentou Grant silenciosamente para si.
   Desviou a ateno para o trabalho que lhe restava fazer, determinado a manter longe da mente as lembranas da fadinha de olhos verdes, que, sem que ele percebesse,
lhe tomou de assalto a vida. E o corao.


   Captulo 14

   - Ele deveria ter se cuidado mais.
   - , mas ele parecia que queria prender toda a quadrilha sozinho.
   Doris parou no vo da porta e recuou para fora do campo de viso dos trs policiais que conversavam no escritrio do promotor. Permaneceu na sala de reunies
adjacente at que a adrenalina dentro dela parasse de ferver. Manter a frieza durante a sabatina no tribunal consistiu numa das maiores batalhas da sua vida, e ela
no fazia idia de como se sara.
   - Entrar naquele depsito sem ningum para cobri-lo foi uma loucura. Que Deus o tenha.
   - , mas ns os pegamos. Eles vo pegar a pena mxima. O juiz no engoliu uma s palavra daquela histria fajuta de acidente. E Brady, ela os tirou de circulao.
No permitiu que aquele advogado pilantra a acuasse uma s vez.
   - Nick sempre disse que ela era cabea fria.
   - Talvez, se ele mantivesse a cabea fria, no teria morrido.
   Mordendo os lbios, Doris fechou a porta que abrira. A aprovao casual daqueles homens que assistiram aos interrogatrios preliminares a deixou sem palavras.
E ela precisava admitir que ouvir agora as aes de Nick passo a passo, sem o calor do momento, em detalhes impiedosos, fez com que o amigo aparentasse mais do que
descuido, irresponsabilidade.
   Ela sentou-se no salo de reunies vazio por um longo perodo, questionando por que no enxergara isso antes. De to prxima, no pde interpretar direito o que
ocorreu? Traumatizada para organizar as idias?
   Teria sido a paz do mundo quieto de Grant que a preparara para encontrar a verdade?
   Ela sabia que essa no era a resposta, no a exata. A verdadeira razo era o prprio Grant, a fora e a solidez do carter dele, a f inabalvel nela. Foi isso
que a trouxe at aqui. Ele estava certo. Se ela agisse, a nica coisa que conseguiria era morrer tambm.
   E teve que dar um passo para fora de si mesma para descobrir isso. E esse passo foi dado quando ela, uma dcada depois, voltou a se apaixonar por Grant McClure.
   Um barulho na porta a ps de p de forma automtica. A seo talvez tenha acabado, torceu, mas poderia ser tambm apenas um intervalo ordenado pelo juiz. Quando
a porta se abriu, Doris teve vontade de afundar-se na cadeira. Ela esperava o promotor ou um dos agentes. Certamente, no a viva de Nick.
   Allison aproximou-se e antes que Doris soubesse qual seria a reao da amiga, a viva a envolveu num abrao apertado.
   - Muito obrigada - disse Allison. - Eles vo pagar pelo que fizeram, graas a voc.
   - Eu... - Doris engoliu a saliva e tentou novamente. -No  suficiente, isso nunca deveria ter acontecido.
   - Eu sei. - A amiga sorriu com tristeza. - Mas eu tambm sei que Nick nunca foi racional a respeito desses calhordas depois da morte de Charlie Parness. Ele estava
obcecado. Recebia telefonemas e ia para a rua no meio da madrugada. Ele assumiu os riscos, riscos malucos... mas voc sabe disso.
   Ela sabia, sim, mas via nisso apenas mais um sinal da dedicao de Nick ao trabalho. At tentara confortar Allison certa vez, quando a amiga mostrou-se preocupada
com o marido.
   - Eu lamento, Allison - afirmava Doris agora. - Lamento muito. Eu deveria ter te escutado. Eu poderia talvez...
   Allison a interrompeu, severa.
   - Doris Cecilia Brady, voc ainda no est pensando que isso foi culpa sua?
   Doris recuou, confusa.
   - Eu...
   - Kristina me disse que te mandou para longe para que voc se livrasse dessa idia sem sentido. Voc no est mais pensando assim?
   Kristina sabia disso tambm? A amiga mimada e encantadora era mesmo cheia de surpresas, Doris pensou.
   - Eu amava Nick, amava-o do fundo do meu corao, mas ele foi o responsvel por tudo isso - declarou Allison, com um bom senso que trouxe Doris de volta ao dela.
- Por meses temia que algo como isso fosse acontecer. Desde a morte de Charlie. Era como se eu soubesse que o tempo dele... se esgotava.
   Doris arrepiou-se.
   - Eu apenas me sentia intil, sem valor.
   - Oua, minha amiga - prosseguiu Allison, em tom professoral. - Ningum conhecia mais Nick do que eu. E eu sei que ele tinha um respeito por voc do tamanho do
mundo, como policial e como amiga. Machucaria-o demais saber que voc est se corroendo por alguma idia equivocada de que pudesse fazer algo para impedir o que
aconteceu. Por favor, no se culpe. Ningum mais te culpa. Muito menos, eu.
   Doris sentiu um peso evaporar do seu corpo, uma presso que ela j carregava por tanto tempo, que se acostumara com a tortura. Ela enfrentara os seus demnios,
e quatro deles pagariam a pena que mereciam, por causa dela. At mesmo o juiz lhe dedicara um olhar de aprovao, depois do depoimento firme, preciso, da principal
testemunha da acusao. A velha autoconfiana voltava de uma vez s para preencher o vazio que aquele n horrvel deixava. E, junto com a autoconfiana, a conscincia
de que ela poderia voltar  prpria vida, ao velho emprego, com toda a f e competncia que pensara ter perdido para sempre.
   Doris encarava a amiga cuja a fora tranqilidade a impressionava.
   - Allison, voc est mesmo bem?
   - Eu estou ficando bem. Matt e Lisa ajudam. Voc no pode ruir quando duas crianas dependem de voc.
   - Eles esto...?
   - Eles esto sentindo falta  da madrinha. Quando voc vai visit-los?
   - Eles... querem me ver?
   - Claro que sim. Eles perderam o pai. Precisam de todos ns juntos com eles. - Allison a olhou como um mdico observa um paciente. - Est tudo bem com voc, no
est?
   Doris respirou fundo.
   - Est - disse ela, controladamente. - Acho que est.
   - timo, assim voc pode passar o Ano Novo com a gente.
   - Eu... acho que no vai dar. Eu vou visitar as crianas, mas depois... eu tenho uma outra coisa para fazer. Algo muito importante.
   No mesmo instante em que pronunciou as palavras, Doris sabia de que se tratava de um eufemismo. Nada na sua vida era mais importante do que aquilo que ela tinha
que fazer agora.
   Ela poderia, sim, voltar para a vida que de forma to brutal interrompera. Poderia, sim, retomar o trabalho com a confiana plena, mas no com dedicao total.
No com todo o corao e alma. Havia deixado muito dos dois, muito de si, naquela fazenda em Wyoming.

   Grant colocou o fardo de alfafa na caamba da caminhonete, resignado a dar incio ao priplo de alimentar os animais. Se fosse um criador dado a excessos, alugaria
um helicptero e espalharia a comida toda em algumas horas.
   Ele escutou o latido de boas-vindas de Aposta quebrar o silncio da manh. Walt j deve estar de volta depois de levar a gua leopardo e a potranca para os exerccios
fora do curral. Grant os vira partir, rindo do caminhar receoso da beb pela neve at a estrada. Fazia tempo que no sorria.
   Afastando os pensamentos melanclicos da cabea, ele se ocupou do fardo seguinte, na dvida tomara a deciso correta de assumir sozinho a tarefa que era normalmente
executada por dois homens. Entretanto, preferia fazer as coisas sem a companhia de ningum ultimamente.
   Mesmo o sem limites Risada e o digno de respeito Walt mantinham uma certa distncia dele, depois de terem sido repreendidos inutilmente algumas vezes.
   Curinga relinchou altssimo no galpo. O barulho do animal intrigou Grant. O cavalo se mostrava quase to mal humorado quanto o dono nos ltimos tempos, e h
muito no se ouvia um rudo extrovertido do garanho. Ele deixou a caminhonete um segundo e de onde estava espiou o galpo e, depois, a casa. Nada. Voltou ao trabalho.
   - Feliz Ano Novo - resmungou para si e empilhou o segundo fardo sobre o primeiro. Mais um, e outro, sua contrariedade aumentando minuto a minuto.
   Praguejou com a respirao ofegante ao usar demais de sua energia irritada no ltimo fardo. A alfafa rolou por cima da pilha e cairia do outro lado da caamba
da caminhonete. Grant teria que ergu-la novamente, se  que ela no se espalharia por todos os lados no cho. Ele esticou-se para impedir o desastre, ciente de
que isso no era possvel.
   O fardo de alfafa parou sem que ele o tocasse e foi arrumado com capricho no topo da pilha.
   - Obrigado - murmurou ele para Walt, que deveria ter aparecido na hora certa para lhe poupar o trabalho.
   - De nada.
   Ele congelou no instante em que tirava as luvas. Meu Deus, estava realmente enlouquecendo, ouvindo a voz de D, mesmo quando sabia...
   Ela apareceu de detrs da pilha de alfafa. Ele a olhou pasmo enquanto D caminhava em sua direo. A expresso dela no lhe dizia nada. Por que veio at aqui?
   E como? No escutara barulho de carro, embora ela pudesse ter caminhado da estrada principal, por onde o nibus passava, at a fazenda. Diferente da mulher sofisticada
da cidade  qual ele assistira na TV, D vestia jeans, botas, uma jaqueta de brim forrada e uma camisa de flanela verde que destacava a cor de seus olhos. S faltava
o rabo-de-cavalo. O cabelo quase branco de to louro estava solto, livre, e o corpo de Grant enrijeceu  primeira lembrana daqueles fios de seda sobre cada parte
ntima dele. Ele lutou para se controlar, e a tenso tornou a sua voz mais grave.
   - Eu ouvi sobre o interrogatrio - disse Grant, abruptamente. - E sobre o indiciamento. Parabns.
   D parou a menos de um metro dele e deu de ombros.
   - H uma chance de que eles se declarem culpados para no irem a jri. A gangue no quer o estardalhao de um julgamento, e eles so um custo com o qual o bando
pode arcar.
   - Voc fez o que tinha que fazer.
   - Fiz, exatamente como voc disse que eu faria.
   - Voc era a nica que pensava que no poderia. -Grant terminou de tirar as luvas. - Voc est... bem?
   - Estou. E voc estava certo. No havia nada que eu pudesse fazer. At mesmo Allison sabia disso. Mas eu... tinha que descobrir isso por mim mesma.
   - s vezes, a gente tem mesmo - concedeu Grant. - Quando voc volta para o trabalho?
   - De imediato, eu espero.
   Sem alarido, uma ltima chama apagou-se dentro dele, uma esperana derradeira que ele nem mesmo sabia que guardava. Grant olhou para longe, ao guardar as luvas
no bolso, inseguro quanto a sua fora para manter um semblante sereno.
   - Ao menos - completou Doris, suavemente - que o patro da fazenda McClure no esteja empregando ningum agora.
   Ele voltou seu olhar de forma instantnea para ela.
   - O qu?
   D deu dois tapas na pilha de alfafa.
   - Voc parece que est precisando de uma ajuda.
   Grant sabia que sentia-se embasbacado diante dela, mas no podia evitar. Ele a viu respirar fundo, segurar o ar e pr a mo sobre o carregamento da caminhonete,
como se precisasse do apoio extra.
   - Mas pode haver um problema - continuou Doris, com a voz trmula. - Eu estou procurando por um emprego permanente.
   Grant engoliu em seco, certo de que no compreendia direito o que D estava dizendo.
   - Voc... j tem um. Ou no?
   - Eu tinha. Um emprego que eu amei, durante um tempo. Mas eu me dei conta de que os custos ficaram maiores do que os benefcios. Custos maiores do que eu podia
suportar. Ento, eu pedi demisso.
   Grant piscou, espantado.
   - Voc se demitiu?
   Ela acenou positivamente com a cabea.
   - Uma besteira, provavelmente, mas voc sabe como so as mulheres da cidade grande. Loucas. Mas, uma vez que eu... enfrentei as minhas dvidas, uma vez que vi
que poderia voltar, eu no precisava mais, eu no queria mais. Tendo ou no... um outro lugar para ir.
   - Voc se demitiu, mesmo?
   - Ontem.
   Ontem. Ela deixou a polcia ontem e veio direto para c?
   - D - afirmou Grant, atnito, ainda no acreditando no que ela dizia.
   D arrancou uma farpa da base de madeira entre os fardos e a caamba da caminhonete. Tirou mais uma, outra, com os olhos fixos, como se as lascas fossem a coisa
mais fascinante do mundo. Grant viu que D tinha o mesmo nervosismo dele. Ela levantou o queixo, e l estava a corajosa e saliente mulher que ele conhecera na adolescncia
e, qui, sempre amara.
   - Voc realmente batizou a potranca de "Tenha D"? Grant assustou-se. Walt deveria ter dito.
   - Eu... Sim.
   - Era isso... que voc queria?
   Um n formou-se na garganta dele. Ele a devia isso. Ela veio at aqui, claramente insegura sobre o modo como seria recepcionada. Somente por pensar no sangue-frio
que isso teria exigido, Grant tremeu por dentro.
   - O nome - explicou ele - no  um desejo.  mais um... lamento.
   A respirao dela tornou-se audvel. Os olhos verdes se abriram, e a esperana que eles revelaram o mostraram o que ele precisava saber. Mais ainda, sabia agora
que D tinha algo mais do que Constance, algo com o que nem sua me contava, uma independncia determinada e feroz. Uma independncia que assegurava que se ela ficasse,
era porque queria ficar.
   - Se voc realmente quer esse emprego, h... vagas. Se voc realmente est certa sobre onde voc est entrando.
   - Eu estou - sussurrou D. - Eu estou, se voc est.
   - Voc lida com Curinga muito bem - afirmou Grant. - E voc tambm fez um bom trabalho quando a potranca nasceu.
   - Eu espero que venham dzias mais de bebs - disse D, um tanto descuidada. - Este lugar precisa deles.
   Grant ouviu agora a sua prpria respirao.
   - Em que tipo de bebs voc est pensando? Ela o encarou, firme.
   - Eu te amo - declarou-se D, simplesmente. - Em que bebs voc pensa?
   Grant fechou os olhos por um segundo.
   - Eu... te amo tambm.
   - Eu sei - afirmou ela, relaxada. Grant abriu os olhos de pronto. D riu com afeto dele. - Descobri isso quando voc foi atrs de mim na cidade, mesmo odiando
o lugar, apenas para certificar-se de que eu estava bem.
   Grant riu, consternado.
   - Me entreguei, no ?
   - Eu apenas no sabia se voc... me amava o suficiente para me perdoar.
   - Perdoar voc?
   - Por ser uma garota da cidade grande.
   - Voc no  - sentenciou ele, solenemente - mais uma garota da cidade grande.
   - E nossos filhos tampouco vo ser crianas da cidade.
   Grant no pde controlar o sorriso que se espalhou pelo seu rosto, ao pensar em dois ou trs pequenos bagunceiros, indomveis como D, em frenesi pela casa.
   - Eu estou comeando a pensar - disse ele, ainda sorrindo - que uma filha do appaloosa Fogo dos Fortune merece um nome mais apropriado.
   - Qual?
   Grant a abraou, enfim, e o fogo que o tomou ao senti-la ele nunca havia ousado experimentar antes.
   - Fogo de Dar D - sugeriu o criador.
   Antes que ela pudesse responder, ele a beijou e a mostrou exatamente o que queria dizer com a homenagem.


   Eplogo

   - Este  o tipo de sangue de que essa famlia precisa -disse Sterling Foster, em aprovao, ao entrar no quarto. A fala arrastada no prejudicava em nada a nfase
das palavras dele.
   - Que sangue? - Kate Fortune levantou-se graciosamente da cadeira, enquanto falava o advogado, alto, de cabeleira branca, o homem que ficara ao lado dela durante
os altos e baixos dos ltimos anos.
   - Esse garoto McClure.
   Kate sorriu. Ela no iria contradizer Sterling, mesmo que freqentemente discordasse dele s pelo prazer do debate. Neste caso, concordava completamente. Encontrara
o filho de Barbara poucas vezes, mas ouvira o suficiente para gostar dele como se fosse sangue do seu sangue. A nora e a amada Kristina sempre tinham um elogio a
mais para o rapaz.
   Sterling passara a concordar com ela, depois que conheceu Grant, quando informara ao garoto que Kate lhe deixara o garanho appaloosa.
   "Ele no deixou que eu o intimidasse", fora tudo o que Sterling disse, mas, conhecendo o homem como ela conhecia, ele tinha dito demais.
   - O que o menino tem feito agora?
   Sterling gesticulou com um catlogo, enrolado como um canudo, na mo. Kate reconheceu o guia de compra e venda de cavalos.
   - Ele vendeu a primeira cria de Fogo dos Fortune por mais dinheiro do que qualquer cavalo no mundo vale.
   Kate riu. Cavalos no eram meti de Sterling.
   - Voc acha que qualquer dinheiro  demais para um cavalo.
   - Eu sei, mas eu reconheo um bom homem de negcios quando eu encontro um. Ele est faturando com o presente que voc deu para ele.
   - Mais do que voc pensa - replicou Kate, ainda em sorrisos. Coisas incrveis aconteciam, e os presentes dela para a famlia tinham obtido resultados que a matriarca
nunca ousara esperar.
   - Nesse ritmo, quando ele tiver mais alguns para vender, aquela fazenda dele vai entrar no mapa.
   O sorriso de Kate tornou-se um sorriso de mistrio.
   - Eu acho que pelo menos um ele vai manter com ele, a potranca chamada Fogo de Dar D.
   - Fogo de Dar D? Como vocs desse mundo de cavalos aparecem com esses nomes?
   - D - explicou Kate -  como Grant chama a esposa.
   Sterling mostrou espanto, e Kate gargalhou. No era sempre que ela o surpreendia, e desfrutava do fato imensamente quando conseguia.
   - Ele se casou? Eu pensei que Kristina tinha dito que nunca se casaria, depois daquela tal Carter. Com quem ele casou? Espere... - Kate riu ainda mais quando
o raciocnio rpido de Sterling pareceu novamente aceso. - A amiga de Kristina, que foi se esconder em Wyoming? A que ajudou a botar aquele canalha na priso tempos
atrs?
   - Doris Brady - confirmou Kate. - Embora eu pense que todos s vo cham-la de D a partir de agora. Ela  uma menina maravilhosa.
   - Eu sempre gostei dela - reconheceu Sterling. - Ela era uma boa influncia para Kristina.
   - Kristina foi uma madrinha de casamento adorvel -afirmou Kate, um pouco emotiva. Ser que um dia a amada neta entraria de vu e grinalda numa igreja? Talvez
se Kristina voltasse s suas origens, fosse para a Califrnia, se afastasse do caos em que se transformou isso aqui... Coisas estranhas tm acontecido, vrias desde
a sua suposta morte. Os legados que deixara para os seus amados serviram de alguma maneira como uma virada na vida de cada um deles.
   Sterling franziu a testa para Kate.
   - Como voc sabe disso? Voc no foi passear por a no perodo que eu estava fora? Eu te disse, voc tem que ser mais cuidadosa... Voc quase foi descoberta uma
dzia de vezes.
   - Eu tenho os meus truques - respondeu Kate, ainda sorrindo. O riso em seguida desapareceu. - Mas isso no pode continuar por muito mais tempo, Sterling. Jake
est cheio de problemas, ele precisa de todo o apoio possvel. Toda essa baguna com o assassinato de Monica... E descobrir a verdade sobre o pai... Meu plano era
continuar morta at encontrarmos quem tentou me matar. Bem, agora a gente sabe quem foi, e ela est morta. E minha famlia est precisando de mim mais do que nunca.
Eu apenas tenho que descobrir como voltar do mundo dos mortos sem mat-los de susto!
   - Vamos conversar sobre isso mais tarde - disse o rabugento, ao mesmo tempo que gentilmente abraava Kate.
   Ela suspirou. Dependia cada vez mais do apoio temperamental, mas infalvel, de Sterling. A matriarca no tinha idia do que faria sem ele. Os Fortune necessitavam
de conselhos sbios para sobreviver a essa derrocada.
   E eles tinham que sobreviver. Ela no deixaria que outra coisa ocorresse. E seja qual fosse o destino que os levou at aquela encruzilhada, ele logo saberia que
Kate Fortune ainda estava pronta para briga.
   Os Fortune, a matriarca pensou determinada, no eram filhos do destino, mas filhos dela. E ela os veria superar aquilo tudo.

   FIM
Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!
